jun
6
2011
Perséfone
por Mamífera(o) Convidada(o)
por: Camila Morais Mamífera Convidada
Diz o mito que Coré, filha de Deméter, colhia flores em uma verde campina quando uma fenda se abriu na terra à sua frente e de dentro dela, Hades, o Deus do submundo surgiu em seu encalço, raptando-a. Em sua estadia no mundo dos mortos, Coré comeu uma romã oferecida por Hades (metáfora do desenvolvimento da sexualidade) antes de ser resgatada e voltar para o lado de sua mãe. Este ato de comer a romã foi o mote utilizado por Hades para assegurar que durante 1/3 do ano sua amada retornasse para o seu reino, agora não mais como Coré, a jovem vítima, mas sim como Perséfone, deusa amadurecida e rainha dos mortos.
Quando grávida, posso dizer que fiz minha descida ao submundo. Estava de férias, viajando pelo interior de Minas Gerais, quando no dia 6/8/2008 fiz um exame de laboratório que confirmou a gestação. Recebi a notícia com alegria e temor, estava feliz por ser mãe, por realizar um desejo que nos últimos três anos inflamou cada célula do meu corpo. Mas tive medo também. Medo, pois eu sabia que nunca mais seria a mesma pessoa. E eu gostava do que eu era.
E quem era eu? Uma “garota” de 26 anos que já havia rompido com muitas convenções que me enclausuravam, que já havia lido e relido inúmeros livros sobre parto natural, sobre fêmeas selvagens, que já havia inclusive cometido algumas loucuras de amor. Alguém que já havia largado uma formação em um curso tradicional para seguir sua verdadeira vocação artística. Enfim, o que eu quero dizer com isso tudo, é que eu não era boba. Mas um pouco inocente talvez.
Dois dias depois do resultado positivo, senti uma forte cólica e acabei aceitando a sugestão de minha ex-sogra de ir ao hospital onde ela trabalhava como secretária na cidade de Cataguases, para consultar-me com um ginecologista. Aceitei, pois além da dor, estava num ritmo de vida meio agitado, com direito a exaustivos trabalhos corporais, passeios a cavalo e uma boa dose de boemia. Preocupei-me então, como todas as mamães de primeira viagem tantas vezes inutilmente fazem.
Era manhã e fui ao tal hospital, onde o ginecologista encaminhou-me para fazer um ultrassom. Durante o exame realizado por um médico de semblante preguiçoso e desinteressado, percebi que alguma coisa estava “errada”. Ele dizia não conseguir ouvir o coração do bebê, perguntou-me inúmeras vezes se eu tinha certeza da gravidez, e diante da minha afirmativa e de um volume considerado excessivo no lado direito do meu aparelho reprodutor, ele concluiu:
-“Gravidez ectópica. Presença de saco gestacional na trompa direita (gravidez tubária)”.
Com o resultado em mãos, perguntei então ao ginecologista sobre a real necessidade da operação, já que iria voltar para BH logo mais a noite. Foi aí que ouvi a desastrosa sentença:
“- Você pode ter uma hemorragia no meio do caminho e morrer. Ou você opera, ou você morre.”
Não queria morrer e então sozinha, longe de casa, de minha família, acompanhado apenas pelo meu ex-namorado e sua mãe, resolvi operar.
Meu lado prático e racional tentava “aceitar” a situação, o aborto justificável, pensava que isso seria mesmo a melhor coisa a ser feita, poderia eu assim me dedicar exclusivamente à minha carreira, afinal nem certeza tinha eu de querer ter um filho naquele momento, daquele jeito, com aquela pessoa. Essa era a voz fria da razão.
Mas à medida que o tempo ia passando, outra voz crescia dentro de mim. Uma vozinha chata que sentia algo fora do lugar, que desconfiava do laudo objetivo, claro e supostamente inquestionável do ultrassom, uma voz que dizia insistentemente para não confiar em nada e em ninguém ali. Essa voz contaminou todo o meu corpo e meus instintos aguçados davam à minha fisionomia uma grande semelhança com um animal acuado que pressente o perigo de um predador.
