fev

25

2012

Cuidar é básico

por Tata

Outro dia – já faz algum tempo – fui com as meninas, só eu e elas, a um restaurante japonês. Um almoço super gostoso, que todas curtimos muito. Teve seus momentos de caos absoluto, obviamente: aquelas horas em que todas queriam comida ao mesmo tempo, ou suco, ou brigar pelo último hossomaki abandonado na bandejinha. Não vou dizer que não foi trabalhoso administrar essa dinâmica sozinha. Mas mais do que trabalhoso, foi divertido.

Eu gosto bastante destes momentos em que tenho a oportunidade de estar sozinha com as três, sem qualquer ajuda. É claro que gosto de estar com a família toda reunida, e com outras pessoas queridas também. Mas estar somente eu e elas, sem qualquer tipo de intervenção, também nos apr0xima de um jeito diferente.

Mas no dia em questão, eu sozinha com as filhotas no restaurante japonês, uma coisa foi especialmente curiosa: a absoluta incredulidade das pessoas – garçonetes, atendentes, demais clientes – ao ver uma mãe cuidando sozinha de três filhas pequenas. A estranheza era tanta, que mais de uma vez tive de responder à pergunta: “a senhora está esperando a babá??”. Não, eu não estava esperando ninguém.

É bom deixar claro: não acho que seja um problema, a priori, contratar uma babá. Cada um sabe de suas necessidades, possibilidades e dificuldades. Em determinados momentos, pode ser providencial uma ajuda – embora eu ache sempre importante salientar que há uma longa distância entre contratar uma ajuda que se julga necessária, por estes ou aqueles motivos, e terceirizar os cuidados com as crianças. Babá, quando entra na equação, é para ser ajuda, não cuidado principal. Os principais cuidadores de nossos filhos somos e devemos ser nós, pais e mães. Quando por necessidade não podemos estar presente tanto quanto gostaríamos, é legítimo buscar ajuda qualificada, é claro. Mas quando podemos estar juntos, presentes, cuidando, aproveitemos!

Mas o que achei mais triste, naquele dia, foi constatar o quanto essa triangulação da relação tornou-se esperada, quase obrigatória. Ver uma mãe cuidando de suas filhas sem ajuda deveria ser algo absolutamente corriqueiro, nem de longe digno de nota: não é para isso que temos filhos, afinal? Quando foi que passamos a aceitar babás e outros cuidadores como parte essencial da maternidade e da paternidade? Quando foi que começamos a acreditar que pais e mães são obviamente incapazes de cuidar de seus próprios filhos sem ajuda dita ‘especializada’? Quando foi que babás deixaram de ser ajudantes para se tornarem os cuidadores principais de nossas crianças, sem os quais estamos condenados ao caos absoluto?

Sempre acho graça quando alguém comenta comigo, com espanto: “você sai sozinha com elas? nossa, que coragem!”, ou falando de meu marido: “puxa, ele sai sozinho com elas?? nossa, que paizão!!”. Para mim, nada disso é digno de nota, de espanto ou de elogio. Quando eu era criança, eu e meu irmão saíamos constantemente sozinhos com minha mãe, ou com meu pai. Ninguém achava que eles eram heróis por conta disso. Ninguém os olhava com estranheza, nem mesmo com admiração – eles estavam cumprindo o papel que lhes cabia, afinal. Nada mais natural.

Vivemos mesmo em um mundo todo ao contrário: mãe e pai cuidando de filho está virando aberração; mãe e pai presente, que participa da vida do filho, está virando exceção ao invés de regra. Sinceramente, tremo só de imaginar o que será natural daqui a algum tempo – se cuidar, de básico, está virando luxo.


10 comentários no post “Cuidar é básico”

  1. cristina disse:

    Tata, eu tenho dois pequenos (quase 3 anos e 6 meses). Ontem fui ao supermercado e uma senhora falou para mim, em tom de critica, “vir ao supermercado sozinha, q coragem”. Nao foi tom de surpreza, elogio nao, foi tom de reprovacao. Eu sou meio lerdinha qdo as pessoas me dizem essas coisas e so fiquei la com cara de tonta e nao respondi. Mas depois fiquei pensando, quer dizer q se eu fosse solteira e sem baba, eu teria q passar fome. Ou no meu caso, tenho q esperar meu marido chegar pra ir ao supermercado….queria ver essas pessoas nos EUA onde o anormal e ter a baba. Onde as maes tem varios filhos e tem q cuidar deles integralmente e sozinhas. E a maioria nem tem uma faxineira. Se elas podem, porque nao nos.
    Beijos

    1. renata (tata) disse:

      realmente, é dureza encontrar alguma lógica nesse raciocínio…

  2. Déia disse:

    Ótimo texto!
    Sou tão feliz por trabalhar fora meio período enquanto meu filho está na escola e ser realmente mãe! Como é gostoso ir ao mercado junto, fazer biscoito, rezar, contar estória, levar na pracinha, lavar louça, almoçar… VIVER!

