fev

19

2012

Carnaval todos os dias

por Nanda

Que a fantasia é uma das ferramentas mais importantes no desenvolvimento das crianças, isso é unanimidade em todas as linhas pedagógicas. Ainda que não estimuladas, as crianças vivem em mundos criados através de brincadeiras. Paulo Freire coloca isso lindamente quando diz que “a fantasia é uma espécie de antecipação do que pode ser um conhecimento de amanhã.”

Crianças não precisam de acessórios para fantasiar. Uma contação de histórias prende a atenção da mesma criança que assiste a um filme em 3-D. A projeção de situações e sentimentos é feita nos livros, nas peças de teatro, nas brincadeiras em grupo. Não é necessário assessório algum para colocar as engrenagens imaginativas para funcioar: crianças são movidas a elas.

Meu filho adora filmes. Um de cada vez, é claro, uma vez que quando gosta de um determinado filme, só assistirá ele durante meses a fio. Atualmente, estamos no filme dos brinquedos. Sua preferência varia entre as personagens, mas se ele era o vaqueiro, qualquer chapéu era o chapéu do Woody. Se ele era o astronauta, uma bacia transparente fazia as vezes de capacete.

Nunca me passou pela cabeça comprar uma fantasia específica de um personagem, visto que não havia necessidade dela. Então quando minha irmã apareceu com a fantasia do patrulheiro espacial, não sabia se devia dá-la para ele ou não. Se ele já projetava tão bem os personagens, usando a criatividade para inventar as fantasias, ele precisaria mesmo de uma que já vem pronta? Isso não limitaria o brincar-criativo?

Conversei com um grupo virtual de apoio e todas foram unânimes: não havia por que temer. Entreguei a fantasia para Benjamin, que vestiu-a naquele instante e torna a vestir toda vez que avista a peça de roupa na pilha de roupas limpas. Para ele, é como uma roupa normal: vai de almoços de família a passeios no shopping com ela.

Mas se a fantasia não está disponível e ele quer ser o Buzz, ele vira o Buzz, com tigela transparente na cabeça e asas de fada nas costas. Ele também vira o Woody, o dinossauro, vira um sagui e um gatinho, e eu viro alguém que se encaixe na brincadeira. E seguimos brincando, ora com fantasia de “verdade”, ora com fantasia de imaginação. Todos os dias. Porque para crianças, todo dia é carnaval. Ainda bem.


2 comentários no post “Carnaval todos os dias”

  1. Fúlvia disse:

    Eu vejo isso com nossa pequena. A cada dia ela é um personagem e, com tristeza vejo que algumas pessoas não tem paciência com isso e começam com “se você não for a Letícia, não brinco com você; não tem passeio; não tem desenho etc etc etc”. E eu explico que ela está justamente na fase da imaginação, que não se deve fazer isso e que, se ela quiser ser a Angelina, a Uniqua, a Dora, a Lady, deixe-a. Faz parte de ser criança, criança saudável, por sinal.

    Quantas vezes nós a pegamos brincando de casinha, inventando nomes, personagens e ela também vira um personagem (seja de um desenho ou de um livrinho; seja pessoa, seja animal). E deixamos que ela seja assim, entrando na onda e também virando o personagem, nos divertindo. E isso é super saudável.

  2. Dani Romais disse:

    Puxa Nanda… muito boa a sua reflexao.
    Kiyo tem as fantasias (tanto do Woody, quanto do Buzz), mas percebo que elas nao o limitam de forma alguma. Ele continua usando das ferramentas que tem para brincar livremente, sendo o personagem que for. Ele mistura as historias, os herois, os viloes… De noite, ele inventa suas historias de faz-de-conta (que contamos sem o auxilio de livros, mas sim com a ajuda unica e exclusiva de nossa imaginacao). Quando vamos a um parque, ele pega duas pedrinhas e um graveto, e sai feliz da vida “voando” sua espaconave. E nos somos os super-herois, princesas, piratas, dinossauros, baleias, tubaroes, jacares, e uma gama bem grande de opcoes…
    Eu gosto de fantasias. Sempre gostei! E o Kiyo, nesse ponto, puxou a mim. Eu sempre inventava brincadeiras diferentes, sozinha, durante as tardes de verao. Morava no centro de Curitiba, entao se quisesse tomar banho de cachoeira, teria que lancar mao da boa e velha imaginacao e lah ia eu fazer de conta de baixo do chuveiro frio… hehehe… quero que o Kiyo tenha essas experiencias tambem, para poder no futuro usar sua fantasia para o conhecimento!


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