fev
9
2012
Apelou*, perdeu
por Nanda
Eu venho de uma família muito brincalhona – brincalhona sendo eufemismo para pentelha. Os genros e noras sofrem com piadas repetidas à exaustão, e todas as crianças e adolescentes são levados às raias da paciência quando a família inteira está reunida. Então todos crescemos com uma capacidade enorme de suportar encheções de saco a níveis muito acima do esperado de um ser humano.
E nem adianta tentar perder a paciência: o lema da família é apelou, perdeu. Se um primo não gosta da piada sobre o bigodinho nascedouro e se irrita, nunca mais será deixado em paz até o bigode tornar-se uma barba completa. Então meu filho, que é extremamente impaciente e esquentado, também não escapa da cantoria do “Apelou, perdeu” se chora no meio de uma brincadeira.
Benjamin costuma perder a paciência até quando brinca sozinho: se constrói uma torre muito alta e ela cai, ele joga tudo pro alto e chora. Se a tinta não fica da cor que ele espera, para de pintar. Eu só digo um “Ah, filho… apelou, perdeu. Vamos tentar de novo?” e às vezes funciona.
Então outro dia eu estava tentando vestir o pijama em um menino muito agitado, que não parava quieto. Perdi a paciência e segurei-o com força, falando mais alto. Ele virou-se para mim e soltou “Ih mamãe. Apelou, perdeu!” e eu me desarmei. Porque nessa frase está o principal mote para mães de terrible twos, mães de mais de um filho, mães de RNs e todas as outras que possam vir a perder a paciência com facilidade.
Se você apela: para o uso do grito, para o uso da força, para o uso da violência psicológica, você perde. Perde a razão, perde o controle e perde o respeito daquela criança que ainda está empiricamente aprendendo os limites do mundo e dos pais.
Se você acha que seu filho vai ficando cada vez mais impossível à medida que a sua paciência vai diminuindo, pode ter certeza disso. Se você está à beira de perder o controle, seu filho precisa que você o tome de volta, afinal, alguém tem que estar no controle. E ele é que não vai ser. Quanto mais nervoso o cuidador, mais a criança irá testá-lo, só para ter certeza de que não está nas mãos de alguém pirado. Então não pire. Não apele.
Agora, todas as vezes em que ameaço apelar com meu filho, e não são poucas vezes por dia, eu me lembro que quem apela, perde. E vamos nos dando muito melhor.
*Apelar, em goianês, significa perder a paciência, despirocar, não saber brincar.
tags: aprendendo e ensinando, bater, paciência





Em caipireis apelar é a mesma coisa! rsrs
Uma frase simples, até engraçada, mas que vale pra muita coisa, não?
vou adotar esse dizer aqui em casa! Beijos meninas…
Fiz um post no meu blog sobre educar/bater/apelar e perder… Muito legal o dizer, e serah adotado aqui tb.
Beijao
Dani
P.S: por alguma razao meus posts nao aparecem!