fev

13

2012

Amamentar é acreditar em si mesmo

por Mamífera(o) Convidada(o)

Por: Danni Cuccia, Mamífera Convidada

Deus deu à mulher o dom de gerar a vida, o poder de parir, a dádiva de nutrir e a responsabilidade de educar. Essa é uma história linda, longa, cheia de aprendizado, superação e, principalmente, plena de muito amor.

Comemoro hoje, dia 6 de fevereiro, 6 meses de vida do meu segundo filho, Artur, meu pequeno leão dos olhos verdes de mares gelados e profundos. Comemoro 6 meses de amamentação exclusiva, sem nenhumazinha mamadeira e nenhum bico!!! Muita gente deve ler isso e achar “Essa é doida!”, mas essas pessoas não têm a noção da plenitude que me trouxe conseguir chegar até aqui. Vou contar a história do princípio, três anos atrás, quando chegava meu primeiro filho, Pedro.

Desde nova tive vergonha dos meus seios, porque um deles tinha o bico mal formado, diferente daqueles seios maravilhosos que vemos nas revistas. Uma vez uma mulher me disse, “ Será que você vai conseguir amamentar com esse peito?”, acho que tinha 12 anos. Nesse momento foi lançado sobre mim essa dúvida, que se tornou um estigma, que me fez duvidar de minha capacidade mamífera de amamentar, me fez ter vergonha do meu seio.

Em janeiro de 2009, fui fazer o curso de amamentação do Odete Valadares, por sinal maravilhoso, lembro muito bem da senhora falando, “bico de peito pra dentro, pra fora… não é problema, o bebê pode mamar de qualquer jeito” Saí de lá mais tranqüila, mas ainda com a pulga atrás da orelha e uma enorme insegurança de saber se meu filho conseguiria mamar. Falava com ele dentro da barriga, dizia a ele que mamaria muito nos peitões da mamãe.

Em fevereiro, nascia meu primeiro rebento, de um parto longo, desgastante e maravilhoso, que me fez nascer como mãe, como mulher. Ele também estava cansado ao nascer, nem quis muito mamar, só ficou aconchegado em mim. Foi mamar 5 horas depois de nascido. Lembro que só de pensar em pegá-lo para mamar, começava a suar frio, ficava toda dura, morrendo de medo dele não conseguir. Tentava dar o peito esquerdo, que é o que seria mais difícil para a sua pega, via que ele não conseguia e já desistia e passava para o direito.

Não bastasse a dificuldade de mãe de primeira viagem, ainda fomos internados por conta de uma icterícia fortíssima dele, no terceiro dia de vida, ficamos uma semana num hospital, que não me deu o menor apoio na amamentação, nem perceberam que ele estava perdendo muito peso, muito menos ligaram a demora em baixar os níveis de bilirrubina com a amamentação insuficiente.

Todas essas conclusões eu só consegui tirar muito tempo depois. Eu não sabia como ordenhar o leite, para que meu bebê pudesse mamar mais facilmente, meus peitos estavam parecendo dois balões gigantes e o pequeno nem conseguia mamar por conta disso. Saímos do hospital e comecei a ter uma rachadura no peito direito que machucava muito, o peito esquerdo já tinha bem menos leite.

Pedro chorava muito, o colocava no peito, ficava horas, mas nunca estava satisfeito. Fazia pouco xixi e cocô. Com 21 dias fomos a uma pediatra, que “diagnosticou” uma perda de peso grande e falou “Você tem pouco leite, vai ter que entrar com a mamadeira”, isso caiu em cima de mim como uma bomba atômica. Me senti a pior mãe do mundo, chorava todos os dias, dizia a mim mesma, que não servia pra nada, nem pra alimentar meu filho. Que mãe que eu era de ter deixado meu filho com fome… barbaridades. O pior que vejo hoje foi que a pediatra não me orientou como deveria fazer para dar o complemento e amamentar também. Eu estava sempre muito nervosa e ansiosa, completamente descrente de mim, não conseguia relaxar.

Toda hora uma visita intrometida falava algo do tipo, “Xiii está tomando mamadeira, vai largar o peito”, quando ouvia isso me dava vontade de pular no pescoço da pessoa. Mas graças à Mãe Divina, meu pequeno não largou meu peito, mamou até 1 ano e 8 meses, junto com mamadeira. O peito ele mamava sempre que queria, a mamadeira tinha os horários certos. Nessa época, já começamos a pensar no segundo filho e eu e Pedro desmamamos tranquilamente e sem pressa.

