fev

23

2011

Da Beleza Natural da Infância

por Tata

Achei super importante essa discussão sobre maquiagem para crianças, erotização precoce, proposta pela Kalu no post de ontem, divulgando a campanha do Grupo Cria contra a comercialização de produtos antienvelhecimento pela rede Walmart. Como mãe de três meninas, é uma discussão que me interessa e me preocupa muito.

Minhas filhas não usam maquiagem. Nadinha de nada, nem mesmo um gloss bem fraquinho. Ganharam dois vidros de perfume, um no aniversário de dois anos, outro no de três. Estão os dois lá em casa, quase cheios, porque fizemos com elas o acordo de que seria só para os dias de festa. E mesmo assim, elas quase nunca se lembram de pedir para por. Melhor assim.

E não é só isso. Minhas filhas também não usam sapato com salto, por menor que seja. Também não usam sapatos apertados, duros, de bico fino, desconfortáveis. Não fazem a unha, nem mesmo com esmalte transparente. Assim como não usam roupas agarradas, cheias de brilho, com decotes exagerados. Nada que faça parecer que elas são minimulheres, porque não são. Elas são meninas. São crianças. Vestem-se e se arrumam como crianças. Têm a beleza natural que toda menina de 5 anos tem, a beleza da pureza, da ingenuidade, da leveza e da liberdade.

E aqui em casa, não tem essa de “mas elas pedem!”. Não vou dizer que nunca pediram. Principalmente Ana Luz, que é muito vaidosa – e eu chego a dizer brincando que ela tem ‘alma de perua’, rs – , às vezes pede algo que não achamos adequado. Mas sentamos com ela, explicamos os porquês de não deixar usar isso ou aquilo. Que não é para a idade dela, e que tudo tem seu tempo. Ela entende, e aceita. Mas só aceita porque somos firmes ao colocar nossa opinião, ao dizer que nada disso é coisa de criança.

Aliás, às vezes me assusto de ver que o incentivo para que as crianças usem esse tipo de coisa – roupas inadequadas, maquiagens, rotinas de beleza de mulheres adultas – vem das próprias mães. Em uma transferência bizarra, projetam nas próprias filhas as mulheres que elas gostariam de ser. Ou acreditam que as filhas devem ser uma extensão da própria mãe, uma miniatura. Acho muito triste, e preocupante.

Precisamos preservar a infância. O direito de nossas crianças – e principalmente de nossas meninas, alvo principal dessa onda de erotização e adultização infantil – a uma infância de pés no chão, cabelos bagunçados escorrendo pelos cantos do rosto, rostinhos sujos de terra ou bolo de chocolate, joelhos ralados da brincadeira, roupas esfarrapadas de tanto brincar na areia ou subir em árvores. Preservar a poesia da criança que preocupa-se, antes de tudo, em ser. Livre, leve e solta.

E feliz. Acima de tudo, feliz.

///

Imagem: arquivo pessoal (Estrela  e Ana Luz descabeladinhas… e lindas!)


35 comentários no post “Da Beleza Natural da Infância”

  1. Déia disse:

    Muito, muito bom.

  2. Amanda disse:

    A frase ‘mas elas que pedem’ viropu desculpa pra tudo! Elas pedem? Claro, cabe a nós, adultos e responsáveis dizer que não, não tem idade, não pode e não vai.
    A maior prova dessa ‘projeção’ da imagem da mãe na filha são os concursos de beleza infantis, que graças a Deus ainda não tem tanto destaque no Brasil como tem nos Eua. É lamentável!

    1. Tata disse:

      sim Amanda, ser pai é isso mesmo, orientar, educar, ensinar. senão, se é pra permitir tudo e poder tudo o que quer, porque é que a criança já não nasce independente e apta a tomar as próprias decisões, não é mesmo? não dá pra gente abdicar do nosso papel de orientadores, não…

  3. Anne disse:

    Tudo se resume em preservar a infância!
    Mata qualquer argumento.
    Adorei, beijos!

