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2011

Entrevista de emprego

por Nanda

- Com licença?

- Bom dia (olha curricúlo rapidamente) Rose. Tudo bem? Pode sentar. Quer um cafezinho?

- Não, obrigada. Água seria bom, se possível.

- Teresa! Traz uma água e um café, por favor? Muito bem Rose. Estive dando uma olhada no seu currículo e achei muito interessante. Você tem pós-graduação na área, trabalhou por muito tempo na empresa X, foi promovida a um cargo de chefia… Mas aí está: esse emprego foi há dois anos atrás. Você está fora do mercado há muito tempo, Rose. O que houve?

- É que eu tive um filho, e optei por me afastar do trabalho para poder ficar com ele integralmente, Sr. Pereira.

- Ah… Mas a sua antiga empresa não lhe deu a licença-maternidade?

- Deu sim, mas acho que o tempo da licença-maternidade não é o suficiente. Eu até tentei pedir uma licença não-remunerada pelo tempo necessário, mas não conseguimos entrar em um acordo.

- Poxa, Rose. Que pena… Você sabe que a nossa área de trabalho é dinâmica, e as mudanças são muito rápidas. Esse hiato no seu currículo te deixa em uma posição de desvantagem. Como é que eu vou saber que você está acompanhando? Precisamos de alguém que esteja dentro do mercado, e que seja capaz de se dedicar a essa vaga, pois é um cargo de chefia. Você entende, né? Ficaremos em contato se surgir uma nova posição…

- Então, Sr. Pereira… Posso discordar do senhor? Não consigo imaginar alguém mais dedicado a um projeto do que eu, afinal, quando eu tive meu filho, me afastei de todas as outras coisas para me dedicar inteiramente a ele. Isso não me impediu de acompanhar a evolução da profissão, pois eu tenho acesso a internet e às publicações especializadas, o que me deu ainda mais visão do que se eu estivesse somente dentro de um cargo e um segmento.

Além do mais, o projeto ao qual eu me dediquei nos últimos dois anos me deu habilidades que eu sequer pensava possuir. Antes de mais nada, eu me tornei multitarefa: amamentando e lavando a louça, ninando e varrendo a casa, brincando e fazendo o almoço. E a criatividade é uma das características que eu exerço continuamente, não é fácil convencer uma criança de 2 anos a vestir uma camisa verde se ela quer a azul, sem inventar um bom motivo para isso. Isso tudo trabalhando dentro de um orçamento reduzido, visto que a renda de minha casa diminuiu pela metade.

Acredito que a maternidade também me proporcionou excelente treinamento em liderança, pois me tornei o modelo e fonte de todo aprendizado do meu filho, ensinando a diferença entre o certo e o errado, esperando que ele se torne um ser humano melhor do que eu. Sem contar que ao hospedar a maioria dos encontros de brincadeiras lá do prédio, minhas habilidades de trabalhar em equipe aumentaram exponencialmente.

Isso tudo com base no feedback positivogerenciamento de crises, e sobre esses eu nem vou precisar discorrer. Na verdade. Sr. Pereira, esses últimos dois anos em branco no meu currículo existem tão-somente porque ninguém aceitou assinar minha carteira como mãe. Como não estou interessada em uma vaga abaixo da minha capacidade e experiência, vou esperar a ligação a respeito dessa. Muito obrigada!

E aí? Eu contratava.

Imagem daqui.


24 comentários no post “Entrevista de emprego”

  1. Janaina disse:

    Puxa vidaaaa!!!! ótimo!!! Contratava na hora!!! Queria ter lido isso, quando eu mesma passei pela situação de voltar ao mercado de trabalho!!!! hahaha ia me ajudar bastante!!!

  2. juliana disse:

    Muito bom!’Adorei!

  3. Tata Costa disse:

    E além de tudo isso… com o cargo de mãe vem uma habilidade quase infinita de auto-controle, calma e paciência… pq muitas vezes, mesmo querendo e precisando muuuito gritar e brigar, somos capazes de Sorrir e explicar calmamente a razão de não poder riscar a parede, ou jogar todas as coisas no chão…. Junto, ainda um curso de motivação e reconhecimento das qualidades alheias… é… todas as pessoas em cargos de chefia deveriam ser mães!!!!…
    Excelente texto!!

  4. [...] Leia mais: Blog Mamíferas » Arquivo do Blog » Entrevista de emprego [...]

  5. Discurso ANOTADISSIMO para quando eu voltar para o mercado de trabalho.
    Muito obrigada, tenho certeza q será muito útil!!!
    Bjus

  6. Nanda disse:

    Obrigada, meninas! Toda mãe é naturalmente uma chefe mesmo! E chefe das melhores: entende quando está doente, aprecia o bom trabalho (e te fala!) e dá linhas-guias para um trabalho, sem forçar a barra. Viva as mães! :)

  7. Vivian Trivelin disse:

    Muito bom!!! A situação da mulher e mãe é realmente um desrespeito, faz mais de um ano que acompanho no Congresso sobre a PEC 515/2010 que torna a licença maternidade de seis meses obrigatória. É um descaso absurdo, como se seis meses fosse muito. O pior é a campanha do Ministério da Saúde falando em amamentação obrigatória durante os seis meses, como um governo pode ser tão SACANA, parece que só depende da mulher. Quando temos a opção de escolher, ou trabalhamos meio período, ótimo, mas e a grande maioria das mulheres, que precisam sustentar suas famílias. É realmente muito revoltante. Adoro vocês e suas reflexões. Abraços. Vivian

  8. Lu disse:

    Que lindo! Eu como mãe e adm sem fins lucrativos (dona-de-casa hehe) agradeço imensamente pelo belíssimo texto!