Um mês depois estava grávida novamente, uma alegria imensa, mais um serzinho de luz chegaria para completar a família. Deus estava me dando mais uma chance de acreditar em mim. Desde o princípio da gestação tudo foi muito tranqüilo, nada como conhecer melhor o caminho. Lembrei-me das histórias lindas de amamentação que tinha ouvido, que tinha lido, me informei muito sobre amamentação com bico do peito invertido, intruso… descobri que era possível amamentar um bebê só com um dos peitos por seis meses, entre outras coisas. Rebeca minha doula virtual foi uma fofa, que me deu todo apoio e me tirou todas as dúvidas. Eu estava muito tranqüila, dizia que não me mortificaria se tivesse que dar uma mamadeira, mesmo não sendo meu sonho. Na primeira paguei muito à língua, falava que nunca daria mamadeira pro meu filho…

Não fiz nenhum curso de amamentação na segunda gestação, confiei só na minha experiência, na minha tranqüilidade e entrega. Tive como lema o que uma conhecida que há pouco tempo tinha tido seu primeiro filho dizia “tem que por na cabeça que você é uma vaca leiteira…” e eu incorporei isso. Assim que Artur nasceu, mamou por duas horas seguidas, isso pra mim foi uma glória e assim continuou fazendo, nos primeiros dias, era ele abrir os olhos e a boquinha e eu já estava lá dando peito pra ele. Já começaram os palpites, “nossa tá mamando de novo”, “blá, blá, blá”, mas diferente da primeira vez, eu agora tinha uma coisa que não tinha antes: CONFIANÇA em mim, em meu poder de mamífera! Afinal, Deus não me daria dois de seus produtores de leite à toa! Outra coisa que foi muito importante foi ordenhar um pouco o leite antes de dar o peito, para o bebê conseguir mamar, isso faz muito diferença para a pega dele. O mamilo fica mais macio e mais fácil de ser abocanhado da melhor forma para sugar.

No começo, Artur teve muita dificuldade de mamar no peito esquerdo, pois a boca muito pequena de um recém nascido nem sempre dá conta de abocanhar o peito com o bico de formato diferente. Isso não me abalou, ia tentando do mesmo jeito. Com duas semanas, fui ao Odete Valadares, pois estava decidida que queria conseguir fazer ele mamar nos dois peitos. Aprendi que a auréola deve ficar na parte de cima da língua do bebê, assim ele consegue sugar melhor e fui tentando até que conseguimos. No dia em que senti pela primeira vez ele puxando com força o peito esquerdo, descobri que quando o bebê suga de um lado estimula a produção do outro e vi o quão importante era conseguir amamentar com os dois seios (ele estava com 3 semanas).

Daí em diante, mesmo com o esquerdo produzindo bem menos leite, sempre dei os dois seios para ele mamar e hoje, dia 6 de fevereiro de 2012, eu comemoro seis meses de amamentação exclusiva!!! Com um bebê que com 3 meses tinha tamanho de 5, com 6 meses tem tamanho de 8, é uma bolota fofa, cheio de alegria e saúde.

Comunico aos palpiteiros de plantão que seria melhor que guardassem seus palpites para eles, assim pode-se evitar abalar a auto-estima de mulheres que recém paridas, além de lidar com toda a dança hormonal, o desgaste da adaptação e outras “cositas” mais, ainda precisam lidar com falácias inúteis e fazer cara de paisagem para todos.

Comunico com muita certeza a todas as mamíferas que é possível amamentar exclusivo com um só peito e com bico de peito diferente dos seios maravilhosos das revistas. O que precisamos é aprender uns segredinhos e ter muita calma, dedicação, perseverança, humildade e amor! Uma mamífera, ao parir suas crias, pari juntamente com elas a capacidade de amar e se doar incondicionalmente a outro ser.

Gratidão Mãe Divina. Gratidão Pedro, por ter me ensinado e ter vivido comigo tudo o que vivemos para que eu pudesse dar ao seu irmão esse presente de amamentar só o leitinho da mamãe por seis meses. Gratidão Artur por ter vindo viver conosco esse vida de alegrias e dores, que nos fazem ter certeza de que viver deve ser intenso e não uma eterna anestesia. Gratidão Ka, meu companheiro por ter estado sempre ao meu lado.
Gratidão Kalu, por ter me contado lindas histórias de amamentação sem nem saber o quanto eu precisava ouví-las. Gratidão as mulheresdesta rede  por dividirem todas as doçuras e amarguras de ser mamífera…


11 comentários no post “Amamentar é acreditar em si mesmo”

  1. Danni, que maravilha ler essa sua história – tão comum e significativa aos corações maternos. Textos como o seu enchem de orgulho suas companheiras de cromossomo XX, querida! Tenho certeza de que suas palavras servirão como um bálsamo para muitos que por aqui passarem… parabéns pela sua determinação que, junto a tanto carinho e amor, fazem de você uma mamífera com M maiúsculo!