Lembro-me que enquanto a sala de cirurgia estava sendo preparada, fiquei aguardando em uma ala onde a princípio eu não deveria estar. Esta ala recebia os pacientes recém-operados e enquanto estava esperando, observava as enfermeiras cuidando de outros pacientes. Fui invadida por uma tempestade de sensações, como em um filme, as imagens se formaram em minha cabeça e uma enorme vontade de fugir daquele lugar apossou-se de mim. Mas fiquei com medo de me acharem louca, descontrolada, de me sedarem e operarem à força, já que eu mesma havia assinado o termo de responsabilidade autorizando a cirurgia. Foi então que vi um homem a minha frente tentando se levantar da maca onde estava deitado. Ele havia sofrido uma cirurgia, ainda estava sedado, não sei, mas mesmo dormindo ele tentava se levantar com uma força tão impetuosa que cheguei a ouvir uma enfermeira falando que os pontos iriam arrebentar. Foram necessárias três enfermeiras para contê-lo. Minhas defesas caíram por terra e ver aquilo tudo desencadeou em mim uma crise de choro intenso e apavorado. Somente chorava e repetia: “Chamem meu namorado!”. O anestesista que iria ocupar-se de mim viu meu estado e atendeu meu pedido, ao falar com meu ex-companheiro, em desespero eu disse:
“- Não confio nesse médico. Tem alguma coisa errada, mas não sei o que é. E se o ultrassom estiver errado? Tô com medo de morrer.”
Diante de sua impotência, pois chorava tanto quanto eu e nada dizia, fui encaminhada para o centro cirúrgico e só após receber a horrível anestesia, foi que me dei conta de que iria “perder” um pedaço do meu corpo. Perguntei ao médico:
“-Doutor, o senhor terá que retirar minha trompa?”
Ele respondeu:
“- 99% de certeza que sim. Confie em Deus.”
Eu não sei dizer com clareza o efeito que essa frase teve em mim naquele momento. Fui acometida por uma lucidez absurda e resolvi aceitar o conselho dito tão automaticamente pelo senhor doutor. Confiaria em Deus. Por isso, pedi para ser sedada, não queria acompanhar a operação devido ao medo real que eu sentia de morrer. Aceitei dentro de mim o risco de não mais despertar, e isso não era uma fuga, mas um pulo cego no abismo. Confiei e apaguei.
Acordei 3 horas depois naquela mesma ala onde antes eu aguardava a operação. O médico veio até mim e disse:
“- Você está intacta. Não precisei tirar sua trompa. O embrião estava no ovário direito que está consideravelmente preservado.”
Senti-me abençoada. Deus estava do meu lado. Durante os dias que se seguiram, aquela vozinha chata não me abandonou, mas tirando eu, ninguém mais queria ouvi-la. Era incômodo demais, desagradável demais para todos e cheguei a escutar de algumas pessoas quando insistia em dizer que algo naquela história não se encaixava, que não deveria tocar mais no assunto, ficar quieta pois nada mais poderia ser feito.
Fingi que me resignei e voltei para Belo Horizonte. Lembro-me de ficar muito sozinha no “resguardo” após a operação. Ficava o dia inteiro em casa, imóvel, sentindo além de tristeza e estupefação, enjôos, desejos, sonhando com bebezinhos, comigo ainda grávida. Meus seios doíam e comecei a acreditar que estava realmente maluca. Corpo e mente separados, esquizofrênicos. Meu corpo não aceitava a perda, portava-se como se nada tivesse acontecido.
Um dia, à noite em meu quarto, à beira da loucura, eu chorei. Chorei por aquela criança que não conheci, chorei pelo desejo não realizado, pelo meu corpo que não “funcionou” direito, chorei pois não entendia o sentido daquilo tudo e por não saber mais como seguir adiante. Chorei porque tive consciência do quanto ser mãe era importante para mim. Ali, eu aceitei a maternidade, aceitei aquela alma que foi embora tão cedo. Minhas ambiguidades foram superadas, a meu ver, tarde demais.
