fev
28
2011
Relato do Nono Mês de Vida
por Mamífera(o) Convidada(o)
por: Fabiolla Duarte
Um dia desses eu e meu filho vamos sair por aí.
Passear.
A gente não vai ter hora para voltar.
Nesse dia não papinhas a preparar, coisa alguma para providenciar.
Não hora do banho, não hora de dormir.
(nada e nós a flanar pelo dia)
Vou apresentá-lo ao mundo.
Terrestre. As coisas do mundo terrestre que eu gosto.
Lugares de aventurar, sentir os cheiros.
Boca no corrimão, boca no chão da rua, boca entreaberta abocanhante na direção do passante.
Vamos correr, andar bem devagar.
Olhar.
Eu com ele quadrilha de dois. A gente vai assaltar a vida.
Quero mostrar a ele o nascer do dia, o por do sol.
E a noite.
Meu filho e eu.
Eu quero, por um dia, com meu filho sair sem ter hora para voltar.
…
Lembro-me de grávida, nas aulas de yoga de Cris Balzano, inocente eu, olhar Babi e pensar:
nossa, logo Babi pari.
e depois dela sou eu.
Sentia-me em uma espécie de fila indiana para um caminho de espiritualidade.
Rito de passagem.
Passagem de dar medo, passagem de escuridão, de caminhar sozinha, de sentir frio.
(passo, passadagem, coragem)
Passagem de sentir que o tempo não passa, de não acreditar mais, passagem de entrega da derrota.
(passando a passante pela entrega da derrota)
E de, por isso, então ver o raio de luz ali atravessando a pequena fresta do fim do túnel.
(entrega teus pés caminhantes mulher, aos céus. chegaste ao fim do túnel)
Toda aula eu chegava, procurava por Babi.
Ainda lá.
Até que um dia: não mais lá.
Ai o tempo passou devagar.
Na mira Laura Lydia.
Num dia de domingo me ligou contando que parecia estar em trabalho de parto.
Emocionei.
Minha amiga estava prestes a não mais lá.
(não mais lá)
Lua cheia da hora marcada.
Veio meu filho.
Caminhada de caminhar sozinha, a tal da passagem do passante, a passagem das passagens.
Rito de passagem.
O rito é lugar marcado da vez da passagem.
Derrota.
Na derrota, quando tomada, ego domada, aí nasceu.
Nasceu ele e eu me dividi em dois.
Duas eu.
Foi assim. Na derrota do ego eu.
(do-eu)
E aí eu percebi muita coisa.
Percebi que não é isso nem aquilo, é ainda uma esfera de geometria desconhecida, a vida.
Que é a trilha vizinha, semelhante, mas desconhecida, que eu trilharia.
(reta paralela que se encontra no infinito)
Que o sonho vem acompanhado de seus pertencimentos e merecimentos.
(o parto continua, capítulo dois: a revolta do titãs saturninos)
Que maternagem é redenção.
(só pari quem se dividi em dois)
E meu filho foi crescendo.
Tem crescido.
Dentadura de pretenso menininho.
Cutuca, com sua fala consoante sussurenta.
Pensando alto.
(falando baixo)
Praticamente húngaro.
Ofendendo as coisas, praguejando.
Convocando os todos sujeitos, fala em bico de ave de rapina, dedos gordinhos garras de tigre:
“morder o mundo
dona coisa, cá.
fugitiva você, eu desejante”
Nisso tudo, o pai.
O pai é eterno.
Mundo que não confundi.
Difuso.
Não sangra, não recebe, não enlouquece.
(quem recebe é o cavalo)
O cavalo da mesa branca é o médium que recebe o desencarnado.
Quem recebe pari o bicho.
O homem recebe a louca que recebeu e pariu o bicho.
Coluna telespectadora.
O homem que escolhi para ser o pai do meu filho, na trilha do amadurecimento da vida, é caminhante.
(forno auto limpante)
Temperatura alta e tolerância.
Bom para meu filho e bom para mim.
Filho, pai. Alavanca.
Maternagem é caminho de espiritualidade.
