fev

21

2012

Em casa

por Kalu

Todos os anos quando chega o dia do aniversário do Miguel muitas coisas me vêm à mente. Lembranças de um dia incrível e marcante de minha história, de um parto vivido com tranqüilidade no meu lar, sem consciência real do que estava acontecendo e um nascimento de pouco mais de 40 minutos.

Recorrentemente eu ouço de mulheres, grávidas de seus primeiros filhos, o desejo por este nascimento em casa embotado de certo receio. Muitas vezes eu ouço:  Quem sabe no segundo filho?

Como doula e ativista sei que “bancar” um parto domiciliar exige muito trabalho interno. Afinal, temos a mentalidade de que parto é um acontecimento perigoso, de que a mudança do local do parto de casa para uma instituição pode salvar muitas vidas. E que quando essas certezas de segurança não são trabalhadas, o melhor lugar do mundo é aquele em que a gestante se sente mais segura. Mas seu eu pudesse desejar algo para estas mulheres, desejaria que buscassem mais informação, que trabalhassem internamente essa questão da segurança, porque as evidências mostram que o melhor lugar para se nascer é em casa com assistência qualificada.

Quando escolhemos uma equipe, uma instituição, nós estamos entregues aos limites e protocolos externos. Quando decidimos por parir dentro de nossas casas assumimos a responsabilidade e regemos a equipe dentro de nossos limites e limites predefinidos com quem prestará assistência.

O sabor de um parto domiciliar é indescritível. Vivenciar uma abertura física e espiritual dentro de sua casa, tingindo de poder e significado cada canto de seu lar é algo que fica gravado para sempre em nós.

Este ano, particularmente, vivenciamos uma trajetória muito semelhante dos dias que Miguel nasceu em 2007. A começar pelo carnaval cair nesta data. Os dias quentes, a acácia cheia de flores, a cidade vazia. Um dia antes do nascimento do Miguel fomos à cachoeira, como fizemos este ano. Lá, há cinco anos, fizemos amor. Desta vez vivemos o amor entre nós e outros amigos.

E no dia do nascimento, nossa casa recebeu queridos amigos. Fomos novamente à cachoeira e cantamos parabéns ao som da forte queda d’água. No fim da tarde dançamos ao redor da fogueira, na hora em que Miguel chegava a este mundo.

Nossos convidados estão ligados a mim pelo nascimento também. Acompanhei o parto da minha querida comadre, que depois de vivenciar uma cesárea intraparto no primeiro filho, pode experimentar as delícias de um parto domiciliar do meu querido afilhado que nasceu repousando em meus pés. A outra amiga que tenho tido a oportunidade de acompanhar de perto sua terceira gestação.

Nesta rede de nascimentos e renascimentos humanos vamos fortalecendo os laços de amor e amizade. Talvez o nascimento seja um dos maiores momentos de intimidade de uma família. E essa intimidade vivenciada dentro do lar é uma imagem poética inexplicável.

Parto domiciliar tem cheiro do seu lençol, tem o som da sua música, toca no seu rádio, que você já ouviu muitas outras melodias que regeram sua vida. Tem o calor do seu chuveiro, o gosto da água da sua casa, o toque de quem você escolheu. Tem a sensação de porto seguro que só a nossa casa pode nos dar, lugar para onde  corremos para chorar ou celebrar. No parto vivenciaremos a maior sensação  de fragilidade e força. Na sua casa entra quem você convida e sai quem você manda, dependendo de suas escolhas. Dentro da sua casa você inspira respeito. Em sua casa seu cachorro o guarda, seu gato ronrona para você. Se você tem filhos, eles brincam no quintal e podem ver a chegada do novo membro da família. E não há sensação mais inesquecível que comer sua comida no pós parto, deitar na sua cama e dormir com sua (ou suas) cria ao lado. Ninguém vai te acordar a noite para fazer qualquer procedimento, não haverá o cheiro estéril do estabelecimento, nem os sons desconhecidos. Parir em casa é o deleite de todo o processo, em que você chega à conclusão: por que complicamos o que só exige simplicidade?

Todo parto pode ser lindo em qualquer lugar. Ele é a felicidade pelo nascimento do ser que você ama profundamente. Talvez não seja perfeito. Mas quanto mais coragem temos para impregnar este evento com a nossa identidade, mais trabalho ele exige, mas mais significativo ele se torna.

A cada ano repito esse processo de “impregnar de identidade” o aniversário do meu filho. Cada detalhe planejado, elaborado, confeccionado com elementos específicos de nossa história. E em cada canto da casa, a alegria da celebração a nossa maneira, ao nascer, ao viver e até o fim dos tempos. Por que depois de parir em casa você sente que tem mais poder do que ousou imaginar ter.

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2 comentários no post “Em casa”

  1. Izabel disse:

    Seu menino é muito lindo hehe

    Como é gostoso quando as coisas tem verdadeiro significado não é?!
    Hj em dia as coisas perderam muito do humano do individual, afinal não deveria ser assim, casa nascimento uma historia, cada aniversário uma comemoração unica? Mas não, é tudo igual.

    Lindo texto como sempre

  2. Daniela disse:

    Carol,
    Gostei muito do seu post.
    Concordo com você que é preciso muito trabalho interno para fazer um parto domiciliar ou um parto natural. Mas, ao mesmo tempo, fazer um parto diferente deste, na minha opinião, é deixar uma ferida na alma, mesmo que nem se perceba.
    Conheci o movimento do parto natural ainda gestante, mas não foi suficiente.
    Sinto que preciso fazer um grande trabalho interno para expulsar todos os meus medos, que não se referem apenas à dor ou ao parto em si.
    Meu primeiro filho, nasceu de uma desnecesárea de véspera de carnaval.
    Meu segundo filho deverá vir em 2014 ou 2015, mas já inicio desde já o estudo e o preparo para ter o nascimento que eu quero!
    abraços


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