  2. Ingrid disse:

    Nossa! Muito bom o texto, li sem canseira! :P
    Não sou mãe ainda, mas sou casada há 2 anos e acho lindo o ato de amamentar, e reforço ainda mais minha posição quando ouço alguém falar que é vergonhoso ou algo do tipo.
    Tenho vontade de ter filhos (daqui uns anos ainda, hehe) e pretendo amamentar, sim!

    Sucesso pra nós, mulheres, que temos que lutar contra os estigmas dessa sociedade. Bjs

  3. Christiane Santiago Maia disse:

    Que linda reflexão, Danni! Como há ignorância sobre a amamentação, inclusive entre pediatras… As pessoas partem da lógica de dar mamadeira e aplicam à forma como acreditam que deva ser a amamentação (rápida, destinada apenas à alimentação, e por aí vai), quando o raciocício deveria ser o contrário!!!! Como diz Laura Gutman, a melhor forma de ajudar uma mãe com um bebê é reforçar o quanto ela é poderosa! Não há nada mais belo, humilde, natural e holístico do que nos enxergarmos como vacas leiteiras! Parabéns pelas conquistas e aprendizados.

  4. Bruna Müller - Alemanha disse:

    Adorei o texto!
    Eu sofri um pouquinho no comeco, logo q o Lucas nasceu. As enfermeiras do hospital me desmotivavam em toda oportunidade q elas tinham.
    E pra melhorar longe da familia e de todo mundo.
    Mas foi só vir pra casa e com o apoio do meu marido deu ( e dá!) tudo certo.
    Logo logo o Lucas vai completar 1 aninho e continua mamando… Eu espero q mame ainda muuuuito!!
    Tem coisa melhor do que amamentar nossos filhos??
    Um beijo!
    Bruna

  5. MANOELA SULIANO disse:

    Parabéns pela persistência, amamentar é tudo de bom!
    Ah, adorei o parágrafo sobre os palpiteiros, é péssimo mesmo. As pessoas nunca chegam perto para falar coisas legais, só para criticar ou colocar a gente ´ra baixo.
    Manoela – mãe da Sophia de 2 anos e gestando Antonella com 18 semanas.

  6. Helena Villas Bôas disse:

    Lindo, Dani!!! Parabéns pelo texto, pelos filhos, pela pessoa forte e serena que você é.
    Também tive dificuldades na amamentação do meu primeiro filho, acredito que a principal coisa que nos ajudou foi a minha grande vontade de conseguir. Ninguém diz à mulher que amamentar pode ser difícil, mas, mais importante que isso, faltam pessoas para dizer que, independente disso, ela é capaz!
    Beijos.

  7. Bia disse:

    Lindo…

    Eu sempre digo, na amamentação me deparei com duas coisas chatas: a primeira são as roupas, principalmente quando o assunto é festa e a outra, que eu acho a mais horrível, é aguentar a opinião alheia… é uma tremenda cara de pau, as pessoas chegam e vão despejando as informações, sem ao menos a gente ter pedido, amamentar é algo tão intimo, que diz respeito, somente a mãe e a criança…
    Eu também tenho muito que agradecer as mamíferas, aprendi muito lendo os relatos…

    Bjkas

  8. “Comunico aos palpiteiros de plantão que seria melhor que guardassem seus palpites para eles, assim pode-se evitar abalar a auto-estima de mulheres que recém paridas, além de lidar com toda a dança hormonal, o desgaste da adaptação e outras “cositas” mais, ainda precisam lidar com falácias inúteis e fazer cara de paisagem para todos.”

    AMEI esse parágrafo!
    Que texto lindo, que história linda!
    Parabéns pela autoconfiança. Que o seu depoimento ajude muitas e muitas mamíferas!!
    Bj!

  9. Dani Cuccia disse:

    Agradeço imensamente à todas vcs por terem se manifestado e terem me enchido de alegria por saber que posso ajudar com essa experiência que completará 3 anos neste dia 27 de fevereiro, niver do meu priemiro filho. Fui as lagrimas com os comentários de vcs. Grande abraço de luz!!!

  10. ione disse:

    Muito lindo..
    Este texto nos faz refletir, o que todas nos mulheres que acredita na amamentação que quer amamentar nossas crias ,passa ou ja passou algo em comum, em casa tenho uma bolota de 6 meses é 4 dias pesando 10kg e 40g penso quando ouvia seu leite não sustenta por isso que ela mama tanto, olho pra ela rindo pra mim com a gengiva mais linda do mundo e mim sinto completamente realizada..obrigada por permitir compartilhar sua historia ….

  11. Gente! Importante movimento esse de partilhar opiniões distintas. completamente oportuno e necessário nesse tempo de redefinição de conceitos e condutas. mais que acertado.
    Parabéns!


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