Ontem, domingo 21, foi publicada no periódico “Folha de São Paulo” uma matéria com uma informação alarmante, embora já conhecida de quem milita no meio do parto humanizado aqui no Brasil: pela primeira vez, o número de nascimentos por via cirúrgica supera o de nascimentos por parto normal em nosso país. Parece a tal ‘crônica da morte anunciada’, não é mesmo?
É ainda mais chocante quando percebemos que, em relação ao ano passado, houve uma diminuição no número de nascidos vivos no Brasil (de 0,85%), mas houve um aumento de mais de 3% no número de cesarianas.
A matéria, que você pode ler na íntegra no site
Parto no Brasil, tenta detalhar os motivos que expliquem este crescimento dos nascimentos cirúrgicos nos últimos anos. Entre eles, várias questões que já conhecemos: a
remuneração insuficiente dos médicos para o tempo dispendido para atender um parto normal, a
formação inadequada recebida pelos estudantes de medicina, a responsabilidade das mulheres que
escolhem esta via de nascimento, entre outros.
O que chama a atenção no texto, no entanto, é a inaptidão dos órgãos públicos para lidar com a questão, que claramente já é, há tempos, um problema de saúde pública, que o próprio secretário de atenção à saúde do Ministério da Saúde classifica como “uma epidemia”.
O texto aponta iniciativas pensadas pelos órgãos responsáveis para reverter o problema, como ter obstetras de plantão para atender as parturientes, evitando que o obstetra responsável fosse chamado ainda longe do nascimento e tivesse que dispender muitas horas aguardando o nascimento por via baixa, entre outras iniciativas que você pode ler no texto, mas a impressão que fica é que sejam quais forem as providências que vêm sendo tomadas, não tem sido suficientes – já que a ANS vem trabalhando para a redução dos níveis de cesárea desde 2009, e no entanto, as taxas têm crescido ao invés de diminuir.
A verdade é clara: passou da hora dos órgãos públicos tomarem atitudes a respeito das vergonhosas taxas de cesárea em nosso país. Por exemplo: ainda na semana passada, os EUA registraram pela primeira vez em uma década um leve decréscimo nos índices de cesarianas no país. Como eles conseguiram isso? Apoiando – não criminalizando – partos domiciliares e casas de parto (birthing centers).
Além de enfatizar o “óbvio”, é preciso que o governo brasileiro tome atitudes enérgicas, resolutivas, que cheguem além das pífias ‘tentativas’ para amenizar o problema. Junto às faculdades de Medicina, junto às operadoras de planos de saúde, junto às entidades corporativas. É preciso preservar a saúde das mães e bebês, é preciso relegar à cesárea o papel que lhe cabe: cirurgia não-eletiva, justificável apenas em casos emergenciais, quando seu uso diminua os riscos ao invés de aumentá-los.
E, como bem observou a Melania, no FB, é preciso parar de culpabilizar sempre a mulher. Tá, a mulher pode até ter parte da responsabilidade por “ter escolhido” a cesárea, por ter medo de acessar alguns pontos da sua sexualidade etc., mas, até que ponto isso é opção?
Além de não dever haver opção neste caso (não deveria ser opcional, como já foi defendido aqui), uma opção baseada em falácias amplamente divulgadas (de que cesárea é segura, que os riscos são mínimos – e os médicos cesaristas nunca citam nenhum, mas abrem a boca para listar milhares de riscos do PN -, de que é o “novo normal”) não deveria nunca ser levada em conta, já que, num sistema médico, a responsabilidade sobre a cirurgia é, sim, do profissional que está atendendo.
É minha gente eu sou a chata que entra sempre aqui pra falar a verdade que ninguem quer enxergar,porque to nesse meio e sei que nada vai mudar por enquanto,não adiantam ilusões…enquanto os planos não se mexerem(e não se mexeram apos meses…) e SUS continuar sem grana que preste ( a Emenda 29 sendo empurrada até…)facus abrindo que nem bar,de qq maneira e Dilma querendo formar + 4500 medicos por ano…viram o drama.Não sou gineco mas acho q o melhor mesmo são as casas de parto,vcs doulas divulguem.
Estava conversando com meu marido ontem na hora do almoco sobre a minha (ainda existente) frustracao pela cesarea a que fui submetida. Quando eu passei por essa cirurgia, dizia que a medica me apresentou a opcao e que eu decidi. Olhando para tras, e analizando o que realmente aconteceu, percebo que nao foi me dada uma opcao. Que opcao teria eu quando ouvi que a minha pressao estava “alta demais” e que poderia causar danos para o meu bebe. Detalhe: no momento em que isso foi dito, minha pressao havia sido medida uma vez quando eu cheguei esbaforida no consultorio apos ter andado (quase correndo) mais de 20 quadras. Que pressao que estaria baixa numa situacao assim? Mesmo depois que fizemos o exame doppler e tudo deu normal, ela insistiu no prognostico que eu precisava fazer uma cesarea afinal ela preferia nao esperar. E ainda tive que ouvir: “esperar pra que, o bebe tah bem agora, tah tudo formadinho jah. Mas se voce esperar pode dar alguma coisa errada!” Onde estah a opcao?
