fev
15
2011
Por que não fazer exame de toque
por Kalu
Um dos procedimentos de rotina dos pré-natais é o exame de toque, independentemente da idade gestacional. Mas este procedimento, como a maioria dos exames e intervenções, só pode trazer benefícios quando não é banalizado.
O exame de toque serve basicamente para avaliar a evolução da dilatação no rabalho de Parto, apresentação do utero e posicionamento do bebê. O esperar de uma mulher com 24 semanas? Que o colo esteja grosso e fechado, o bebê na posição que desejar (não estará encaixado) e alto. E se a mulher não apresenta qualquer queixa, para que realizá-lo?
Se uma mulher apresentar contrações prematuras, vale avaliar se as mesmas indicam um trabalho de parto precoce. Aí sim, depois de investigar se não se trata de braxton, infecção urinária, pode-se fazer um exame de toque. Mas ele é mera especulação.
Acompanhei uma gestante que com 32 semanas fez o exame de toque e o médico verificou que ela tinha 2cm de dilatação e colo afinado. Ela tomou corticóide para amadurecer o pulmão do bebê no risco de parto prematuro. Com 35 semanas, se não me falha a memória, tinha 3 ou 4 cm. Mas sem contrações ou seja não estava em Trabalho de Parto. Pariu rapidamente e teve um parto natural com 39 semanas. Um parto a jato (já que tinha menos 4 cm para caminhar).
Então, o que o exame de toque adiantou? Nada.
Em trabalho de parto a questão do exame de toque é uma faca de dois gumes. Ele é feito para protocolar a mulher que deve dilatar x cm por hora. Quando estaciona em X cms considera-se parada de progressão e aí vem as medidas intervencionistas. Uma analgesia para ver se a mulher ( e o útero) relaxam e a progressão progride ou ocitocina para ajudar nas contrações. A medicina tradicional desconsidera os fatores emocionais.
Imagine que você está com uma sensação de grande dor e passou 5 horas com determinada dilatação. Medem novamente e você não saiu do lugar. Essa informação vai fazer com que a mulher desista pensando que, se em X horas ela não dilatou, precisará de mais X para parir. E na mente dela ela decreta: não vou agüentar.
Mas o que acontece é que a dilatação não é tão precisa. Existe a relação ocitocina X adrenalina. Se quiser aumentar a dilatação é preciso aumentar a ocitocina natural. E para aumentar a ocitocina é preciso de:
- Pouca Luz
- Silêncio
- Privacidade
- Não observação
- Ambiente quente e confortável
- Beijo na boca do marido
- Massagem
- Paz
Quando a mulher para de dilatar é aí que aumentam o monitoramento, a observação e a adrenalina da mulher (e da equipe) vai nas alturas inibindo a ocitocina.
Lá vem a ciência solucionar problemas para os quais ela mesma causou. Ocitocina sintética, dor, adrenalina, anestesia, mais ocitocina. Uma vez que a ocitocina sinstética entra na corrente sanguínea da mulher, toda a ocitocina que ela liberaria naturalmente, antes, durante e depois do parto é bloqueada.
E isso significa o que?
Que depois do parto, momento em que é necessária a liberação do hormônio para criar vínculo com o bebê, segundo o obstetra Michel Odent é o êxtase – coquetel de hormônios- que sentimos no pós parto que faz com que criemos vinculo de amor com a cria) ele não se faz presente.
A ocitocina é um hormônio natural presente e fundamental para a hora do parto. Em grande parte dos partos normais em todo o planeta, para acelerar a contração do útero e tornar o parto mais rápido, a ocitocina é usada de forma padronizada, é o caso do Brasil. O famoso “sorinho” torna as contrações extremamente fortes e doloridas, levando muitas vezes a alteração do batimento cardíaco do bebê, fazendo-se necessário o uso de anestesia e as cascatas de intervenções físicas e medicamentosas.
