fev
23
2012
Ecologia: você está fazendo isso errado
por Nanda
A cacofonia que acompanha as compras de supermercado é tamanha que não é de meu costume prestar atenção aos anúncios feitos no microfone. Mas treinada nas artes do “consumo consciente”, palavras-chave como ecológico, menor consumo, orgânico e meio-ambiente atraem minha atenção tal e qual as caixas amarronzadas de papel reciclado com design em tons de verde. Chamou de consumo consciente, tem minha atenção.
Portanto, ao anunciar um tal de “bebê ecológico” minha atenção voltou-se aos alto-falantes: boneca EcoBaby, que vem com um jogo da memória de educação ambiental e fala frases como “Preservar o planeta é coisa de criança!”. A tal boneca, similar em todos os aspectos às bonecas-bebês tradicionais, sequer vinha em uma caixa que atrairia meu olhar eco-treinado: papelão normal, acetato frontal, aroma artificial.
Não é preciso ser ecochato – e eu sou – para compreender que o primeiro passo para uma consciência ambiental é a redução do consumo. Comprar menos exige menos tudo: menos trabalho, menos dinheiro, menos energia. Tanto para o fabrico quanto para o consumo dos bens. Compreendo dolorosamente, inclusive como consumidora, o nicho de mercado criado pelos produtos ecologicamente corretos: detergentes biodegradáveis, sacos de lixo feito para de material reciclado, açúcar orgânico.
Tudo em embalagem ecológica, design clean, preço diferenciado tal e qual a gente bacana que consome dentro desse nicho. E essa gente bacana tem filhos que consomem através dos pais, ou seja, precisam do diferencial também. Entra a boneca. Um amigo levantou a dúvida: “Mas se tem que comprar, não é melhor comprar uma dessas?”
Não há resposta para essa pergunta, pois a pergunta é inteiramente equivocada: não tem que comprar. Nem se a criança pede. Nem se é parte do desenvolvimento sócio-pedagógico. Nem se é bonitinho. Nem se pretende ser educativa.
Educação ambiental a gente faz em casa. Separamos o lixo reciclável, fechamos a torneira na hora do shampoo, lavamos a calçada com balde. Plantamos hortaliças se houver espaço, temperos se não houver. Brincamos com lama, gravetos, ou farinha e água. Desligamos as luzes, vamos ao trabalho de bicicleta. Fazemos o que estiver ao nosso alcance, sempre visando a redução do consumo.
De que adianta ter uma boneca – operada a pilhas – que resmungue “Planeta Terra, não se preocupe, nós estamos cuidando de você” ao mesmo tempo em que vê o pai jogar o folheto recebido pela janela do carro? De que adianta aprender no jogo da memória que o plástico vai no lixo vermelho se em casa vai tudo pro mesmo latão? De que adianta ter essa boneca, e milhares de outras bonecas (e nem saber pra qual lixo elas vão, afinal)?
Se uma criança não é ensinada a precisar das coisas, ela não precisará. Se ela não é ensinada a esperar as coisas, ela não o fará. Nem a boneca, nem o carrinho, nem o videogame. Então não ensine. Faça uma boneca de pano com a criança usando roupas velhas de casa, e ensine-a ela mesma a falar frases de proteção ambiental e veja a magia acontecer.
Até porque, nem fralda de pano a tal boneca usa. Hunf.





excelente reflexão, muito grata.
Eu comecei a ler e tive que parar, chegou visita. Mas lá no começo eu já pensava “boneca ecológica não seria uma feita de pano ou algo similar?”. Fui terminar de ler agora e eis a sua sugestão, hohoho! Legal! Beijocas!
Nanda,
eu e meu marido somos assumidamente eco-chatos. E assim sendo, tentamos na medida do nosso possivel diminuir nosso impacto no meio ambiente. Veja bem, eu sou biologa, especialista em educacao ambiental e mestranda em ciencias ambientais. Kiyo tem um q-zinho por consumo. Nessa terra que vivemos, nao poderia ser muito diferente, pois tudo eh voltado pro consumo. Consumo de produtos “ecologicamente corretos” tambem eh consumo. E assim sendo, gera lixo, problemas ambientais e o diabo a quatro.
Concordo contigo: nao precisa comprar. E aprendemos desde que nascemos que precisamos ter isso e aquilo. Nao podemos viver sem essa ou aquela ferramenta. O carro que nos leva para cima e para baixo jah nao eh bom o suficiente, o telefone celular tem que ser trocado a cada 6 meses. E eh quando a gente sai desse molde consumista que as pessoas nos enxergam como se tivessemos 7 cabecas cada uma de uma cor do arco-iris. Nos nao somos perfeitamente “ecologicos” aqui, mas tentamos ao maximo diminuir o consumo desnecessario, re-aproveitando aquilo que dah.
Beijao eco-chato pra ti!