  3. Elaine* disse:

    Ótimo texto! Concordo plenamente que é nosso dever e função cuidar dos rebentos e não delegar a função! Aqui em casa, reviramos nossos horários pra que nossa filha ficasse o máximo de tempo com a gente, chamando os avós pro help somente quando estritamente necessário. Funciona muito bem há quase 3 anos e vai continuar funcionando, tenho certeza, mesmo com o time aumentando em breve…

  4. Sandra Nunes disse:

    Eu tenho 3 rapazes :) Também me sinto observada quando estou com eles, mas levo-os para todo o lado! Infelizmente durante a semana eles estão na escola de manhã à noite, por isso tenho de aproveitar bem o fim-de-semana. Não os deixo com ninguém quando estou em casa, mas gostava de ter uma avó disponivel durante a semana para que que eles não passassem tanto tempo na escola…

  5. Cariny disse:

    Vc tirou as palavras da minha boca! Adoraria dizer exatamente isso: não há nada de absurdo em sair com 3 filhos, ou dois, enfim…
    Eu trabalho horário corrido e à tarde passeamos para todo canto, fazemos muitas coisas juntos e todos se assustam, até mesmo minha família, quando sabem que saí com 2 menininhos e um bebê!!!

  6. Anne disse:

    Tenho só uma filhota, mas tenho experiência pra contar como filha: minha mãe tinha três e saia sozinha comigo e meus irmãos desde sempre. A inversão de valores tá tão brava que o que deveria ser corriqueiro se torna anormal e, por vezes, reprovável (aos olhos de alguns). O que esperar do mundo daqui a uns 10 ou 20 anos, hein? =/

  7. Ana Beh disse:

    Outro dia ouvi uma palavra que não conhecia: folguista. Estava numa festinha e perguntei se a tal figura era a babá da criança (o que eu já acho ruim) e ela respondeu: eu sou a folguista… Oi?

    Acho que existe por aí uma onda de babá e enfermeira que não é normal. Minha mãe saia sozinha com 3 e me lembro como era bom! Como você disse, pode-se ter ajuda, mas não terceirizar a criação.

  8. Dani Romais disse:

    Gente, se ir no mercado sozinha com 1 filho soh jah resulta em olhares de espanto… imagine com 2 ou 3 filhos pequenos?
    Aqui nos EUA tem gente que tem babah nos parquinhos e mercados, mas realmente, nao eh a maioria. E eh ateh estranho ver criancas sendo acompanhadas de terceiros que nao sao seus progenitores. Ou o pai ou a mae levam e trazem da escola. Ou o pai ou a mae (quando nao os dois) levam ao parquinho…
    Nossos horarios aqui sao decididos em torno dos cuidados do Kiyo. Se eu tenho aula, o Jeff nao tem e vice-versa. E assim a gente segue protagonistas da criacao do nosso filhote. E ele cresce entendendo que nos tem quando precisar.
    Beijos

  9. Giulia disse:

    Que bom saber que no Brasil ainda existem pessoas que pensam primeiramente em seu filhos, mas na minha opiniao o buraco e mais embaixo. Eu vejo isso muito mais como um problema social…ter uma baba se tornou uma conveniencia muito mais que uma necessidade. Digo isso pq so no Brasil se e permitido pagar $800 reais por mes (quando isso) a uma pessoa para tomar conta do seu filho em tempo integral.Pense, vc aceitaria ser pago um salario minimo para aguentar o choro, trocar fralda, etc 5 dias por semana muitas vezes 10 horas por dia(quando a baba nao dorme na casa da patroa) de uma crianca que nao e sua enquanto a sua cresce em casa chamando a avo de mae? A partir do momento em que nao existir uma diferenca tao grande entre as classes sociais o conceito muda. Moro fora do Brasil a 15 anos e aqui para se ter uma baba/faxineira/diarista ou o que seja vc precisa pagar um salario minimo mensal o equivalente a $2500 reais! Eu tenho 2 filhos, 2 e 5 anos, e nunca tive uma baba/faxineira/diarista para me ajudar. Faco parte de uma sociadade em que o bem estar dos outros e tao importante quando ao seu. Fiz questao de cuidar dos meus filhos e meu marido tb tirou licensa (somos de classe media e planejamos as financas muito bem para que isso fosse possivel) nas 2 ocasioes para que ele nao so me ajudasse com os afazeres de casa mas para tb curtir essa fase unica. E as avos estavam sempre presente caso tinhamos aniversarios, casamentos, jantares a dois etc.
    Por isso acho que se nao existisse a possibilidade de pagar migalhas para alguem tomar conta do seu filho vc mudaria as suas prioridades a se tornaria uma corajosa “Super-Mae”.


Deixe seu comentário