Segundo Odent, por ser um hormônio, a ocitocina passa pela barreira placentária e chega à corrente sanguínea do bebê, atingindo o cérebro da criança. Segundo o obstetra, o uso da ocitocina sintética pode gerar seres humanos mais agressivos por ser um hormônio diretamente ligado a socialização. Ele o chama de “hormônio do amor”, porque está presente na relação sexual, na amamentação e no parto e pós parto, facilitando a relação instintiva entre mãe e filho.
Outra conseqüência é a incapacidade ou dificuldade de produzir ocitocina em outros momentos da vida, uma vez que sua versão sintética bloqueia a produção de ocitocina natural. Atingindo o cérebro da criança, este ser humano pode ser incapaz de produzir este hormônio, tanto na hora do parto, como em outras situações de suas vidas. Sem a produção de ocitocina ficamos incapacitados de sentir prazer.
Voltando para a questão do toque, já vi o procedimento ser bem usado em algumas ocasiões. Em um Parto Domiciliar bastante demorado (mais de 30 horas) avaliou-se a possibilidade de romper a bolsa uma vez que a mulher estava com dilatação completa e o bebê não descia. Para saber se o bebe estava alto e a evolução do parto depois de tanto tempo, para que a família e parteiras avaliassem uma possível transferência, optou-se pelo rompimento artificial da bolsa e o bebe nasceu.
Outro caso, a mulher estava bem cansada e quis saber a quantas andava a evolução do parto. A enfermeira avaliou 8 cm e um rebordo de colo. Segurou o rebordo e o bebê nasceu uma hora depois.
Então, como tudo na vida, bem usada a intervenção pode apresentar benefício. A banalização é que causa problemas.
Vale o alerta de que muitos obstetras não humanizados costumam descolar as membranas para acelerar o início do trabalho de Parto por volta das 39 semanas. Algumas vezes não avisam que vão fazer e nem a finalidade. E só é possível fazer isso quando se faz toque (geralmente um toque dolorido).
No Trabalho de Parto, com médicos não humanizados, exame de toque pode levar o médico romper a bolsa sem a mulher querer. Não aceitar o exame de toque é se poupar disso também.
Perto do parto saber que o colo está amolecido e com x cm pode causar ansiedade.
Sem contar que, mesmo com luva, fazer toque aumenta o risco de infecção, principalmente se a mulher estiver com bolsa rota. Mas experimente estar com bolsa rota para saber quantos exames de toque vai receber. Parece que muitos médicos só aprendem a fazer cesárea, toque e ultrasson para serem obstetras.
Vou deixar bem claro que não sou “contra” os procedimentos. Nem uso de ocitocina, nem anestesia. Já escrevi um texto sobre quando a anestesia ajuda no Trabalho de Parto. Há pouco tempo acompanhei um parto em que o obstetra optou pela analgesia e forceps de alivio. Acredito que uma analgesia leve ou uma ocitocina leve poderiam ter ajudado essa mulher parir.
Todo e qualquer procedimento quando banalizado representa risco. Por exemplo, locais em que não há assistência obstétrica ou aqueles com índices altos de cesáreas possuem índices de morte neonatal e infantil semelhantes. Ou seja, a falta de recursos ou excesso (mal utilizados), são prejudiciais.
A princípio devemos acreditar que nosso corpo tem plena capacidade de parir, sem drogas e intervenções, mas se abrir para a possibilidade de valer-se de recursos quando acabarem as forças físicas e emocionais para prosseguir.
Na minha opinião um parto com analgesia (pouca) e ocitocina (pouca) é melhor que uma cesárea. Uma cesárea melhor que um óbito. O risco, em tudo, é a banalização.
E você, o que pensa do exame de toque?
categorias: Kalu
tags: exame de toque, ocitocina





Fantástico post, Kalu. Muita informação e direto ao ponto. Sempre imaginei que no momento de parto, tudo que a mulher não precisa é de que alguém meta-lhe a mçao numa àrea já sensível para descobrir de são 3, 4 ou 5 cm de dilatação. Não surpreende que algumas mulheres simplesmente parem de dilatar depois do toque.
