ago
4
2011
Entrevista de emprego
por Nanda
- Com licença?
- Bom dia (olha curricúlo rapidamente) Rose. Tudo bem? Pode sentar. Quer um cafezinho?
- Não, obrigada. Água seria bom, se possível.
- Teresa! Traz uma água e um café, por favor? Muito bem Rose. Estive dando uma olhada no seu currículo e achei muito interessante. Você tem pós-graduação na área, trabalhou por muito tempo na empresa X, foi promovida a um cargo de chefia… Mas aí está: esse emprego foi há dois anos atrás. Você está fora do mercado há muito tempo, Rose. O que houve?
- É que eu tive um filho, e optei por me afastar do trabalho para poder ficar com ele integralmente, Sr. Pereira.
- Ah… Mas a sua antiga empresa não lhe deu a licença-maternidade?
- Deu sim, mas acho que o tempo da licença-maternidade não é o suficiente. Eu até tentei pedir uma licença não-remunerada pelo tempo necessário, mas não conseguimos entrar em um acordo.
- Poxa, Rose. Que pena… Você sabe que a nossa área de trabalho é dinâmica, e as mudanças são muito rápidas. Esse hiato no seu currículo te deixa em uma posição de desvantagem. Como é que eu vou saber que você está acompanhando? Precisamos de alguém que esteja dentro do mercado, e que seja capaz de se dedicar a essa vaga, pois é um cargo de chefia. Você entende, né? Ficaremos em contato se surgir uma nova posição…
- Então, Sr. Pereira… Posso discordar do senhor? Não consigo imaginar alguém mais dedicado a um projeto do que eu, afinal, quando eu tive meu filho, me afastei de todas as outras coisas para me dedicar inteiramente a ele. Isso não me impediu de acompanhar a evolução da profissão, pois eu tenho acesso a internet e às publicações especializadas, o que me deu ainda mais visão do que se eu estivesse somente dentro de um cargo e um segmento.
Além do mais, o projeto ao qual eu me dediquei nos últimos dois anos me deu habilidades que eu sequer pensava possuir. Antes de mais nada, eu me tornei multitarefa: amamentando e lavando a louça, ninando e varrendo a casa, brincando e fazendo o almoço. E a criatividade é uma das características que eu exerço continuamente, não é fácil convencer uma criança de 2 anos a vestir uma camisa verde se ela quer a azul, sem inventar um bom motivo para isso. Isso tudo trabalhando dentro de um orçamento reduzido, visto que a renda de minha casa diminuiu pela metade.
Acredito que a maternidade também me proporcionou excelente treinamento em liderança, pois me tornei o modelo e fonte de todo aprendizado do meu filho, ensinando a diferença entre o certo e o errado, esperando que ele se torne um ser humano melhor do que eu. Sem contar que ao hospedar a maioria dos encontros de brincadeiras lá do prédio, minhas habilidades de trabalhar em equipe aumentaram exponencialmente.
Isso tudo com base no feedback positivo e gerenciamento de crises, e sobre esses eu nem vou precisar discorrer. Na verdade. Sr. Pereira, esses últimos dois anos em branco no meu currículo existem tão-somente porque ninguém aceitou assinar minha carteira como mãe. Como não estou interessada em uma vaga abaixo da minha capacidade e experiência, vou esperar a ligação a respeito dessa. Muito obrigada!
E aí? Eu contratava.
Imagem daqui.
categorias: Nanda, crônica, filhotes, mãe e mulher
tags: emprego, entrevista, histórias, licença-maternidade, trabalho





Puxa vidaaaa!!!! ótimo!!! Contratava na hora!!! Queria ter lido isso, quando eu mesma passei pela situação de voltar ao mercado de trabalho!!!! hahaha ia me ajudar bastante!!!
Muito bom!’Adorei!
E além de tudo isso… com o cargo de mãe vem uma habilidade quase infinita de auto-controle, calma e paciência… pq muitas vezes, mesmo querendo e precisando muuuito gritar e brigar, somos capazes de Sorrir e explicar calmamente a razão de não poder riscar a parede, ou jogar todas as coisas no chão…. Junto, ainda um curso de motivação e reconhecimento das qualidades alheias… é… todas as pessoas em cargos de chefia deveriam ser mães!!!!…
Excelente texto!!
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Discurso ANOTADISSIMO para quando eu voltar para o mercado de trabalho.
Muito obrigada, tenho certeza q será muito útil!!!
Bjus
Muito bom!
Obrigada, meninas! Toda mãe é naturalmente uma chefe mesmo! E chefe das melhores: entende quando está doente, aprecia o bom trabalho (e te fala!) e dá linhas-guias para um trabalho, sem forçar a barra. Viva as mães!