Nesse relato dos nove meses dessa gestação extra-uterina, a gestação da aceitação.
Das coisas.
(sonhadora mal educada)
A gestação de uma nova flexibilidade, relação.
A menina eu finalmente no encontro da mulher agora.
A minha mãe, minha irmã, meu pai.
Minha filha falecida não nascida crescendo em algum lugar por aí.
Meus gatos.
A chácara, nova casa.
A horta, a horta que eu a vida toda, só agora, tenho, estou a começar, plantar, colher.
A cada dia a nova velha horta, porque o dia é o encontro de mim com minha decisão de estar aqui.
Aqui nessa Terra planeta bonito que escolhi, nesse país de folhas grandes, nesse tempo de ano 2000, de quando o mundo iria chegar ao fim de acordo com minha bisavó, para virar mulher e essa sensação de que logo, muito logo tudo vai acabar.
(o dia da vida é um sopro)
(quem enterra seu filho sabe disso)
Eu quero agradecer aqueles que no futuro se lembram de mim.
O caminho tem sido bom.
Meu filho é em mim um amor que eu nunca imaginei.
Ele é o país das folhas grandes, o planeta da terra bonita.
O menino das grandes covinhas.
Ele é aquele que quando acorda olha pela primeira vez o mundo repetitivo.
Meu filho é Hari.
Hari sol.
Hari deus.
Um dia desses eu e ele, meu filho, vamos sair por aí.
Para passear.
(lembra?)
Nós quadrilha de dois, ação abocanhante de amante do dia sem fim.
(sem fim)
Filho, (filho) anota aí:
Filho, você é minha redenção.
Parabéns, amor, pelos nossos 9 meses de vida.
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Imagem: we love it
categorias: Mamífera Convidada, filhotes
tags: amor, aprendendo e ensinando, de mãe pra filho, mamíferas convidadas, mesversário, primeiro ano, transformação





Pura poesia real, verdadeira, que leva a imaginação voar alto…
BJKS
emocionante este texto. chorei.
Sensacional!!! Poesia tão viva tão cheia de gente, de força que pulsa no útero… Lindeza pura.
Dê ao seu filho o que há de melhor. Amamente!
Quando uma mulher fica grávida, ela e todos que estão à sua volta devem se preparar pra oferecer o que há de melhor para o bebê: o leite materno.
É muito importante, tanto para o bebê como para a mãe, amamentar até os dois anos de idade ou mais. O leite materno é o único alimento que o bebê precisa, até os seis meses. Só depois se deve começar a variar a alimentação.
Acontece que nem todas as mães sabem de todos os benefícios e deixam de amamentar mais cedo. Você pode ajudar nessa campanha divulgando materias e informações.
Caso se interesse pelo tema, entre em contato com comunicacao@saude.gov.br e participe!
Atenciosamente,
Ministério da Saúde
Lindo relato em lindo formato!
Parabéns pelas palavras e por expressar este amor tão profundo.
Parabéns pela família e pela força.
linda
lindo
lindoas
amamos!
babi & maya
Maravilhoso ! Orgânico ! Profundo !
Estou aqui a pensar ….e pensar ….pensar .pensar
Luana , mãe do Benjamim Kandur. (11 meses)
Fá querida, que lindo e poético relato. Um beijo grande!
lindo demais, Fa! Me vi várias vezes eu seu olhar, falar e pensar. Meu Deus, esse mundo materno é de olhos marejados pra todo sempre?
Lindo, lindo!
E se vc se via em uma espécie de fila indiana, será que eu estava logo atrás de vc? Minha filhotinha tem quase 9 meses, mais precisamente 8 meses e 12 dias de vida (quase, completa-se em 3 horas).
Minha Filha, minha herança divina, cheia de poesia para embalar quantos filhos tiver. Sou mãe delas duas, Fabiolla e Vanessa, sou avó dos dois tesouros: Hari e Mattheo, meus amores.
Depoimento de profunda poesia e transcendente maternidade de amor que eu não conheci, mas que atualizo a minha maternagem através dela Fabiolla e Vanessa…
Forte e Cabocla, índia e nobre mullher, pura de espírito e mãe Intensa com sabedoria.