Gostei muito dessa parte: “Todo e qualquer procedimento quando banalizado representa risco. Por exemplo, locais em que não há assistência obstétrica ou aqueles com índices altos de cesáreas possuem índices de morte neonatal e infantil semelhantes. Ou seja, a falta de recursos ou excesso (mal utilizados), são prejudiciais.”
Obrigada!
O que mais me espanta é o diagnóstico bola de cristal de alguns médicos: com 38 semanas, não tem nem 1cm de dilatação, então não vai dilatar não… (dá pra acreditar que tem muito médico que vem com esse discurso?!)
Eu tb acho que o exame de toque só tem sentido (e utilidade) qdo bem indicado – senão vai mais atrapalhar do que ajudar… Além do que, uma boa parteira (ou um bom médico) sabe qual é a dilatação da mulher só pela evolução do trabalho de parto, pelo comportamento da mulher.
(isso sem falar que toque durante trabalho de parto é uma das coisas mais doloridas que eu já senti… rs… to fora!)
Ótimo texto, muito esclarecedor!
Olá, acompanho o site desde a gravidez da minha primeira filha que hoje está com quase 3 anos e nasceu de cesária as 42 semanas. Agora estou gravida novamente de poucas semanas e gostaria de saber se vocês tem indicações de obstetras humanistas ou parteiras em Brasília pois gostaria muito de um parto natural.
Oi Vanessa,
Estou sendo acompanhada pela Dra. Jussara Pasquali, especializada em parto humanizado. O telefone dela é o (61) 3328-0489 e ela tem um site, http://www.jussarapasquali.med.br/ . Tenho gostado muito dela! Boa sorte e ótimo parto!
Vanessa, procure a parteira Paloma Terra. Vá aos encontros do Ishtar Brasília (http://ishtarbrasilia.blogspot.com/).
Lá vc conseguirá os contatos e ouvirá experiências de quem pariu com esta ou aquela.
Beijos
Querida Vanessa passo o meu contato sou doula e acupunturista de gestantes (61)81730153
Posso lhe ajudar no q for preciso…
Beijos
Vanessa, você conseguiu seu Parto Natural??? Foi com a Dra Jussara? Tem agum relato? Fiquei curiosa!
beijos
Oi Kalu,
Nunca parei para pensar nesse assunto, mas visto da forma como você colocou acabo não gostando do exame de toque.
Tive meu primeiro filho cesárea e o segundo normal, os dois partos foram ótimos e o exame de toque em ambos, tanto no momento do trabalho de parto (mesmo o primeiro que foi cesarea eu entrei em trabalho de parto) quanto no pré-natal não influenciaram em aspectos negativos, como ansiedade.
Acredito que o mais importante é confiar de olhos fechados no seu obstetra. Eu confio muito e sei que ela fará sempre o melhor!
um beijo,
Luana
Ótimo texto, Kalu!
Vanessa, em Brasília eu te indicaria 3 obstetras humanizados: a Rachel Vinhaes, o Frederico Coelho ou a Carla Daher. Estes dois últimos são obstetras mais “parteiros” mesmo e fazem parto domiciliar também. Me mande um email que te passo o tel deles (epacupuntura@gmail.com)
Bjos
Adorei o esclarecimento!
quasemaepai.blogspot.com
Muito bom seu post!
Acho o exame de toque feito “á torto e à direita” extremamente invasivo.
Comecei a ter dilatação com 33 semanas e meu Miguel nasceu com 35. O parto foi rápido, senti a natureza agindo, sabe? Mas me fizeram inúmeros exames de toque! Agora, vejo que sem necessidade! Se tivesse lido seu texto antes, não teria permitido…
abraços!