    1. Tata disse:

      obrigada querida!
      beijo

  4. Karin disse:

    Concordo plenamente…e mesmo em relação aos meninos…o meu tem 3 anos e visto ele com roupas de criança, dou brinquedos de criança, brinco com ele brincadeiras de crianças. Quero que ele seja criança!
    Muitas vejo menininhos que já parecem adolescentes, mini homens….não gosto. Quero que ele aproveite a infancia sendo um menininho, pois ele não deixará de ser menos “macho” (como alguns gostam de dizer) por isso.

    1. Tata disse:

      deveria ser tão simples, né? apenas deixar que eles sejam o que são, sem apressar as coisas, sem atropelar etapas…

  5. Maíra disse:

    Concordo, fiz um post sobre esse assunto também no meu blog http://nossafamiliacolorida.blogspot.com, e também assinei a petição do Grupo Cria contra o Wal Mart.
    Morro de pena das crianças de hoje em dia, que estão perdendo seu direito sagrado de serem crianças.

    Beijos

    1. Tata disse:

      falou tudo Maíra, esse direito é – ou deveria ser – sagrado.

  6. nanda disse:

    oi, vim conhecer seu bloguinho, é muito lindo.to te seguindo e ja te linkei no meu cantinho que é novo(criei a pouco tempo)bjimmm espero sua visita

    1. Tata disse:

      obrigada pela visita!

  7. Cibele Moreira disse:

    Concordo! Interessante a coincidência, pois hj mesmo eu cheguei num capítulo do livro que estou lendo O Vendedor de Sonhos (Augusto Cury), e ele falava exatamente sobre isso, a forma como os pais estão tirando a infância dos filhos sem perceberem, achando que estão fazendo o melhor, mas na verdade estão tornando os filhos em mini adultos consumistas. Parabéns por vcs estarem batalhando por crianças que realmente estão vivendo uma infância feliz! BJSSS

    1. Tata disse:

      sim, muito sério isso Cibele… estamos atropelando uma etapa importantíssima da vida dos nossos filhos, e isso certamente terá consequências lá na frente… porque a vivência da liberdade, da leveza, da inocência, da pureza da infância, fazem parte da construção de uma personalidade adulta saudável… assusta pensar nessas crianças adultizadas, daqui a alguns anos…

  8. Rosana Oshiro disse:

    Oi Rê, to passando para convidar vocês para a Blogagem Coletiva que estou fazendo no Empoderando.

    beijo grande
    Rô Oshiro

    1. Tata disse:

      vou dar uma olhada Rô!

  9. Tata,
    Como mãe de menina, este assunto me interessa, e muito! Vc falou algo que até parei para olhar a minha filha aqui ao meu lado. Eh de uma inocência que chega a doer de tão linda que é. Viver a infância como criança, de brincar de maquiagem, de imitar a mãe passar cremes, vai la, saudavel. Mas a peruice, pintar as unhas incentivando a vaidade feminina desde cedo, usar roupinhas inapropriadas para a idade, com direito a salto alto e produtos antidade (oii!?) é muito agressivo. Isso me choca. As industrias fazem qualquer coisa para ganhar dinheiro (ainda mais um WallMart da vida), e ha tempos descobriram que as crianças representam um nicho espetacular de renda. So não vê quem não quer.
    Bisous: )

    1. Tata disse:

      pior do que as empresas fazerem qualquer coisa para ganhar dinheiro – o que sim, por si só já é bastante grave – , é tantas mães aceitarem e, mais do que isso, incentivarem que suas filhas sejam jogadas nessa roda viva, nessa ridícula fogueira de vaidades que cultiva a aparência acima de tudo, e vende padrões de beleza inatingíveis, falsos, fabricados…

  10. Adriana disse:

    Acho super importante esse tema. Além da questao do encurtamento da infancia e da sexualizacao precoce, há tambem a questao de genero. As meninas comecam cedo a entender o feminino como relacionado a padroes de beleza, na verdade inatingiveis, que provocarao frustracao e infelicidade no futuro. Junto com a maquiagem, as unhas pintadas e o salto alto, vem nao poder jogar bola, nao poder se sujar e ter que sentar com as pernas fechadas.

