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2012

Se você não conhece suas opções, então você não tem nenhuma

por Nanda

Recentemente, tive a oportunidade de conversar com algumas gestantes atendidas exclusivamente pela rede pública. Todas abaixo dos 19 anos, uma delas já na segunda gestação. Conversando com elas eu pude perceber muito claramente o vão enorme que separa o discurso da realidade. Uma das meninas queria uma cesariana por medo da dor. A que já havia passado pela experiência de um parto traumático com ocitocina sintética, anestesia e episiotomia, sem a presença do acompanhante, parecia indiferente. Como se o que estivéssemos falando simplesmente não coubesse dentro de sua realidade.

Pouco a pouco pudemos ver a mudança no interesse daquelas meninas mães. Conhecendo somente histórias de terror onde o médico sobe em cima da barriga para executar uma aberrativa manobra de kristeller, onde deve-se dar graças por conseguir um leito em um hospital, ver pessoas que lutam para mudar isso deve ser realmente gratificante.

Um conselho comum dado à gestantes que buscam empoderamento para um parto natural é brigar por ele antes do trabalho de parto. Não adianta chegar no hospital brigando, dizendo que não quer isso ou aquilo, pois será infrutífero. No entanto, essa briga é a única que essas mulheres podem comprar. Elas só o farão se souberem por que lutar. E ainda assim, qual a garantia que conseguirão um tratamento diferente do padrão?

A essas mulheres, foi mostrado o vídeo-viral do parto da Sabrina. Eu fiquei um pouco reticente com isso a priori. Não é quase desumano mostrar um vídeo (lindo) de um parto domiciliar com equipe particular a uma pessoa que tem sorte se pegar o mesmo médico durante o pré-natal? Após ouvir a reação delas eu percebi que não. A sensação de acolhimento, o prazer de Sabrina quando Lucas está coroando, a emoção que o vídeo passa, isso dá toda uma nova dimensão ao discurso.

Ali elas perceberam que vale a pena lutar pelo direito do acompanhante. Ali, elas perceberam que quem faz o bebê nascer é elas. Que mesmo dentro de sua realidade, elas têm, sim, opções. A diferença é que antes elas não sabiam quais era. A frase que dá título ao post é de Diana Korte, autora do livro Good Birth, Safe Birth. Então meu agradecimento à equipe do vídeo, que viralizou e tornou essas opções muito mais palpáveis para diversas pessoas. Mas um agradecimento especial, em nome dessas três meninas-mulheres-mães.

Lembrando que esse é o começo da semana do Dia Internacional da Mulher. E que vem muita coisa boa por aí!


4 comentários no post “Se você não conhece suas opções, então você não tem nenhuma”

  1. Nanda, muito interessante a experiência de mostrar o vídeo do parto da Sabrina para essas gestantes do SUS, porque acredito que é ai, no SUS, que está o potencial para a mudança do sistema obstétrico, senão será sempre um movimento crescente, mas pouco efetivo em valores numéricos.
    E para escolher, é precisar ter opção, é preciso conhecer.

    Beijos!

  2. Amanda C. de Lima disse:

    nanda, eu vivi a experiencia de parir pelo SUS e ter feito duas aulas de um curso de gestantes também em um hospital do SUS. E o que deu pra perceber, pelo menos no RS, é que cesárea, somente nos casos em que ela tem indicação real.
    Pelo que deu pra perceber, o que pesa é a questão financeira, já que em um PN não se usa o centro cirúrgico, a internação pós parto é 24 hrs e o alojamento é conjunto.
    Na manhã em que minha filha nasceu, estávamos em 4 no quarto de pré parto, que é coletivo (até seis mulheres). Apenas uma dessas teve cesárea, não sei a real razão, mas ela entrou, o GO de plantão examinou e já pediu que fosse preparada, pois teria que fazer a cirurgia.
    Já uma moça ao meu lado, que não aceitava nenhum tipo de ajuda das enfermeiras (elas ensinavam a como ‘rebolar’ na bola para ajudar a dilatar, a não ficar deitada (que piora as contrações e aos acompanhantes a fazer massagem na lombar) fica pedindo cesárea toda, o GO examinou, disse que ela estava com 8 cm e com bebe encaixado, não dava pra fazer cesárea, teria que ‘esperar’ o normal.
    A questão da escolha e muito mais daquelas mulheres que, ou tem plano de saúde, ou fazem o pré-natal pelo sus e ‘pagam por fora’ uma cesárea, achando que isso é status. Infelizmente, a cultura criada no país é que PN é coisa de pobre (inclusive PD) e agendar a cesárea é coisa de rico.

    1. Nanda disse:

      Amanda, mas as opções não se limitam a parto normal x cesárea, entende? A briga é por um parto digno, um parto respeitoso, um parto que respeite a fisiologia da mulher. Sem sorinho, sem episio, sem litotomia obrigatória. E isso não é garantido ou permitido à esmagadora maioria das pacientes do SUS.
      Aqui em Maceió eu sei que cesareas são agendadas mediante a vontade da paciente, infelizmente. Tanto que até o SUS por aqui chega a 51% de cesarianas. Talvez seja um reflexo do caos em que a saúde pública esteja por aqui, uma vez que não há vagas o suficiente para pacientes de baixo risco, talvez seja um reflexo da situação obstétrica no Brasil como um todo. Que é o que pretendemos mudar, não é?
      Beijão!

  3. Yara disse:

    Acho que a opção de brigar pelo parto que se quer ainda é um sonho para a maioria das mulheres… e não é só para as que são atendidas pelo SUS: os planos de saúde pagam 200, 300 reais a um médico por parto, logo, as vítimas também estão escondidas em maternidades bonitinhas de paredes brancas que se dizem humanizadas. Nem todas as pessoas que possuem um plano de saúde tem dinheiro para bancar parto domiciliar, doula, etc, mesmo porque muitas vezes esse plano é contratado pela empresa e, ao brigar, corre-se o risco de perder o emprego. Enfim, acho que esse ainda é um longo caminho que envolve principalmente mudança de cultura.


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