Adorei o texto. Vc foi precisa ao dizer que o problema é a banalização do uso das tecnologias e das manobras externas. Eu acrescento mais um problema: tratar mulheres como robôs, masculinizando sua natureza misteriosa e segreta. Onde já se viu dizer que “de hora em hora” (igual telesena do Silvio Santos) a mulher TEM que dilatar 1 cm? E a sensação de impotência de ouvir do médico o tempo todo “não está dilantando, não está dilatando”. Nenhuma amiga minha próxima teve dilatação, todas caminharam rumo à cesárea com um diagnóstico sombrio de falta de dilatação, que ridículo!
O feminino é diferente… nós somos cíclicas, somos personalizadas, somos movimento puro… é impossível nos colocar dentro de protocolos. É isso que a nova medicina e a nova atenção à gestação descobriram… PARABÉNS!!!
Kalu, muito bom o texto, vou guardar entre meus links de consulta e indicar para as grávidas que conheço. Bjs
interessante o post! no meu caso o medico fez o tal do toque dolorido mas me explicou que isso poderia me ajudar a entrar em TP. Eu ja estava com 41 semanas e nada de dilatacao.
Funcionou, tive meu parto normal sem inducao e sem anestesia. Acho que o tal toque valeu a pena.
Marcela
esse “acho” é q me faz ver o qto creditamos nossa saude e nosso corpo a uma pessoa q estudou muito, mas q a níveis humanos muitas vezes naum entendem nada do ser humano ou como um corpo emocional.
Entre no site da Naoli e veja alimentos e chás q fazem um ótimo efeito indutor de trabalho de parto e em ultimo caso procure um acupunturista pontos básicos desencadeiam TPs fortíssimos, utilizando sua ocitocina natural…
Espero q vc possa ajudar outras mulheres a parirem com mais consciência, ou melhor com mais intuição…
Grata
OU BEIJO NA BOCA DA ESPOSA! Vamos com calma na heteronormatividade hein, esse blog é lindo e não pode se contaminar
Outro caso, a mulher estava bem cansada e quis saber a quantas andava a evolução do parto. A enfermeira avaliou 8 cm e um rebordo de colo. Segurou o rebordo e o bebê nasceu uma hora depois.
Kalu,
nunca havia ingressado nesse blog,mas venho fazer uma pequena crítica ao q destaquei acima, a retirada do rebordo em uma posição litotomica (ou ginecológica),obviamente quase sempre é necessária, vamos humanizar entaum.Coloque essa gestante em posições verticais e ajude ao bebe forçar esse rebordo,
pensando na anatomia desse colo ele pode ser mais anterior,posterior, lat.dir. ou lat.esq. e faça movimentos mecanicos com essa mulher para o lado oposto a essa borda, facilmente e com a calma maior do mundo esse colo cederá sem precisar interferir no sagrado femenino.
Eu passei por muitos toques, hj qdo acompanho obstetras eu peço encarecidamente para q não os faça e se forem parteiras nem precisa pedir elas teem outras técnicas ao inves do toque o q me surpreende muito como mulher e profissional do parto.
Grata
[...] informativo e sensato este tópico do blog Mamíferas (Brasil), escrito pela Kalu [...]
Eu não tinha nenhum sintoma, mas minha medica fez exame de toque numa consulta de rotina quando eu estava com 24 semanas e constatou 1cm de dilatação e colo afinado. Pediu para parar com exercício físico e ficasse quieta. Fez novamente com 26 semanas e aumentou para 2 cm, pediu para que eu ficasse de repouso – deitada e tomei medicamento para diminuir contrações. Fiquei deitada até 35 semanas, quando já estava com 6 cm sem sentir nada ainda e suspendemos o repouso e o remedio para que o trabalho de parto seguisse. Meu bebe nasceu saudável uma semana depois, num parto rápido e sem dor.
Não me senti invadida pelos exames. Agradeço minha medica por ter feito e acho que esta conduta salvou meu bebê de nascer prematuro. O que acha?