nov
20
2011
As casas, o parto e o público
por Nanda
Eu passo o dia inteiro vendo notícias sobre parto. Meus amigos sabem disso, e sempre que vêem alguma coisa interessante, mandam pra mim. Ontem um amigo me mandou esse post do blog do Luís Nassif, narrando a experiência dele em uma casa de parto de São Paulo. Fiquei feliz. Luís Nassif é um jornalista que lutou contra o sistema estando inserido nele. Mais ou menos como as casas de parto. Ambos se ferraram.
Aí os comentários, sempre eles. Tenho a mania de ler todos os comentários de todas as matérias de todos os lugares (não, não lavo louça). Alguns me surpreendem positivamente, mas a maioria me faz perder a fé na humanidade. Esse foi o caso. Um primeiro lugar-comum, falando sobre o quão animalesco e horrível é o parto normal, aquele argumento de que o único parto humanizado é a cesariana, pois a mulher não sente dor. Yadda yadda. Aí tinha outro desmerecendo o trabalho dos voluntários das casas de parto.
Esses comentários também prosperaram no meu texto publicado na Lola. Aquele pensamento de que a OMS e o MS só recomendam o parto normal porque ele é mais barato, priorizando o dinheiro às custas do sofrimento da mulher. O que me preocupa mais é que os comentaristas, tanto do Nassif quanto da Lola, tendem a se posicionar na contra-hegemonia dos fatos. Menos quando é o caso do parto. Nesse aspecto, eles se parecem muito com os atores daquela grande rede de televisão naquele vídeo contra aquela hidrelétrica: falando um blablabla decorado sobre um assunto que não pesquisaram a fundo. Mas são tão eloquentes que fazem seu blablabla parecer coerente. E aí o bicho pega.
As casas de parto são a resposta contra-hegemônica do atendimento obstétrico na saúde pública. O texto do Nassif faz um (brevíssimo) histórico sobre sua criação, e pincela os problemas pelos quais as casas de parto passaram e ainda passam. Não foi há 6 meses que foi necessária mobilização para salvar a casa de parto Sofia Feldman da degola da opinião popular. E volta e meia vemos novas ameaças: Realengo, São Sebastião, Juiz de Fora, Sapopemba, Capistrano, etc. De onde vem o interesse por fechar as casas de parto?
Eu chutaria que vem dos médicos (clica no link para ler a parte do Ato Médico que fala sobre isso). As casas de parto são geridas por enfermeiras obstetras, ou obstetrizes, e sua equipe interdisciplinar inclui fisioterapeutas, doulas… Mas não médicos. Eu suspeito que é graças a essa ausência de médicos que seja possível realizar um trabalho humanizado nesses locais: não há soberba, não há necessidade de intervenção apenas para não se sentir inútil. As casas de parto precisam – por lei – ficar próximas de um hospital grande, para realizar transferências quando necessário. Nessas transferências, são necessários os médicos. Que salvam vidas. Mas elas não são muito frequentes, pois as casas de parto só aceitam pacientes de baixo risco.
Então são realmente malignas, essas casas de parto. Recebendo pacientes da rede pública, tratando-as de maneira decente e permitindo que elas vivenciem uma experiência de parto agradável. Vai ver que é aí que mora o problema: vão gostar tanto de parir que não vão parar mais de se reproduzir, né? Olha lá, um doutor todo-poderoso que nem obstetra é, arrotando informações sobre as malditas!
Claro que eu estou soltando generalizações a torto e a direito, nem todo médico é soberbo, nem toda equipe sem médico é humilde. Nem todo parto na casa de parto é perfeito, nem todo parto no hospital é terrível. Mas eu simplesmente não vejo como maldizer a única alternativa da saúde pública para um parto seguro e humanizado vai ajudar a mudar a realidade do país.
E vocês, acham que as casas de parto são essa alternativa, ou só uma forma do governo continuar “economizando” para não fazer cesarianas na rede pública?
tags: Casa de Parto, opinião, saúde pública, sus





Penso que as casas de parto deveriam ser alternativa pra todas as mulheres que desejam um parto respeitoso. Ponto. Independente de onde é oriunda a demanda. Claro que se atende pelo SUS vai receber pessoas que não teriam condições de ter acesso a um parto humanizado de outra forma.