Amo você, amo o Hari lindo de covinhas como a vovó…
Sejam felizes!
Saudades eternas da Maria Jaci!
Mami
Muito lindo! vc escreve lindamente!
Parabéns pelos 9 meses de Hari, e de mãe do Hari!
Beijos
Típico Fabiolla…muito lindo e inspirador… é, minha irmã querida, venho a crer que valeram a pena todas as coisas proibidas…os desafios…as coberturas… as escapadas…as guerras de ‘ketchup’ no banheiro…as noites incasáveis de forró… Estamos evoluindo e essa evolução se evidencia a cada segundo…temos o prazer de nos rever nos olhos inocentes dos nossos filhos…e como são lindos…verdadeiros príncipes…vale a pena o duelo com o nosso limite, os esforços, as noites mal dormidas…a falta de destreza… a dedicação… Todas as mães sabem o que é isso…nossos filhos vão crescer para se tornarem seres ainda mais maravilhosos…meninos de sorte!
Parabéns pelos seus nove meses de vida, de aleitamento,(que eu até hoje fomento…3 anos!!) de crescimento… e vamos que vamos…muitas águas ainda vão rolar! Cada dia é mais maravilhoso do que os que já passaram…cada momento com a nossa ‘cria’ é mais um passo dessa mudança tão bem vinda… Uma vez o ‘papi’ me disse que eu iria ‘ver só’ o que seria ter um filho adolescente, que se o Theo for como nós éramos, eu estarei perdida…eu ri por dentro e me deliciei com esse comentário tão típico ‘papi’…. realmente o espaço que existia entre nós era muito grande e difícil de pontear…não tinha ‘cabimento’…eram outras estações…outras manifestações…outras paixões…. entre nós e os nossos ‘príncipes’ esse filme será diferente…a ponte é curta…as emoções mais afáveis…a ladeira desce, não sobe….porém o desafio é irmãmente imenso e intenso…vou rir muito quando esse dia chegar (nós vamos!)…estamos á caminho de uma magnífica jornada… e vamos lado a lado… partilhando as mesmas descobertas… coagindo… concluindo… Hari e Mattheo, presentes divinos… o amor incondicional tão desejado… o momento perfeito… a redenção tão merecida…. é minha irmã querida… realmente estamos evoluindo. Parabéns! Nessa xxy
Fá, super bonito!
beijos inspirados em vcs
fabiola linda e intensa!
a poesia então é coisa de berço.
nem consigo imaginar a tamanha delícia que será ler hari e mattheo daqui alguns anos.
querida, tudo, mas tudo na vida se supera, às vezes é preciso tempo, além do tempo, tb é preciso amor…
amor de amigo, de homem, de família, de filho…
se amar tb e dar amor.
mesmo lá atrás, a vida lhe sorriu, mesmo que de canto, lhe sorriu, hoje lhe sorri tb, gostosos sorrissos de covinhas…
bj no coração,
fêdaraedolu
Parabéns, querida Fabíolla, por tantos meses de ternura, doçura, força e maternidade!
emocionei muito com o texto. obrigada.
Amei, Fabi! Te admiro pra caramba!!! Seu jeito paciente e amoroso!!!
Lindo Fa! Muito tocante. Os nove-meses fora foram muito marcantes pra mim.
Ser-mãe.
bjs
Perfeito. Parir é mesmo derrotar o ego!
Enterrar um filho também! MInha mãe não pariu , mas enterrou meu irmão quando ele tinha ytrês anos. Ali ela se desintegrou e se recompos.
Você enterrou e pariu. Certamente está bem perto de Deus. Luzes para sua família!
Abraços, Geozeli
AMEI.
Fabiolla!
Minha amiga guerreira, forte, polêmica!
Quanta emoção ler esse seu poema, que riqueza!
Voltei no tempo onde havíamos caído do quadrinho no gibi, lembra?
Eu negra você índia, índia sábia que previu que eu seria abençoada pela maior dádiva divina: a maternidade!
Saudades e pride minha linda!