Muito bom!!! A situação da mulher e mãe é realmente um desrespeito, faz mais de um ano que acompanho no Congresso sobre a PEC 515/2010 que torna a licença maternidade de seis meses obrigatória. É um descaso absurdo, como se seis meses fosse muito. O pior é a campanha do Ministério da Saúde falando em amamentação obrigatória durante os seis meses, como um governo pode ser tão SACANA, parece que só depende da mulher. Quando temos a opção de escolher, ou trabalhamos meio período, ótimo, mas e a grande maioria das mulheres, que precisam sustentar suas famílias. É realmente muito revoltante. Adoro vocês e suas reflexões. Abraços. Vivian
Que lindo! Eu como mãe e adm sem fins lucrativos (dona-de-casa hehe) agradeço imensamente pelo belíssimo texto!
Perfeito, estou passando por este momento de transição, de deixar o trabalho e me dedicar ao ato de ser mãe, é uma guerra dentro de nós, muitas coisas para pensar, é uma decisão muito difícil, mas temos que enfrentar com coragem. Adorei!!!
Muito bom o texto, Nanda… Alias, todas nos temos que nos lembrar dessas nossas qualificacoes. Muitas vezes nos mesmas nos colocamos para baixo.
Beijos a todas…
Dani
rs…to rindo sozinha….
Obrigada!!! Muito bom de ler…
Perdeito, Nanda! Amei o post!
Nanda, MARAVILHA seu post! Como disse Paty, PERFEITO! Beijos
Meninas, muito obrigada pelo FEEDBACK positivo! Vou escrever cartas de recomendação para todas vocês! Hahaha… Beijão!
Nanda, eu lhe parabenizo por cada palavra mencionada. Estou fora do mercado desde 2008 e não consigo retornar em um emprego fixo. Guardarei com todo carinho cada palavra aqui escrita para uma oportunidade de emprego. Passei por uma situação de entrevista semelhante. O que me fere só de lembrar: fui a uma entrevista tão esperançosa, liguei diversas vezes a empresa. A recepcionista me retorna da última ligação a noite para confirmar uma entrevista no dia seguinte. Meu marido super me apoiando deu um jeito na jornada, ficou em casa com minha filha para eu ir a entrevista. Chegando lá, aguardei e fui chamada pela responsável. Ela me olhou, viu meu currículo e gostou. Era para uma vaga em Fotografia, que desejava muito. Ela entrou no meu site e viu fotos de minha filha. Elogiou e perguntou quem era a menina linda. Na sinceridade da conversa e sem pensar disse: minha filha. Ela mudou rapidamente de feição e disse que a carga horária de trabalho era muito puxada e que uma pessoa com filho pequeno seria difícil. Oportunidades na área são como loterias. Raras. Eu mal pude continuar, alegando possibilidades, e ela logo disse: obrigada e qualquer oporunidade retornaremos. Isso é uma baita paulada na vida, nos sonhos, nas buscas. E ainda falam que eu deveria ir buscar mesmo asim. Eu continuo na busca. Mas se só o fato de falar que tem um filho a pessoa já olha de outra forma imagine se fosse com minha filha nos braços? Realmente adorei o texto e não pensei em colocar tais argumentos, assim poderia ter sido diferente, agora será! bjs
Luana, eu nem preciso me colocar na sua situação: já estive em uma semelhante. É extremamente frustrante, porque só nós entendemos que conseguimos balancear os dois extremos.
Espero mesmo ter conseguido te dar uma luz.
Beijão!
DEMAIS, DEMAIS!
Muito bom, adoreii! Deveriam ver que a experiencia de ser mãe não diminui a profissional, mas soma habilidades.
Para Nanda, Kalu, ou Tata: Desculpa falar por aqui mas estou tentando entrar em contato com vcs pelo “Contato” e não estou conseguindo,então se puderem entrem em contato comigo pelo e-mail: jeh.km@bol.com.br
bjuss
pois é meninas, assim estou eu… mas tô tentando me virar por conta própria… esse ano faço 40 anos e Isabela está com 2a5m, e acho que seria ainda mais difícil me recolocar… sou Contadora Autônoma (http://mulhercontadora.blogspot.com/) e distribuidora de uma nova linha de maquiagens (http://actualcare.com.br/)… feliz com isso? ainda não… mas não me arrependo já que o tempo precioso que posso passar com ela não tem preço mesmo….
[...] da ciadasmães: o diálogo abaixo, publicado originalmente no blog mamíferas, é uma obra de ficção. mas nós sabemos muito bem que qualquer semelhança com a realidade não [...]
Adorei!!
Tanto q compartilhei no face http://www.facebook.com/jessicaaquinonascimento
Bju
Adorei!! Estou de licença e não voltarei a trabalhar, meu maior medo o retorno ao mercado de trabalho, mas estas palavras me fortaleceu!!
Beijos
Que bom, Gleide! Só a gente sabe as qualidades que ganha com esse “emprego”, não é mesmo? Beijão!