Tenho a mesma desconfiança que vc, que o fato da classe médica está fora da jogada faz com que a opção seja execrada. Afinal, pra muitos obstetra, gravidez – qualquer gestação – É doença. E doença precisa de médico. E médico, em casos de “emergência”, atendem em??? hospital!
As casas de parto desoneram os cofres públicos? Sim. E que bom, gente! E desde quando isso é ruim? Isso é boa gerência dos recursos públicos. Assim sobra dinheiro pra cuidar de situações que precisam de verdade de intervenção médica. Agora dizer que essa é a motivação para existência das casas de parto é reducionismo. Essa “economia” é consequência e não causa, ao meu ver.
Fiquei meio enauseada lendo aqueles comentários no Blog do Luís Nassif. Mesmo não tendo louça pra lavar, parei no seu comentário. Que quando vi que era favorável ao que o autor dizia e descobri que era teu, deu preguiça de ler o resto, confesso.
Ah, preguiça leu tb de ler a parte do ato médico que vc linkou. Ai, como lamentam. Como se exaltam. Ah, tô generalizando sim. Pq se o texto é escrito em nome da classe médica e os médicos se deixam representar por ele, então são todos assim, humpft! “A profissão de médico, misto de carreira técnica, arte e atividade científica, existe desde tempos imemoriais.” Nossa, mais um pouquinho eu choro, affff!
Só sei de uma coisa, fico observando que quando surge uma opção descente pra pobre (me incluindo aí, viu?), ou vem rico e toma (vide mais ou menos o que acontece em universidades públicas) ou acabam. Pobre tem que ser maltratado (gente, é ironia, viu? melhor deixar claro). Triste.
Não é apenas a otimização dos recursos, é opção!!! Acabei tendo meu filho num hospital pois a Casa de Parto na Monte Azul estava fechada e fiquei com medo de ter que atravessar a cidade até a zona leste – o que realmente não teria dado tempo de meu filho não nascer na rua. Mas sim, teria meu bebê numa casa de parto e digo mais: as casas de parto na Inglaterra, Holanda, Suécia, etc, são lindas!!! Nem de longe os quartos se parecem a hospitais, mas sim a salinhas confortáveis para exercícios físicos! E viva as casas de parto!!!
Concordo com casas de parto,ainda + nesse nosso SUS infeliz(em alguns aspectos) agora e as complicações,as doulas podem explicar como fazem ou ainda não atenderam a nenhuma complicação,porque não se pode negar que elas existem.O que fazer,transferir a tempo…
Casas de Parto em “cascata”, em cada distrito sanitário, com população adscrita do território coberto, com referência das UBS do mesmo território, com acesso universal para todas as mulheres! Traduzindo esse “SUSês”: toda mulher tem direito a parir na Casa de Parto que um dia ainda vai existir perto de sua casa!
O meu comentário vão ser duas perguntas:
-Vcs já viram o vídeo de um filme que vai ser lançado “O Renascimento do Parto”? Acabei de ver e achei lindo!
-Vcs tem alguma Casa de Parto em Porto Alegre – RS pra indicar?
Obrigada!
Bjs
Nanda, acredito que se os médicos/hospitais respeitassem o parto como deve ser, um processo natural e saudável, as casas de parto fariam um complemento a esses serviços, e não seriam a única maneira decente de se parir no Brasil. Aqui na Inglaterra, como já falei antes, o pré natal nem é feito com médico, muito menos o parto. Sem complicações a mulher passa por todo o processo sem nunca ver um obstetra (meu caso até agora). O hospital onde Alice nascerá, tem uma casa de parto dentro dele mesmo, mas em pouco se difere das instalações do hospital para parir. Pois aqui, nascer, é sempre natural. Numa lista de discussão no facebook sobre VBAC acabei de dizer, que me sinto muito, muito confiante para ter o meu, porque em NENHUM momento foi cogitado outra coisa. Sou mulher, vou parir. Ponto final.
Kkkkkkkk morri quando você falou do tal vídeo, claaaaaaaaaaaaro que aqueleeeee assunto é coerente e deve ser pensado o que me assusta é a manipulação das coisas isso me maaaaaaaata
Eu sou o tipo de gente que sobe o sangue quando se trata das coisas que acredito, e nesse caso ahhhhhhhhhhhhh os comentários, eles sempre revelam o lado que gostaríamos que não existisse em nossa sociedade.
