nov

12

2011

A maternidade dos outros

por Tata

Quando engravidei pela primeira vez, há sete anos, não convivia com ninguém que tivesse filhos. Talvez por ter sido mãe relativamente cedo (aos 26 anos), em uma geração em que a maioria das mulheres tem adiado a maternidade para depois dos trinta, fui a primeira a ter filhos entre as amigas, na família, entre conhecidas e pessoas próximas.

Por causa disso, passei a dividir minhas relações em dois grupos. No primeiro, estavam minhas amigas mães, que eu conhecera por causa da maternidade, em listas, grupos de apoio, cursos de preparação e encontros, e que portanto pensavam parecido comigo em quase todos os pontos relativos à maternagem – gravidez, parto, amamentação, educação, saúde. Do segundo grupo, faziam parte as amigas ‘não-mães’, que já vinham de antes, e com quem eu conversava sobre todas as outras coisas – cinema, teatro, literatura, música, vida – mas nunca sobre maternidade e criação de filhos, porque esse assunto não interessava a ninguém.

Só que o tempo foi passando, e como a vida é dinâmica e tudo se transforma o tempo todo, da mesma forma que algumas das minhas ‘amigas-mães’ passaram a ser amigas para todas as outras coisas da vida e não só para trocar idéias sobre maternidade, algumas das ‘amigas não-mães’ passaram a ser ‘amigas grávidas’, e depois, amigas com filhotes nos braços.

E aí, começou a ficar um pouco mais complicado traçar uma linha tão definitiva entre um grupo e outro. Porque são todas amigas que eu tenho carinho, que respeito e quero que façam parte da minha vida. Por outro lado, as amigas que faziam parte do segundo grupo são, em sua maioria, pessoas que pensam muito diferente de mim em quase tudo o que diz respeito à maternidade, e ao cuidado com os filhos. Suas escolhas neste campo são, quase sempre, ‘a favor da corrente’ – muito diferente de mim, que sou adepta da pílula vermelha até debaixo d’água.

E foi então que eu precisei fazer um exercício bastante trabalhoso, mas que tem compensado e me feito aprender bastante: o exercício de aceitar que o outro é isso mesmo – um outro. Que não precisa pensar como eu, para merecer minha amizade, meu carinho, minha consideração. Que para ser amigo, para estar junto, para compartilhar a caminhada, não precisa ser igualzinho, pensar do mesmo jeito para tudo. Precisa ter alguma afinidade, é claro. Mas não precisa fazer tudo igual. Porque amizade, carinho, nada disso é moeda de troca: te dou, se você fizer do jeito que eu quero. Ou a gente gosta, ou a gente não gosta. E se gosta, está do lado, seja como for.

Confesso que não tem sido fácil. A maternidade ativa, o parto natural, a amamentação, o attatchment parenting, são para mim mais do que conceitos bacanas: são uma bandeira de vida, um ativismo, uma causa. Por isso, às vezes é difícil ficar calada diante de uma escolha totalmente na contramão de tudo isso, feita por uma pessoa querida. Mas mais uma vez, a palavra chave é respeito: não preciso concordar com as escolhas que o outro faz, e se encontrar espaço, posso até colocar minha opinião e minha forma de ver as coisas, debato, converso, discuto – mas feita a escolha, preciso respeitar o caminho que o outro escolheu trilhar, assim como espero que ele respeite também as minhas escolhas e as minhas verdades, por mais diferentes e injustificadas que possam parecer, a seus olhos.

As minhas verdades, afinal, são isso mesmo: minhas. Não precisam ser também as do outro para torná-lo ‘gostável’. Uma amizade é feita de afinidades muito sutis, e que podem se manifestar das mais variadas formas. Logo eu, que sempre defendi que a beleza do ser humano reside na diversidade, vou agora exigir que meus amigos sigam ‘cartilhas’ para fazer parte da minha vida?

Uma vez, há coisa de quinze, vinte anos atrás, li uma frase em uma coluna da revista Capricho (sim, eu lia – e sim, eu ainda me lembro, podem rir!) que, apesar de um tanto óbvia, acho muito sábia: “Eu tenho a minha opinião e você tem a sua. Se eu puder, eu ensino alguma coisa pra você, ou então aprendo”. Desculpem, não me lembro mais de quem era a frase (aí também já seria demais), mas acho que é bem por aí. Esse é o grande barato de ter do lado gente querida com quem compartilhar a vida: a gente sempre pode aprender alguma coisa – ou ensinar.


11 comentários no post “A maternidade dos outros”

  1. Dani Romais disse:

    *Clap,clap,clap,clap*…
    Re, eh isso aih… sem tirar nem por.
    Sempre digo isso. Nao preciso concordar com seu estilo de vida, suas escolhas e muito menos suas ideias. E posso ateh falar isso para voce claramente (se houver espaco), mas nunca em momento algum sem respeito, que eh condicao basica para um relacionamento dar certo.
    Essa eh a maior diferenca entre alguem que concorda em discordar e alguem que carrega um monte de pedras para ficar atirando em quem pensa diferente, criticando antes mesmo de ouvir o outro lado.
    Amei o texto!!! Eh bem onde eu me encontro atualmente…
    E soh pra deixar registrado: eu tambem lia a Capricho e AMAVA!!!