Mas assim como Perséfone que retorna para o mundo luminoso, após sua estadia periódica no “inferno”, eu também estava destinada a um retorno para a terra do sol. Um mês e meio depois da cirurgia recebi o resultado da biópsia referente ao material retirado do meu corpo na operação. Dizia mais ou menos assim: “- Fragmento de ovário direito com corpo lúteo”.
Corri para a internet, investiguei o tal do corpo lúteo e a esta altura já estava quase convencida do erro grotesco ao qual fui submetida. Minha certeza concretizou-se no dia seguinte, quando fiz um novo ultrassom:
“– Tum, tum… Tum, tum… Tum, tum… Olha seu bebê aí!”
Eu ainda estava grávida. E ao ouvir o coração da minha filha batendo, assaltada por sentimentos de natureza diversa que iam desde a alegria até a raiva, senti na carne um certo renascimento. Com gratidão, redescobri-me grávida.
Como estava correndo risco de aí sim realmente abortar devido à ausência do corpo lúteo, tive que aplicar hormônios até o 4º mês de gestação. Mas àquela altura eu sabia que minha filha iria nascer de qualquer jeito, pois mesmo quando eu julguei estar vazia de vida, ela se agarrou firmemente a mim.
Sua chegada ao mundo aconteceu alguns meses depois, em um sábado de aleluia, na lua cheia, através de um parto natural e respeitoso, sem drogas, sem médico, pelas mãos de uma enfermeira muito especial, uma “fada madrinha”, ao som de uma “ave maria”, próximo à hora do crepúsculo. E ao pegá-la nos braços, abençoei-a com o poder que só as mães possuem, grata pela sua luta e por sua vitória. Diana é o nome dela. O mesmo nome da deusa guerreira e selvagem, padroeira das parteiras, crianças e animais.
Meu parto foi a consumação final de um processo, o rito de passagem de uma iniciação profunda que começou com a gestação e onde tudo se passou exatamente como deveria ser. Obviamente os aspectos objetivos da situação são relevantes, como o erro médico, o uso lesivo e abusivo da tecnologia (gravidezes podem não ser comprovadas por ultrassom até cerca de dez semanas. Eu estava com apenas 5 semanas quando sofri a cirurgia), procedimentos necessários que não foram efetivados, precaução, paciência… Para todas estas questões existem respostas, a justiça dos homens, a análise racional dos fatos.
Mas mais relevante do que qualquer outro aspecto, foi o que me tornei depois desta rica experiência. Se antes eu era uma “menina”, hoje posso dizer que sou sim, uma mulher. E por ser simplesmente mulher, nua e crua, imperfeita, sem idealizações, eu me alinho ao destino humano, de errar, cair e novamente me levantar. Esta é a perfeição da vida e de seu eterno movimento onde no ciclo infindável de finais e começos, a morte é também personagem principal. Eu morri naquela experiência. Mas também renasci. Assim como acontece com todas nós, todos os meses, de uma outra forma. Assim como aconteceu com Perséfone. A passagem pela noite escura termina com o alvorecer. Depois das trevas, existe sim, a luz.
Que ela ilumine os nossos passos!
categorias: Mamífera Convidada, Sem categoria
tags: gestação ectópica, intuição, Parto Natural, persefone, rito de passagem, transformação





Nossa que texto lindo!!! Estou aqui emocionada.
beijos
Lindo mesmo. Me causou arrepios! Desejo toda a felicidade o mundo para mãe e filha.
Que história forte e linda! Emocionante! Muito grata por compartilhar!
Incrível! Entregamos nossos corpos e vidas nas mãos de outros, que consideramos capazes de nos cuidar, perdemos a conexão conosvo e somos neglicenciadas, com toda a tecnologia e cientificiedade.
Precisamos reinventar as relações humanas, para conosco e para com os outros.
Obrigada por compartilhar sua história. Feliz por sua sorte e pela garra da pequena Diana em seguir a vida e nos ensinar tanto.