Tratei de compartilhar a polemica nas minhas redes sociais, quem sabe de pouquinho em pouquinho a gente torne ao menos conhecido esse assunto e quem sabe isso de em alguma coisa.
Quanto ao comentário falando de pobres, digo é assim mesmo ou nos tiram ou acabam
Fiquei muito triste também em ler os comentários da matéria que saiu na Folha ontem, sobre o número de cesáreas chegar a 52% no Brasil. A impressão que eu tenho é que nos dividimos cada vez mais. Enquanto alguns idealizam e curtem cada segundo de um dos momentos mais fantásticos da vida de uma mulher muitos resumem a sofrimento desnecessário, animalesco. Fiquei chocada.
Não sei se tem solução. Enquanto não tiver uma parcela importante da população querendo resgatar valores o mundo anda cada vez mais movido a capital e interesses economicos. E uma coisa tão natural quanto o parto, e porque não estender a amamentação, não tem o menor valor.
Ai Nanda…vi a matéria, vi os comentários e vi você lá!
Fiquei triste com a ignorância daqueles comentários, pois além de ser totalmente a favor das casas de parto, eu estava vendo comentários horriveis numa matéria sobre a Casa Ângela, que é a “minha” casa de parto!
Meus dois filhos nasceram lá e eu tenho uma relação de muito respeito e carinho com a equipe que me apoiou muito em outros momentos muito difíceis da minha vida!
Espero que um dia essa “máfia” médica, nos deixem parir em paz, e aceitem que não queremos intervenções, episio, ocitocina, e anestesias… me deixem sentir a MINHA dor de parto! Afinal ela é minha né!
Nanda, leia os primeiros parágrafos desse post e você vai entender como alguém que deveria prezar pelo conforto de uma parturiente pode chegar perto de defender as desnecesáreas e as cesáreas eletivas.
http://papodehomem.com.br/vagina-cheia-de-gas-a-volta-do-dr-health/
Depois do seu texto fui procurar sobre casas de parto em Curitiba, e infelizmente aqui estamos mal servidas de bons obstetras e profissionais da saúde que incentivem os partos naturais, principalmente depois que o Dr. Moyses Parcionik faleceu.
E sobre o artigo do Nassif, os comentários estraçalharam as entranhas do meu cérebro. Fico indignada!
Nanda, desculpe fugir do tema, mas o tal vídeo ao qual vc se refere, não é um blablabla. Sim, corremos risco de apagão por falta de investimento sérios principalmente em energia limpa, mas não dá pra ignorar os impactos da hidrelétrica. A licença prévia saiu por pressão, os índios tiveram sua voz calada pelo STF.
Vocês aqui do blog, assim como eu, procuram viver uma maternidade natural, tanto no parto, como na criação dos filhos. Quem sabe melhor disso que os indígenas?
Existe uma carta do século 19, de um chefe seattle para o presidente americano http://www.comitepaz.org.br/chefe_seattle.htm que exprime a relação dos índios com o lugar em que vivem, que imagino que devesse ser de todo ser humano. Para mim é difícil aceitar que essas pessoas terão seu modo de vida violentado. Sim, em prol da maioria, (intelectualmente superior?), que não encontrou alternativas para suprir sua demanda crescente de energia.
Os ambientalistas não são compartilhados nas redes sociais. Os atores sim. Quem compartilha pode não saber do que está sendo falado, mas eu consegui ver como uma luz fraquinha no fim do túnel…
A casa de parto é uma ótima alternativa para saúde pública e para cidadania feminina, uma vez que neste modelo o protagonismo da mulher numa hora tão importante como o parto é fundamental. Do ponto de vista da economicidade é bem verdade que o material de consumo seria menor para o subsidiar um parto. De outra parte, vale dizer que o dinheiro não gasto com anestesia, equipamentos e medicamentos pode ser direcionado para pagamento de funcionári@s humanizad@s, sob a égide da multidisciplinariedade. Numa casa de parto o atendimento é integral, oferece estrutura adequada para aquelas mulheres que não dispõe de um apartamento ou casa com condições higiências e estruturais para realização de um parto. Quem é contra as casas de parto é contra saúde pública e o direito da mulher parir com amor!