  9. Patrícia Lins disse:

    Perfeito, estou passando por este momento de transição, de deixar o trabalho e me dedicar ao ato de ser mãe, é uma guerra dentro de nós, muitas coisas para pensar, é uma decisão muito difícil, mas temos que enfrentar com coragem. Adorei!!!

  10. DaniKiyo disse:

    Muito bom o texto, Nanda… Alias, todas nos temos que nos lembrar dessas nossas qualificacoes. Muitas vezes nos mesmas nos colocamos para baixo.
    Beijos a todas…
    Dani

  11. rs…to rindo sozinha….
    Obrigada!!! Muito bom de ler…

  12. Patricia Arouca disse:

    Perdeito, Nanda! Amei o post!

  13. Nelia disse:

    Nanda, MARAVILHA seu post! Como disse Paty, PERFEITO! Beijos

  14. Nanda disse:

    Meninas, muito obrigada pelo FEEDBACK positivo! Vou escrever cartas de recomendação para todas vocês! Hahaha… Beijão!

  15. Luana Botelho disse:

    Nanda, eu lhe parabenizo por cada palavra mencionada. Estou fora do mercado desde 2008 e não consigo retornar em um emprego fixo. Guardarei com todo carinho cada palavra aqui escrita para uma oportunidade de emprego. Passei por uma situação de entrevista semelhante. O que me fere só de lembrar: fui a uma entrevista tão esperançosa, liguei diversas vezes a empresa. A recepcionista me retorna da última ligação a noite para confirmar uma entrevista no dia seguinte. Meu marido super me apoiando deu um jeito na jornada, ficou em casa com minha filha para eu ir a entrevista. Chegando lá, aguardei e fui chamada pela responsável. Ela me olhou, viu meu currículo e gostou. Era para uma vaga em Fotografia, que desejava muito. Ela entrou no meu site e viu fotos de minha filha. Elogiou e perguntou quem era a menina linda. Na sinceridade da conversa e sem pensar disse: minha filha. Ela mudou rapidamente de feição e disse que a carga horária de trabalho era muito puxada e que uma pessoa com filho pequeno seria difícil. Oportunidades na área são como loterias. Raras. Eu mal pude continuar, alegando possibilidades, e ela logo disse: obrigada e qualquer oporunidade retornaremos. Isso é uma baita paulada na vida, nos sonhos, nas buscas. E ainda falam que eu deveria ir buscar mesmo asim. Eu continuo na busca. Mas se só o fato de falar que tem um filho a pessoa já olha de outra forma imagine se fosse com minha filha nos braços? Realmente adorei o texto e não pensei em colocar tais argumentos, assim poderia ter sido diferente, agora será! bjs

    1. Nanda disse:

      Luana, eu nem preciso me colocar na sua situação: já estive em uma semelhante. É extremamente frustrante, porque só nós entendemos que conseguimos balancear os dois extremos.
      Espero mesmo ter conseguido te dar uma luz.
      Beijão!

  16. Muito bom, adoreii! Deveriam ver que a experiencia de ser mãe não diminui a profissional, mas soma habilidades.
    Para Nanda, Kalu, ou Tata: Desculpa falar por aqui mas estou tentando entrar em contato com vcs pelo “Contato” e não estou conseguindo,então se puderem entrem em contato comigo pelo e-mail: jeh.km@bol.com.br
    bjuss

  17. pois é meninas, assim estou eu… mas tô tentando me virar por conta própria… esse ano faço 40 anos e Isabela está com 2a5m, e acho que seria ainda mais difícil me recolocar… sou Contadora Autônoma (http://mulhercontadora.blogspot.com/) e distribuidora de uma nova linha de maquiagens (http://actualcare.com.br/)… feliz com isso? ainda não… mas não me arrependo já que o tempo precioso que posso passar com ela não tem preço mesmo….

  18. Cia das Mães disse:

    [...] da ciadasmães: o diálogo abaixo, publicado originalmente no blog mamíferas, é uma obra de ficção. mas nós sabemos muito bem que qualquer semelhança com a realidade não [...]

  19. Gleides Alves disse:

    Adorei!! Estou de licença e não voltarei a trabalhar, meu maior medo o retorno ao mercado de trabalho, mas estas palavras me fortaleceu!!

    Beijos

    1. Nanda disse:

      Que bom, Gleide! Só a gente sabe as qualidades que ganha com esse “emprego”, não é mesmo? Beijão!


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