fev
2
2012
Fazendo a caveira do parto domiciliar
por Nanda
Para entender o rebosteio que a notícia sobre a morte de Caroline Lovell, é preciso entender um pouco como o jornalismo funciona. O fato noticioso é aquele acontecimento que se difere do corriqueiro. Uma queda de avião, um transatlântico naufragado, três prédios desmoronados, a tropa de choque sendo usada para expulsar famílias inteiras de suas casas… Exceções são abertas para assassinatos, que embora corriqueiros, tornam-se fatos noticiosos per se.
O jornalismo de internet brasileiro tem a péssima mania de pegar matérias de outros sites, postando uma tradução meia-boca que mais confunde do que informa o leitor. Isso é feito com basicamente todas as notícias internacionais em “primeira mão”, portanto não há de ser feita uma acusação específica. O texto – de todas as fontes, de todos os portais – é tão ruim que nem podemos acusa-lo de parcial: eu realmente acredito que o desencontro de informações foi um erro de tradução. Fica no ar a pergunta: há algum interesse por trás da disseminação dessa notícia?
O fato curioso é essa notícia ter recebido tamanho destaque na página principal desses portais. Não me recordo de Marni Kotak, aquela artista novaiorquina ter recebido tamanha noticiabilidade ao dar à luz em uma galeria de arte, acompanhada de uma parteira e seu esposo somente. A vida não vende jornal, nem gera cliques. E então temos a nossa resposta: sim, há interesses por trás da repercussão que a morte de Caroline Lovell gerou internacionalmente.
Lovell era uma fotógrafa australiana, ativista pelo parto domiciliar. Ela lutava para que o direito de parir em casa fosse reconhecido pelo Estado, que tentava proibir a atuação das parteiras (midwives) na Austrália, mais ou menos como o Brasil anda fazendo, dificultando o único curso de obstetrizes existente no país. Morreu devido à complicações no seu segundo parto domiciliar, após ser habilmente transferida, falecendo no dia seguinte, já internada no hospital, de causas ainda não divulgadas.
Logo agora, que a Grã-Bretanha está se movimentando no sentido de garantir às cidadãs britânicas o direito de terem um parto domiciliar assegurado pelo sistema de saúde público. Logo agora, que estudos vem comprovando que o parto domiciliar é tão seguro quanto o parto hospitalar. Logo agora, que o parto domiciliar torna-se uma opção consciente, cientificamente embasada e entra na pauta não graças aos seus riscos, mas por que vem se tornando uma melhor opção para as gestantes de baixo-risco.
Porque com o Projeto Cegonha chegando por aí fantasiado de humanizador do atendimento obstétrico, logo surgiriam os questionamentos: mas peraí? Não seria mais interessante capacitar obstetrizes para a assistência domiciliar de baixo risco? Essa não é uma opção mais viável e lógica para os locais remotos do Brasil, onde, aliás, as parteiras tradicionais ainda atuam? Não, não. Demonizar o parto domiciliar antes que ele se torne um questionamento parece mais fácil do que responder a essas perguntas.
A morte de Lovell é o resguardo de vários sistemas de saúde privatizados em todo o planeta, que dependem da medicalização do nascimento para garantir seu lucro. E é por isso que ela é notícia. Os argumentos de que essa morte é notícia por ser raridade são válidos, mas não abrangem a totalidade dos fatos. Graças à tecnologia, as mortes materno-infantis diminuiram bastante, apesar de ainda serem cotidianas. Morre-se no parto normal, morre-se na cesariana. Morre-se em casa, na ambulância, no hospital.
Aliás, morre-se muito mais no hospital. Morre-se por que colocam leite na veia, morre-se por infecção generalizada, morre-se por cortes em locais indevidos. As mortes materno-infantis são fatalidades, e não tem jornalista de plantão no hospital para noticiar nenhuma delas. Então enxerguem a morte de Caroline Lovell como enxergariam tivesse ela parido no hospital ou tido uma cesariana: uma fatalidade. Parem de usá-la como bandeira pelo parto hospitalar e medicalizado. É um desrespeito à memória dela e à sua luta. E é um desrespeito à nossa inteligência.
categorias: Nanda, mãe e mulher, parto
tags: caroline lovell, morte, notícias, Parto Domiciliar





É triste, é trágico ela ter morrido, mas pelo fato de que ela era uma mãe, porque ela tinha familia, porque ela tinha uma vida linda pela frente, porque a morte sempre dói, e não porque foi um parto em casa.
