fev
24
2012
A moda antiga?
por Kalu
Me incomoda muito quando vejo as pessoas chamarem o parto domiciliar de parto a moda antiga. Isso porque não é uma verdade. Os ativistas do parto humanizado, os profissionais que defendem a escolha da mulher por esse local de parto, geralmente são profissionais embasados em evidências científicas muito bem qualificados.
Não canso de citar o resumo de diversos estudos sobre parto domiciliar que Dra. Melania fez para o site Guia do bebê. O imenso artigo mostra que o parto domiciliar é tão seguro (ou mais) do que um parto hospitalar.
Também não concordo quando algumas mulheres dizem que vão parir como pariram suas avós. Isso não é verdade. Nossas avós não tinham escolhas e nem sempre o atendimento de parteiras era garantia de um parto respeitoso.
Sei que nos rincões deste país o parto ainda acontece com a assistência de parteiras tradicionais e sua linda vocação. Há um esforço constante do Ministério da Saúde para a capacitação destas profissionais que preenchem a lacuna de onde o sistema de saúde ainda não chega, para que suas praticas também tenham respaldo das boas práticas preconizadas pelas evidências científicas.
O parto domiciliar destas mulheres que estão inseridas em sistemas distantes dos modelos urbanos, são, de fato, a continuação do parto a moda antiga. Mas no caso de mulheres urbanas, com acesso à informação, assistência médica, optar por um parto domiciliar está longe de ser um retrocesso.
Isso porque para descobrir que existe essa possibilidade é preciso de um pozinho mágico que eu ainda não descobri qual é. Porque a nossa cultura urbana, de classe média, é a cultura da cesárea. Esse é o normal de nascer. Sai com a malinha, volta com a cicatriz e o bebê.
Querer um parto domiciliar parte de uma premissa mais profunda que o que mais se aproxima, sem fechar a questão é protagonismo. Não que não possa existir protagonismo em um parto natural hospitalar, existe sim! Nem estou dizendo que uma mulher que decide parir em casa é mais “empoderada”do que quem optou por um parto dentro do hospital.
No meu caso eu escolhi por um parto domiciliar porque para ter o direito de escolha e respeito por minhas decisões teria que pagar um médico para me acompanhar, um pediatra para garantir que meu filho não sofreria as desnecessárias e protocolares intervenções hospitalares. E ainda sim, pagando todos os profissionais, eu seria apenas uma ilha dentro de um modelo que não acredita naquilo.
Outro ponto é que penso que médicos são maravilhosos para casos de risco, de cirurgias. Então nosso modelo obstétrico foi feito para os 15% em que os partos não acontecem fisiologicamente, fazendo com que mais de 80% tenham cesáreas.
É comum acreditarem que parto em casa é sem assistência. Muito pelo contrario. A assistência de um parto domiciliar com obstetrizes e doula é muito mais assistido do que os partos que já acompanhei em instituições em que a troca constante de profissional não faz com que o parto seja observado de maneira integral e a identificação de um problema real fica mais distante.
Sem contar que com mais adrenalina, temos menos ocitocina e o parto tende a ser mais lento, levando, dentro das instituições, a necessidade de intervenções.
Um parto domiciliar urbano, assistido, nasce da premissa longa de decretarmos: não estamos doentes e decretarmos nossa libertação do sistema. Assim, por não estarmos doentes, buscamos profissionais que possam prestar assistência às gestantes de baixo risco e sabem identificar com precisão qualquer sinal de anormalidade que exija uma transferência, mas mil outras que médicos desconhecem, como massagem, posicionamento, “rebozo”, manobras.
Quando optamos por um parto domiciliar ele é nossa primeira opção. Há sempre a possibilidade de uma transferência.
Grande parte das necessidades da mãe e bebe de um pós parto fisiológico domiciliar podem ser resolvidos em casa. Os profissionais têm equipamentos, medicamentos e treinamento para reanimação, hemorragia e outras intercorrências que caso não sejam solucionadas em casa pode exigir uma transferência.
Casos gravíssimos, como uma parada cardíaca ou embolia, acredito que nem em um hospital seriam revertidos. Vale lembrar que morrem muito mais mães e crianças em decorrência de uma cesariana eletiva, do que de parto domiciliar.
Quando vivenciamos a experiência de um parto domiciliar em área urbana, partindo de nossa escolha, o caminho que nos trouxe até aqui é muito profundo, libertador e transformador. Experimentar a fisiologia funcionar com a nossa capacidade de entrega e conexão com nossos processos internos, em um ambiente amistoso, tendo suporte amoroso e gentil, dá um novo significado para vida.
Nunca mais conseguimos engolir verdades sem questionamento e nadar contra a maré será tão natural como sempre foi caminhar nela. Você por vezes se sente só, mas encontrará muitas de nós neste caminho.
categorias: Kalu
tags: Cesárea, Parto Domiciliar, parto em casa





Eu entendo sua preocupação, sei que as vezes soa como se fosse algo rude e sem cuidados o que está longe de ser, mas eu particularmente não vejo problema nenhum em falar parto a moda antiga ou parir como nossas avós, aliás gosto bastante, já falei aqui algumas vezes, gosto das coisas humanas, biológicas da forma como nosso corpo e mente conectados com toda a criação foi projetado para fazer.
Acho apenas que o discurso do texto pode soar levemente como um discurso tipico da classe média que se sente ofendida quando tem seus habitos comparados a habitos rudimentares, o que sei que não é seu caso, foi apenas a imagem que o texto passou.
Me lembro de uma mulher comentando aqui a algum tempo que parto em casa era coisa de Gisele Bundchen e creio que a tentativa aqui é justamente aproximar o parto domiciliar da realidade das pessoas, dismistificar.
Enfim espero ser compreendida, de forma alguma desejei ofender, foi só uma observação
Kalu, que bela reflexão! Pensei sempre em minha avó, que dos 5 filhos que teve, 4 foram em casa. Mas foram partos doloridos, com todos os procedimentos comuns em hospitais (inclusive episiotomia!!) mas sem anestésicos. Ela sempre conta da alegria de receber um filho dentro de casa, mas também sempre conta das parteiras subindo em suas barrigas para empurrar o bebê enquanto ela estava deitada em sua cama em posição ginecológica. Também não podia gritar, arrisco dizer que era preciso manter um comportamento bem apropriado a uma mulher da década de 50, submissa, mansa.
Nunca pari, vou experimentar essa magia bem em breve. Mas vou parir com escolha e liberdade bem maior que aquela que minha avó experimentou. Vou parir acompanhada de enfermeiras obstetras e uma doula (ou duas!!!). Vou parir ativamente acompanhada de meu marido. Mas sobretudo, o que mais me orgulha, é pensar que vou parir DA FORMA COMO ESCOLHI, e com a mesma segurança que pariria em um hospital.
Eu fiz todos os exames de pré natal porque pude fazer e porque eu quis fazer. Minha avó e as outras mulheres da época não podiam contar com esses benefícios da tecnologia. Por outro lado, apesar do tanto de recursos disponíveis, vou parir de forma mais natural que minha avó, sem toques vaginais, rompimento artificial de bolsa, episiotomia, com liberdade de movimento e ação.
Ka,
Perfeita sua colocação! Nossas escolhas por partos domiciliares são mais complexas e embasadas do que apenas parir em casa. Fico admirada com sua trajetória, que de fato, é muito bonita. E torço para que vc tenha duas doulas. kkkkkk