Minha maior frustracao veio na hora em que eu estava jah na mesa de cirurgia, e ela jah estava me abrindo. Eu monitorava minha pressao, e resolvi dizer alguma coisa: “Peraih, minha pressao estah normal!” (Estava 8X12). E ela me deu um sorriso e disse: “Eh. Isso sempre acontece!” E mudou de assunto o mais rapido possivel.
Saber que o indice de cesareas ultrapassou o de partos normais nao me surpreende em nada. Eh apenas a constatacao de um sistema falido que (como a Nancy mesma disse) forma gente que nao estah capacitada e nem tem vontade de fazer a coisa certa! Revoltante!!!
Gostaria de trazer para esta discussão uma questão que me foi apresentada hoje em uma lista de discussão sobre parto humanizado (a pergunta não é minha, só achei muito interessante e quis repassar): até que ponto a cesariana não é encarada pelas mulheres como uma alternativa “mais digna” para os partos vaginais que vêm sendo oferecidos? Até que ponto a formação do médico e o despreparo dos governos para lidar com essa demanda tornam as cesarianas uma ilusória saída para partos padronizados e formatados de acordo com uma parturiente ideal?
Concordo com a Paloma, que as mulheres têm alguma culpa na escolha pela cesariana, mas, conforme o artigo coloca muito bem, há uma inaptidão dos médicos e do governo para atender satisfatoriamente às necessidades, demandas, expectativas e emoções da parturiente e do RN.
Adorei o texto!
bjs
Olás companheiras! Obrigada por nos referir em tão importante texto.
Venho compartilhar uma proposta um tanto radical, eu sei, mas como somos usuárias, cidadãs, podemos espernear à vontade ….
O que penso é que precisamos de mecanismos para transformar em “delitos” os atos de violência obstétrica: criminalização da violência institucional mesmo!
A partir de articulação com o Ministério Público, talvez, que é quem deveria zela pela nossa integridade, neste momento.
Acredito que no país, assim como acontecia há alguns anos com as mulheres que vivam situação de violência doméstica ou familiar, há uma certa permissividade social com as facadas que as mulheres levam de médicos e EOs durante o parto, além dos maus-tratos, negligência e abusos verbais.
A Venezuela conseguiu incluir a violência contra as mulheres dentro das maternidade no rol das atitudes criminosas. Poderia ser um bom modelo a seguirmos.
Beijos
Concordo com vc, Ana Carolina! Acho ainda que a melhor via é o Ministério Público. Apesar de haver ações importantes do Ministério da Saúde e da ANS, ainda são ínfimas perto do poder médico em definir como se dá a atenção obstétrica no Brasil. Discordo que seja uma questão de recursos e acho que mesmo com a aprovação da EC 29, o quadro continuaria o mesmo se não houvesse uma proposta de política pública de grande vulto. Até porque a criação de casas de parto e o aumento na taxa de partos normais no Brasil provavelmente reduziria os custos obstétricos no Brasil. Será que não conseguimos nos organizar e encaminhar uma denúncia ao MP, recomendando ações concretas e de grande impacto por parte do MS e da ANS?
Muuuuuuuuuuuuuuito bom o seu blog. Adorei. Parabéns.
Regina
A opção que foi dada a mim foi na hora P: “voce prefere o corte na barriga ou o corte no períneo?” “Mas tem que cortar?” “Sim, vou cortar. Me diga onde agora, seu bebe está sofrendo e precisa sair e comigo é só com corte”. “Bem, então eu prefiro na barriga, pelo menos não sentirei a dor.”. É isso. A opção realmente foi minha, mas quem tiraria minha razão? Não queria um corte na vagina, melhor um que é realizado com a gente sedada e na barriga, vou poder urinar depois e não comprometer minha vida sexual (que é importante sim). Isso realmente é escolha ou opção?
Ah, finalmente…
Tem que apontar a culpa e jogar a responsabilidade para quem de direito. À Saúde Pública, que é uma porcaria nesse país.
E não à mulher. Eu carrego uma culpa nos ombros que não me pertence, mas carrego pq é difícil não se sentir assim.
Ah… no hospital que tive meus filhos o índice de cesáreas passa dos 90%.
Esses 52% é contando com os partos frank. Queria ver uma estatística contabilizando só os partos humanizados. O índice seria pífio.