fev

3

2012

Responsabilidade, culpa e medo

por Kalu

Com toda a gestação nasce o medo. Medo do desconhecido, das transformações, medo do medo que a sociedade nos ensinou a ter deste evento mágico e espiritual que faz parte da vida de toda a mulher.

Em nome deste medo tomamos vitaminas, fazemos mil exames e ultrassons para que através dos olhos de fora possamos mapear e calar nosso medo.

Quando estamos movidos pelo medo deixamos de assumir responsabilidades. Por isso aceitamos uma figura materna/paterna para assumir por nós essa responsabilidade diante do nascimento. Essa figura é o médico.

A ele foi ensinado também o medo e o principal dele é o medo da morte. Por ser o único responsável pela vida da gestante e o bebê, esse medo permeará sua conduta. Diante, por exemplo, de um parto vaginal após cesárea, que se sabe que em um parto natural existe 0,5% de ruptura uterina e a cirurgia 1% de risco de uma hemorragia pós parto, muito provavelmente esse médico, movido pelo medo dos 0,5% ele optará por uma nova cesárea. Afinal todo o sistema iria culpá-lo se ele optasse, dentro da rede particular a encarar um parto normal, que acontece em uma porcentagem mínima (o que dirá pós uma cesárea).

Quando não assumimos a responsabilidade por nossas escolhas iremos buscar culpados caso nosso desejo frouxo de um parto natural existir. Culparemos a bolsa rota, a morte de outra criança. Esconderemos-nos atrás de nossa culpa para não assumir a responsabilidade por nossas escolhas.

Quando não assumimos a responsabilidade, movidos pelo medo, iremos buscar culpados para nossas falhas. Iremos apontar o dedo para todos os lados menos para nós mesmos. Vamos culpar o bebê pélvico sem deixar de perguntar o que o levou a assumir esta posição e se não havia nada que pudéssemos fazer diferente. Vamos culpar o estreptococus, o mecônio, a pré eclampsia.

Não assumimos a responsabilidade porque temos medo de que algém nos culpe se algo der errado. O medo surge da desconfiança, na falta de fé em nossa fisiologia que vem antes mesmo da “doença” em si. Coragem não é ausência de medo, é saber que outras coisas são mais importantes.

Quando assumimos a responsabilidade com a consciência de que tudo que passamos é porque temos que passar para sermos livres libertamo-nos da culpa e do medo para viver a luz da responsabilidade. E mover-se pelo medo nos afasta do aprendizado.

Um parto humanizado passa da premissa da co-responsabilidade em que condutas embasadas em evidências são apresentadas para que a gestante/companheiro e equipe tomem a melhor decisão dividindo a responsabilidade.

Mesmo que o resultado de uma escolha seja a mesma, quando assumimos a responsabilidade e colocamos consciência em nossos atos deixamos de culpar e podemos experimentar a grande transformação.

Diante de uma cesárea podemos culpar a nós mesmos, podemos culpar o medo que a equipe ou uma situação nos causou e escondidas atrás deste medo viveremos a mascarar nossas feridas latejantes. Encarar os medos, os limites e declarar-se responsável pelas escolhas é a chave para a liberdade.

Liberdade que pode te colocar em situações semelhantes em outra ocasião e sua resposta positiva será diferente, mudando o desfeixo da história.

Assim nascem os heróis. Não aqueles que não tem medo, mas aqueles que estiveram frente a frente com ele e escolheram com responsabilidade que outras coisas eram mais imporantes.

Grandes nomes da humanização conheceram o medo de perto e viveram-no na pele. O que as transformou em ativistas foi a coragem da responsabilidade.

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