fev

26

2012

Desconexão

por Nanda

Como todas as pessoas, eu sou de fases. Em alguns momentos expansiva, em outros, introspectiva. Desde que Benjamin nasceu, não tive mais a oportunidade de ficar introspectiva, ou a vontade de recolher-me à mim. Quando se é mãe de um bebê é fácil esquecer de si, voltando-se inteiramente ao cuidado daquele pequeno ser. É fácil esquecer das pequenas coisas que lhe agradavam antes de ser mãe, é fácil contentar-se com uma rotina que seja mãe-bebê o tempo todo.

Quando o bebê cresce e vira criança, aos poucos essa identidade é retomada. Vontade de sair pelo mundo, como já colocou a Kalu, vontade de fazer uma aula diferente, ou vontade de passar um fim de semana trancada no quarto, com uma garrafa de refrigerante e um prato de brigadeiro, como eu senti recentemente. Essa introspecção pode ser encarada como tristeza ou insatisfação. Dentro da rotina mamãe-bebê não há espaço para essas coisas, ou ao menos na minha não havia. Com a opção de ficar em casa integralmente, sem ajuda doméstica ou familiares próximos, fui aos poucos perdendo-me de mim mesma, das minhas idiossincrasias. Já não havia nada de Fernanda, restara somente a mãe do Benjamin.

Só que perder-se de si mesma é a pior coisa que pode acontecer a uma mãe. Aqui, a desconexão foi interna e externalizou-se. Minha relação com meu filho se transformou em uma coisa disforme, onde eu não conseguia ouvir a mim mesma, quiçá ouvi-lo e entendê-lo. Passamos algum tempo assim: ele e eu gritando para sermos ouvidos, encontrando somente eco no vazio que havia dentro de mim.

“Não gosto de você” ele disse, uma vez. “Nem eu gosto de mim”, repliquei em pensamento. Isso foi repetido várias vezes nos dias em que se seguiram, e eu compreendi que meu filho não me conhecia mais. E que se continuasse assim, isso deixaria de ser uma frase proferida em momentos de raiva para tornar-se a realidade. Sem o vocabulário necessário para botar tudo em pratos limpos, meu filho adoeceu. E em sua doença, só servia o meu colo, o meu beijo, a minha presença. E eu entendi tudo ali: seu pedido desesperado para que eu me encontrasse novamente, para que tudo voltasse ao normal.

Reconhecer isso foi, e está sendo difícil. Falar sobre isso é mais ainda. Começar a mudar a realidade é praticamente impossível. Seguro meu não-mais bebê febril em um dos braços enquanto recolho os caquinhos com o outro. E tento criar uma rotina de mamãe-criança, mamãe-mamãe, mamãe-papai. Compartimentalização parece ser uma saída interessante enquanto não há um todo para gerir. E lá vamos nós.


8 comentários no post “Desconexão”

  1. Oi Nanda,

    Me identifiquei tanto com seu texto! Por aqui também vou mudando, aprendendo a conciliar o que parece inconciliável, é mesmo desafiador ser mãe e ser todas as outras de nós! Obrigada por compartilhar sua história!!!

    Segue um grande abraço pra você!!!

    Malena

  2. Ariana disse:

    Nanda, sua transparência me encanta.
    É doído, mas é maravilhoso quando nos permitimos que nossos filhos sejam os nossos agentes transformadores. Não tenho nada a acrescentar, pois vivencio essa hora de me encarar. Mas parabéns pelo seu texto!

  3. Carol Baggio disse:

    Nanda,
    Lindo seu texto. Por coincidência, publiquei um post esta semana com uma imagem que circula na internet sobre a conexão barriga-coração…
    Ao meu ver, mais do que uma desconexão, as mulheres vivem uma “re-conexão” após a maternidade. Coisas mudam, independentemente de quais sejam – e cada mulher vai lidar com isso como puderem/quiserem. O fato de você ouvir a você mesma, e aos ecos que Benjamim entoa, já é uma re-conexão com a sua essência!
    Felizes são as mães que conseguem aprender com momentos tão densos. Pra mim, a maternidade é intensa, quem não reorganiza, redimensiona ou reavalia a vida depois dos filhos, está perdendo uma boa chance de ser uma pessoa melhor. É minha opinião!
    Um beijo e boa sorte na sua caminhada!!!

  4. eduarda castilho disse:

    tenho me sentido muito assim ultimamente!
    Esse seu texto me sentiu mto, nanda!

  5. Déia disse:

    É corajoso se olhar e refletir!
    Parabéns pelo texto!
    Ser mãe é mesmo intenso, é maravilhoso mas é um trabalho com energia grande! Eu tenho procurado carregar as minhas com pequenos “presentinhos” pra mim: depois que o filhote dorme, eu tomo um banho mais demorado, um cappuccino, leio um livro, como “besteira” sem ser na frente dele pois sou exemplo (mas já posso cometer uns pecadinhos) e assim aos pouquinhos, me encontrando tbem. bjs

  6. Amanda Araujo disse:

    Realmente a maternidade mexe com a gente. Tudo começa na gravidez, quando além do físico modificar, o psicológico se altera, o centro das suas atenções tb muda….o parto, q é tb um divisor de águas (pelo menos pra mim foi. Meu parto foi ‘vaginal’, com muita dor e ‘pesos na consciencia’ tb…)pelo fato do parto da minha filha ter sido muito desrespeitoso (creio q principalmente com ela) criou-se dentro de mim um ‘estado de culpa’ tão grande q eu não permitia ajuda de ninguém com os cuidados com ela, nem mesmo o papai dela. Até q um dia ele chegou pra mim e disse algumas verdades….q antes de tudo eu era humana, mulher e q nada ia mudar….Linda iria continuar sendo minha filha, e q ela me amaria pra sempre. Derreti de tanto chorar. Confesso q hj (uns 3 meses depois) ainda cometo alguns deslizes, mas vou levando a vida com mais leveza, ou ao menos tentando…

  7. Dani Romais disse:

    Nanda
    eh muito facil mesmo depois da maternidade esquecer de ser individuo. Essa eh uma tarefa diaria aqui em casa tambem. Somos 3 em 1, e somos 1 em 3. E eh dificil as vezes separar tudo isso.
    Foi dificil lembrar do tudo que eu mesma conquistei antes do Kiyo e colocar no papel.
    Obrigada pela reflexao!

  8. Nanda, já senti muito essa perda de mim mesma. E agora, mãe de um menino de quase quatro anos, sinto que retomei boa parte de mim, mas eu mesma passei a rejeitar boa parte do que era, então além de juntar caquinhos, descobri que boa parte deles eu não queria mais e precisei procurar o novo, e continuo procurando. Hoje, tanto tempo depois, já não me sinto mais em cacos, mas ainda faltam pedaços, e estou focando para esses pedaços serem os pedaços que eu realmente quero e não os que me empurram.
    Você é de uma franqueza muito corajosa e bonita. E certamente é assim que enfrenta a vida. E certamente dói, mas tem ótimos resultados. Pode demorar, pode ser preciso alguns chacoalhões como esse que está passando, mas não tenho dúvidas de jogando luz nas sombras como você faz, logo tudo estará brilhando lindamente.

    Grande beijo!


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