    1. Tata disse:

      com certeza Adriana, as meninas de hoje estão absorvendo uma visão muito deturpada, doente mesmo, do feminino… cabe a nós, mães, orientar e cuidar para que elas compreendam o feminino de uma forma mais natural, mais ampla, mais respeitosa…

  11. Ceila Santos disse:

    amei seu texto e concordo que seja preocupante o estimulo vir da mae aquela que deveria proteger a infancia, mas confesso que me preocupo muito mais com essas maes pq tenho absoluta certeza de que ela faz isso como reaçao e, na maioria das vezes, é mto dificil acessá-la pra aconchegá-la. e sinto que esse aconchego precisa ser feito. o que pensa sobre isso?

    1. Tata disse:

      Ceila, confesso que fiquei um tanto confusa com o seu comentário. Quando você diz que a mãe faz isso em reação, quer dizer em reação às cobranças e pressões da sociedade?

      1. Ceila Santos disse:

        sim. há mães que realmente estimulam e irão estimular sempre, mas sinto que a maioria estimula pelas pressões da sociedade, sem perceber, em pleno automático mesmo, por falta de informação, enfim, pela alienação do sistema mesmo.
        é preciso acordá-las, mas antes de tudo elas estão muito fragilizadas e precisam de aconchego…acha que é muita ingenuidade da minha parte?

  12. Cacau disse:

    Acho super natural a vaidade que as meninas adquirem com o tempo, e acho que cabe a nós saber lidar com isso.
    A Bruna por exemplo, adora ser elogiada, adora ser “princesa” e isso é uma coisa dela. Ela gosta de calçar meus sapatos (mesmo não tendo nenhum salto pra contar história) e brincar de ser como a mamãe, de ficar penteando os cabelos na frente do espelho, colocar presilhas e para por aí.
    Nada de maquiagem, nada de salto, nada de roupas de mini vadia e há quem me condene por isso. Conheço uma mãe que tem duas meninas, uma de 7 anos e uma de 5, ela maquia as filhas TODOS OS DIAS (rimel, sombra, blush e batom) pra irem pra escola e as meninas não brincam mais, só ficam no meio dos adultos de perninhas cruzadas e dedo mindinho levantado. Ela acha importante valorizar a feminilidade das filhas pra que elas não “embaranguem quando crescerem” (palavras dela).
    Pra mim o que importa mais é que minhas meninas aproveitem, aproveitem, aproveitem a infancia delas e que se um dia quiserem se preocupar com isso terão o tempo pra isso também. Esse tempo pra mim ainda não chegou…rs
    Beijos!

    1. Tata disse:

      Cacau, acho que a vaidade é super natural – mais em algumas crianças, menos em outras, já que as meninas, assim como todas nós, têm cada uma a sua personalidade. Mas é pra ser brincadeira, né? Como vc citou, pegar os sapatos da mãe, as pulseiras, enrolar-se em uma porção de colares, usar um toquinho de madeira como batom e sair dizendo que está pronta pra festa… isso aqui tb acontece muito e eu acho super bacana! desde que não saia do âmbito da brincadeira e da fantasia, que é onde elas devem transitar por enquanto…
      beijo!