Parabéns linda Camila! Conheci sua história impressionante ainda antes de te conhecer. Depois virei sua amiga e tenho o prazer da sua companhia em diversos momentos nesses mais de dois anos de gravidez e de vida das nossas filhas. Depois conheci a artista em um espetáculo que não me canso de elogiar. E agora, te re-conheço nesse texto forte e denso tão bem escrito. Receba minha admiração, meu carinho enorme e um abraço apertado, Inessa
nossa sua historia `e linda,parabens pela superacao!
Linda história mesmo, muita força que a Diana tem, que ela leve para toda vida essa força!!
beijo!
Sua história me fez lembrar a minha… chorei…
Lindo!
Que história de VIDA!
Estou sem voz!
Que relato incrível!!!
Parabéns pela força e superação!!!
O nosso corpo é perfeito, apesar de tantos falarem o contrário.
Bjs,
Carol
Estou com os olhos cheios de lágrimas. Que linda batalha de sua pequena. Não haveria nome melhor para reconhecê-la nesse mundo humano.
Que história linda…onde Deus põe a mão nada acontece sem seu consentimento. Felicidades para sua filhota, ela é muito guerreira!! E vc tb!!
Foi um texto lindo, muito emocionante.
Impressionante como nós fêmeas nos transformamos quando temos um ser dentro de nós, a natureza e o instinto materno são maravilhosos não achas? Beijos imensos!!!!
Obrigada pela generosidade em compartilhar tua história e da tua pequena guerreira…Texto forte e comovente que nos ensina a respeitar a nossa intuição acima de toda racionalização. Muita luz pra vc e a pequena Diana. Beijos
Que essa mulher que surgiu em você continue doando esse amor incondicional à “nossa” iluminada Diana..! Eu sou grata e fico feliz e honrada de poder estar escrevendo por aqui! Com amor!
Parabéns Camila, fêmea guerreira! Parabéns Diana, ser de luz, corajosa e persistente!
Obrigada por compartilhar sua história!
Um beijo
Camila, que bom que essa história está sendo lançada ao vento, e vai circular no imaginário de muuuitas mulheres. A parte prática e racional da sua história é um triste exemplo da importância de manter a conexão com o próprio corpo. Em um relance vc perdeu a conexão, e quase perdeu sua filha e sua trompa.
Já o seu retorno à luz é um exemplo ainda mais lindo de renascimento!
Saudades de vcs! Beijos pra Didi!
Maravilhoso relato…Me emocionei…
O texto apenas confirmou meu natural protestos por ultrassonografias. Eu mesma já recebi diagnóstico de útero bicorno e de gravidez somente mediante tratamentos e cá estou eu na terceira e radiante barriga, sem tratamentos a não ser aqueles beeeeeem naturais. Minha primeira gestação deu que era de gêmeos: não era. Que o bebê seria grande: não era. Que meu segundo filho seria pequeno: não era… enfim…
E hoje, tenho dois laudos um dizendo que tem uma menina e outro dizendo que tem um menino na minha barriga, mesmo eu nunca tendo perguntando o sexo do bebê!
A nós só nos resta fechar os olhos da carne e farejar, porque o mundo no qual estamos inseridas é cheio de armadilhas enganosas…
Parabéns para a mais nova mãe-mulher!
Que texto maravilhoso! Parabéns! Sua história (o início dela conheci no comecinho da sua gestação) é uma grande lição para todos nós! Sinto-me orgulhosa por ter uma mulher tão poderosa como você para chamar de amiga. Bjo grande. Polly
Obrigada a todas pelos comentários! Obrigada mesmo… A todas vocês, amigas e aquelas que não conheço, guardo suas palavras em meu coração.
Beijos e abraços em cada uma,
Camila.
Que relato lindo, emocionante, enriquecedor! Obrigada por compartilhar essa história maravilhosa!
Camila forte, linda, tomada por uma enorme conexão com seu feminino… seu texto exala ocitocina do amor, exala estrogênio selvagem e uma força vinda dos deuses!
Que sua vida seja inundada de bençãos!
Beijos nos pés!
[...] da gravidez, parto e maternidade que tem tanto de instinto e intuição… Fez-me relembrar um testemunho que li há algum tempo no blog [...]