    1. renata (tata) disse:

      verdade, Dani.
      o caminho do respeito tem sempre tudo para dar certo.
      beijo

  2. Lúcia Soares disse:

    Oi, Tata. Já comentei aqui algumas vezes, mas há tempos não o faço. E uma das coisas que me afastou daqui foi exatamente essa radicalidade que lia, vindo de todas as mamíferas. Sempre recomendo o blog para mulheres grávidas, mas sempre enfatizo que irão encontrar pessoas muito radicais. Sei que a posição de vocês é essa mesma, de abrir os olhos das mulheres para as coisas naturais da maternidade, e o respeito ao pensamento de cada um é fundamental. Gosto muito do seu jeito de escrever, sempre incisiva, mas sabemos bem que nem sempre as pessoas compartilham das mesmas ideias. Adorei seu texto! Acompanhei muito suas gêmeas, vou lá ver como estão. E nem conheço a menorzinha, Chiara?, estou curiosa para ver como está.

    1. renata (tata) disse:

      oi Lúcia, a Chiara já está com dois anos e meio… o tempo não pára de passar! :-)
      então, eu acho que a postura aqui no blog, onde o intuito é mesmo informar, semear, discutir, tem que ser mais incisiva mesmo, mais apaixonada. mas sempre com respeito, que nunca vi faltar aqui.
      mas de um jeito ou de outro, quem chega por aqui está interessado em ouvir (ler) o que a gente tem a dizer. diferente de uma amiga que de repente compartilha a vida comigo, sem necessariamente estar disposta a refletir naquele momento sobre todos os temas que a gente trata aqui. aí cabe mesmo dar espaço, dar tempo. respeitar o processo de cada um, que é diferente do nosso.
      beijo

  3. Carolina Lube disse:

    tarefa difícil essa, mas constante aqui em casa. Porque dói quando não conseguimos mostrar para o outro que a maternidade pode ser uma mágica travessia.
    O engraçado é que do respeito surgem questões para este outro, pelo menos tem sido assim comigo na maioria das vezes. Ao respeitar as escolhas de outra mãe sem querer fazer com que ela engula guela abaixo as minha escolhas, mais tarde, no tempo de cada uma, surge uma ou outra questão… um bebê que está com uma alergia, bebê que está sem dormir… e assim nesses desabafos entre mães que se respeitam, com calma e na medida dos pedidos e necessidades dela (não minhas) nasce uma nova percepção… para uma mãe com um bebê com cólicas, um texto de Gonzalez planta sementinhas, que algumas vezes vão dar lindas flores.
    é claro que nem sempre é assim, mas tenho visto diversas flores brotarem quando são regadas com respeito. cedo? tarde? as vezes tarde para mim (as vezes depois de uma cesárea), mas no tempo que é possível para o outro.

    1. renata (tata) disse:

      verdade, Carolina, percebo isso também.
      com cada pessoa, é um caminho que funciona.
      às vezes uma abordagem mais incisiva dá frutos. outras vezes, é uma coisa de ir comendo pelas beiradas… com calma. ;-)
      beijo

  4. Erika Mayumi disse:

    Tata, tenho pensado muito sobre o respeitar e o apresentar o outro lado, essa história de cada um no seu quadrado está funcionando mesmo?
    Acredito que não exista uma verdade única e absoluta. Mas penso também no futuro que estamos caminhando e é uma preocupação principamente de mãe, em que mundo viverão nossos filhos com tantos valores diferentes, que as pessoas não questionam e apenas seguem a maré? Cada vez mais vejo uma minoria lutando, se informando.
    Como já falei mais de uma vez, o blog Mamiferas é meu porto seguro, que me faz ser a mãe que desejo para não cair e me igualar a grande maioria que pensa o oposto.

    1. renata (tata) disse:

      Erika,
      por isso que acho importante a gente se colocar sempre que encontrar um espaço, sempre que perceber que há abertura para uma conversa respeitosa. mas às vezes, simplesmente não é o momento daquela pessoa, e aí acho que é preciso respeitar também.
      como disse num comentário acima, acho que é diferente de uma pessoa que chega aqui no blog para ler o que a gente escreve – essa pessoa, de alguma forma, já está dando uma abertura, já está se dispondo a repensar uma série de coisas.
      mas às vezes, na convivência diária com amigas que não estão tão mergulhadas quanto nós nestas questões, é preciso dar espaço, respeitar que cada um caminha de seu jeito, a seu tempo.
      não é fácil, mas eu tenho tentado aprender e exercitar…
      beijo

  5. katia cristina lana disse:

    Tata, é um exercício bastante trabalhoso mesmo… somado a isso que vc escreveu, sinto que as minhas escolhas “ofendem” algumas pessoas; elas vem me perguntar as coisas com uma postura de ataque. Já me perguntaram assim: “e como vc acha que se sentiria uma mãe que optou por ter o filho em casa e o filho morre?”. (Eu tinha acabado de contar sobre o meu parto domiciliar). Eu, muitas vezes, me sinto isolada e talvez até excluída, pelas minhas escolhas. Adorei o post. bjo

    1. renata (tata) disse:

      pois é Katia, acho que aos poucos a gente tem que ir aprendendo quando é hora de aprofundar a conversa, e quando é hora de deixar pra lá, focar em outras coisas, e dar àquela pessoa o espaço que ela está precisando.
      difícil diferenciar, né?
      ufa, vamos aprendendo!
      beijo

  6. Camila, mãe da Pietra disse:

    Renata (Tata), é tão verdade essa frase da Capricho (revistinha que eu também usava como “guia” quando era adolescente), mas tão verdade que eu entro todo dia aqui no Mamíferas mesmo sem ser 100% adepta dessa causa e aprendo um pouco sim! Obrigada por colocar sua opinião de que é possível sim ter vários pontos de vista sobre maternidade. Abraços!


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