Sua morte não é e não deve ser usada como uma bandeira para “jogar” na cara de ninguem, ohh tão vendo suas doidas, olha o que aconteceu… Isso é desrespeitoso até mesmo com a memória dessa mulher que ao que me parece lutava pelo que acreditava ser o certo.
Mães e bebes morrem em hospitais, a morte é infelizmente parte da vida pode acontecer sim, mas não é o parto natural, o parto em casa que vai potencilizar a morte, não mesmo.
Eu fiquei bem triste ao ver as pessoas USANDO esta noticia.
Pois é…as pessoas se esquecem que é muito mais “fácil” morrer num parto hospitalar (tanto a mãe quando o bebê). E ontem já nos foi falado que isso de parto domiciliar é uma idiotice. E ainda falamos “é nada, vamos fazer isso, oras”. A pessoa, claro, ficou com cara de tacho =P
Só tenho uma coisa a dizer: FALOU E DISSE!!!!!
Isso garota, gostei de ver, vamos politizar devidamente o que chega travestido de “informação neutra”, questionar quais são afinal as visões de mundo por trás do que está dado como “normal” e não pode ser contrariado.
A quem interessa explorar ao máximo essa tragédia pelo lado do “parto em casa”?
Uma tragédia e ponto, como colocou a companheira acima. Fazer generalizações sem levar em conta as especificidades de cada história de parto (seja ele onde for, do jeito que for) é uma estupidez. Mas explorar algumas tragédias pra “provar um ponto”, aí já é indignidade e mau-caratismo.
post perfeito!
Pois é… eu li esta notícia e torci o nariz! Morreu por que pariu? oi? Da onde? Estramente não divulgaram a causa real da morte, não é mesmo?!
Informacao neutra infelizmente nao existe no Brasil, e acredito a cada dia que nao exista em lugar nenhum. Nao sabia da morte dela. Sinto pela familia que perdeu mae, esposa, irma, filha, amiga, prima, companheira… Pela midia, sinto nojo pelo estardalhaco que fazem de situacoes tao delicadas quanto a morte de alguem, por qualquer razao que seja.
Beijos a todas…
Foi o que pensei na hora que vi a notícia estampada em um portal de internet: “ótima munição para médicos induzirem ainda mais às cirurgias”. Realmente um desserviço ao parto humanizado e ao direito da mulher escolher onde e como quer seu parto.
clapt clapt clapt!!! perfeito!
[...] Atualização 02/02: Antes de ler este texto, por favor, prefira ler este aqui, do blog Mamíferas: Fazendo a caveira do parto domiciliar [...]
Desde que vc me disse, ontem, que haveria um texto seu sobre isso hoje, estava eu aqui ansiosa.
Perfeito, Fernanda, perfeito!
Como disse a Andreia Mortensen, algum interesse há em se divulgar isso aqui no Brasil, enquanto na Dinamarca ninguém falou a respeito…
Beijos!
Como jornalista, tenho que concordar contigo e com tristeza… Obviamente, essa morte era tudo que o sistema de saúde convencional ligado à maternidade aguardava para usar como apoio e exemplo, a fim de reafirmar seu poder. E pior ainda, não sabemos o que ocorreu, verdadeiramente, naquele hospital (provavelmente, nunca saberemos). Isso acontece também quando há um óbito por sequela de vacinação, nunca será admitido publicamente que essa foi a causa; no entanto, se uma criança não-vacinada morre… ou como o caso da criança que faleceu pela alimentação equivocada, visto que “seus pais eram vegetarianos” – mas quantas crianças alimentadas com carne morrem diariamente! Não lembro de ter visto a morte de mulheres por cesárea sendo divulgada com tanta ênfase… mas, enfim, continuemos mostrando a eficácia das nossas ideias e ações, me parece ser o melhor antídoto ao veneno espalhado pelo oponente. Grande abraço!