  13. Fernanda Moraes disse:

    Fiquei muito triste mas confesso que não chocada. Em um país onde o indice de cesarianas é tão alto, não me surpreende outros tipos de desrespeito contra a mulher.

    http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/880316-uma-em-quatro-mulheres-relata-maus-tratos-durante-o-parto.shtml

  14. Ana Carolina disse:

    Realmente, trabalho com crianças e vejo a erotização precoce, os mini adultos. É triste de ver.

    quasemaepai.blogspot.com

    1. Tata disse:

      triste, e preocupante, né? é algo que temos que estar atentos todos os dias…

  15. Sílvia disse:

    Lá em casa é assim… salto alto nem pensar. É questão de saúde, inclusive. Ela já pediu, mas a resposta é não, não e não.
    Maquiagem e esmalte é sim. Não deliberadamente. Mas na “brincadeira”, como Kalu citou no post dela. Ela ADORA, e o jeito que ela brinca eu acho muito inocente, não vejo malícia nem acho danoso. Lá em casa é permitido!
    Terminou de brincar, se lava, passa acetona e pronto.
    Ah… mas com uma ressalva… maquiagem = batom, blush e sombras, que são usados de toda sorte: batom na bochecha, blush na sombracelha… tudo na brincadeira, parece mais uma palhacinha do que uma mocinha.
    Não usa maquiagem qdo se arruma ou qdo sai pra festas. Claro que não. Fiquei impressinada com a mãe que passa RÍMEL diariamente nas filhas. Absurdo.
    Já roupas são sempre confortáveis. Mas confesso que gosto de arrumá-la e não vejo mal nisso. Gosto de me arrumar e é natural que faça isso com minha filha. Gosto de roupinhas infantis fashion, mas que permitam conforto sempre.
    Agora cremes antiidade, esfoliantes, saltinho, rímel… o cúmulo do absurdo no meu pto de vista.

  16. [...] This post was mentioned on Twitter by Cinthia Dalpino, Rafa Paiva. Rafa Paiva said: Da beleza natural da Infância http://www.blogmamiferas.com.br/2011/02/da-beleza-natural-da-infancia.html by @rezica ADOREI! [...]

  17. Helô Vianna disse:

    nem me fale, Rê, tô até agora mals com o nosso ‘assunto’ de sábado… = (
    beijos!

  18. DaniKiyo disse:

    “elas pedem” virou desculpa para tudo, jah notaram?
    Porque deram chocolate e doces para a crianca antes da janta? “ela pediu!”… “Ah, mas se nao der o refri ele vai ficar com vontade…Olha soh, tah pedindo!” E assim vai…
    Aqui em casa nao me preocupo tanto com essas coisas de maquiagem e tal pois sou mae de menino. Minha preocupacao eh com as arminhas, brinquedos de luta, coisas desse tipo… Nao permito, nao deixo e falamos aqui que essas coisas nao sao legais. Assim como nao tem bala e os docinhos (leia-se sorvete, bolo e biscoitos) sao lah de vez em quando.
    Eh isso… amei o texto, como sempre!!!
    beijao
    Dani do Kiyo

  19. Eduarda morais disse:

    muito bom, renata!
    tava falando sobre isso com meu marido e ainda bem que nosso ponto de vista é igual nesse aspecto: criança é criança e ponto final!
    elas vão ter muitos anos para serem adultas, por agora ser criança é suficiente! :)

    obrigada pelo post!
    faz um bem danado ver que, num mundo tão ao contrário, tem outras mães que compartilham a mesma opinião! :)

  20. Bruh disse:

    Falo do ponto de vista de uma jovem, que ainda não é mãe, mas sonha em ser, e de uma ex-criança das antigas. A infância passou de motivo para lembrar e rir, para uma simples prévia da vida adulta. Agradeço imensamente a minha mãe por ter me dado todas as chances de crescer e amadurecer a minha maneira, em meio a àrvores, terra, brincadeiras de roda, bolos e desenhos. É um assunto que sempre puxo ao debate em grupos de amigas, é importante mostrar a automatização que ocorre na educação das nossas crianças, a erotização precoce…
    Muito bom o blog ;D
    Beijos e abraços nessas mãezonas!

  21. Renata Reis disse:

    Penso e ajo como a Sílvia. Sapato alto, nem pensar; maquiagem pra sair tb não; mas pra brincar, sonhar, virar palhacinha… sem problemas. Se for fantasiar, vale a pena.
    Penso nos riscos que os produtos químicos podem gerar, por isso não vale brincar disso em todo tempo.


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