Fato!! Incrível como a mídia está totalmente dominada pelo poder do lucro!! Gerar medo como ferramenta mais útil na manutenção do sistema corrupto e desumano!!!
Tudo que se disser depois desse texto é redundância, perfeito Nanda.
Lamentável a forma como o caso foi noticiado e mais lamentável ainda a maneira como as pessoas se utilizaram de uma péssima reportagem para repudiar o parto domiciliar, como se uma morte invalidasse os milhares de partos domiciliares feitos em todo o mundo.
Excelente reflexão Nanda!
Maravilhoso. Sensacional. “Classe A, cinco estrelas”, diria Simone Diniz! rs
Beijos Nanda!
Super parabéns e obrigadíssima!
Muito boa a análise sobre o caso. Ah, logo vi uma comparação com a última das coisas que fugiria do rotineiro: “a tropa de choque sendo usada para expulsar famílias inteiras de suas casas…”, que também foi muito mais vista pelo lado “tradicional” da história. Infelizmente, tod@s sabemos qual a “média” político-ideológica que serve de base para a produção jornalística, por isso é muito importante espaços como esse de vocês – por mais que não tenha a transmissão massiva de uma notícia na TV…
Muito bom! Compartilhei!
em contrapartida, uma noticia tão triste quanto, mas que não coloca em questão a hegemonia dos partos realizados nos hospitais.
os riscos existem, e para morrer basta estar vivo. é que li essa noticia hoje e pensei: mulheres e crianças também morrem nos hospitais por causa de alguma intercorrencia, e neste caso, por uma feia negligencia. uma tristeza.
não podemos generalizar nenhuma das duas situações e rotula-las como seguras ou perigosas a priori.
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,mesa-quebra-no-parto-e-bebe-morre-com-a-queda,556727,0.htm
Oi meninas, sempre leio o blog mas nunca comentei. Amo os textos e, apesar de nem pensar em filhos agora, quero muito um parto domiciliar e uma maternidade ativa quando isso ocorrer. Hoje fuçando no facebook vi esse link no mural de um amigo e não acreditei:
http://ceticismo.net/2012/02/01/defensora-de-parto-residencial-morre-ao-dar-a-luz-em-casa-darwin-faz-uma-marquinha/
Sério, não é possível que uma pessoa escreva uma bobagem dessa e outros idiotas a defendam.
O blog é lindo e vocês são mulheres inspiradoras.
Beijos
Obrigada, Lígia!
Muito me espantou esse post do rapaz, em um site chamado ceticismo.net. Eu me considero uma pessoa bastante cética, acredito na ciência como máxima, e ainda assim considero o parto domiciliar a melhor opção para gestantes de baixo risco.
Dei uma resposta lá, mas infelizmente só espero escárnio e cegueira de volta. Vamos aguardar…
Entre o capitalismo e o hippismo, fico com o capitalismo. Mais perniciosa do que a máfia dos planos de saúde é a ideologia da resistência regressiva ao sistema. Espero que essa perda ao menos sirva de alerta para as mulheres do mundo inteiro. Se existe futuro para a humanidade, o “parto domiciliar” não passará de mais uma modinha dessa geração de mães, reconduzidas pela crise econômica a uma idealização tardia da vida doméstica.
Viajou, querida.
A mulherada aqui faz questão do parto natural para “sentir o gosto”, como a Tata bem definiu nesse post que pra mim é sensacional:
http://www.mamiferas.com/blog/2011/01/que-a-gente-nao-precisa-provar-nada-pra-ninguem.html
Como você é capaz de avaliar isso como “modinha”?
O ser humano perde demais por negar sua biologia. Eu me impressiono com essa necessidade da modernidade subjugar o corpo (não sabe o que tá perdendo com isso). Isso sim é regressão. Menos teorias, menos ideologias. Mais vida, por favor.