set
10
2010
Nascer como Mãe
por Kalu
Em toda parte a imagem de uma mãe com um filho emociona: o olhar, os gestos. Por alguma razão nosso coração sabe que ali está uma relação profunda, de entrega e servidão. Um amor profundo. Mas antes de ser mãe, de verdade, não sabemos nada o que significa realmente ser.
Não são as listrinhas do exame de farmácia, nem ouvir o coração bater que faz a gente se sentir Mãe. Nem o barrigão que cresce.
Tudo é uma ilusão, projetada em sonhos alheios, em mitos, em propagandas. A gente sorri amarelo e algumas vezes não acha nada belo ou confortável o estado de gestante. Eu amei, mas não nasci mãe naquele instante.
Minha ficha do que poderia significar “ser mãe” caiu quando estava com 34 semanas, depois do meu chá de bebê. Eu tinha um plano de saúde que eu pagava quase 300 reais por mês. Um ginecologista que me atendia desde a adolescência. Meu marido morava em Belo Horizonte. Eu tinha medo de parir longe da minha mãe. Tinha medo de não saber o que fazer com um recém nascido nos braços. Tinha medo de afogá-lo, de não saber quando estava sujo. Não sabia como dar de mamar. Eu nunca tinha segurado um recém-nascido no colo. Sempre os achei estranhos, moles. Tinha medo de sua fragilidade. Tinha medo da minha fragilidade.
Eu sabia que queria um parto natural mas demorei para decidir por parir em casa. A princípio teria uma doula que ficaria comigo até o máximo possível na casa dos meus pais e depois iria para o Hospital.
Quando falei dos meus planos com o meu pai, durante o chá de bebe, ele me disse: assim que você tiver o primeiro sintoma, querendo ou não, te coloco no carro e você vai para o hospital. Na minha casa as regras são minhas e se você quiser arriscar a vida do seu filho que faça sozinha.
Eu me lembro de ter ficado com esta afirmação latejante durante todo o evento. Aliás, o chá de bebê foi desesperador uma vez que todos faziam apologia a cesárea, ao leite artificial e aos perigos do parto normal. Fiquei com um choro entalado, como se visse que meu sonho era, de fato, um pesadelo e incompatível com a realidade. Eu estava no meu limite: ou mergulhava de vez no mundo mamífero, ou seria mais uma vítima do sistema. Esse choro explodiu em um momento de tristeza, medo e agonia.
Chorei abraçada com meu marido, compulsivamente, falando de como seria difícil ele chegar na hora do parto, de como seria ruim ficarmos tanto tempo naquela casa pequena, com a palpitaria da minha mãe. Ao mesmo tempo eu pensava: mas eu não sei nada de bebê. Não sei se choram de fome ou sono, não sei a hora de trocar a fralda.
Eu não tinha lido nada sobre cuidados com o bebê. Já estava lendo sobre parto, mas e sobre o neném! Putz…
Foi então que fiz uma brincadeira que gosto muito: abri um livro em uma página qualquer. Peguei um livro de Siddha Yoga (caminho espiritual que sigo) e a história era sobre onde Deus ficaria escondido. Em resumo Deus estaria dentro do coração de todo mundo.
Senti uma força sem tamanho, uma certeza de que eu saberia tudo sobre aquele bebe se ouvisse meu coração. E meu coração gritou: vá para tua casa. E naquele dia, naquele instante disse para meu marido: quero ter meu filho em Belo Horizonte.
Mas que loucura: longe da família, sem plano de saúde. Meu plano aceitaria reembolso no caso de agendar a cesárea. Caso contrário não.
Foi então que conheci o Hospital Sofia Feldman. Foi então que soube da possibilidade de parir em casa. Eu fui, com 37 semanas, ficar bem longe do mundo conhecido e opressor para escrever a minha história de maternagem.
Ali morria a filha, naquele abraço desesperado e sem compreensão da minha mãe que me via partir. Me lembro da tristeza de empacotar minhas coisas e deixar o passado. Ali morria a solteira. Ali nascia a esposa. O cordão foi rompido para eu estabelecer uma ligação profunda com aquele novo ser.
Na contração, no choro, na dor, no amor infinito, me senti, mãe.
Quando eu nasci minha mãe tinha 18 anos. Minha avó ficava o tempo todo comigo (foi a primeira pessoa que me segurou no colo, uma vez que minha mãe estava passando mal da cesárea). E ela só me entregava para ser amamentada. Com 4 meses, já desmamada, eu era filha da minha avó.
Me bateu o medo de reviver isso, medo maior, bem maior do que não saber cuidar do meu filho.E no fim, depois do meu parto natural, com o cordão conectado, dando de mamar para ele, eu vi que tudo que ele precisava era de mim. Nunca li um livro sequer sobre cuidados com RN.
Eu acordava alguns segundos antes dele despertar. Misteriosamente, sabia se chorava de fome, se estava molhado ou com coco. Estava no silêncio da palpitaria, apenas escutando a força do meu instinto com o amor do meu coração.
E hoje seu que só pude viver isso porque nasci como mãe, por ter tido a coragem de assumir as responsabilidades da minha vida.
Essa história mudou a minha vida. E eu quem nada sabia, quem diria?: até tenho um blog que fala sobre maternagem…
E você, quando se sentiu mãe?
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“Me lembro da tristeza de empacotas minhas coisas, deixar o passado.”
Tô precisando empacotar o MEU passado. Rs.
Lindo querida. Sei que foi dificil a escolha, a partida para dentro de si, mas é só te ver que dá para sentir que fez a escolha certa!
Beijo no coração!
Ps.: Linda a barriga da Geo!
Oi, Flor!
MARAVILHOSO seu texto.
Eu me senti mãe de verdade quando, com menos de três meses, senti as vibrações da minha menina na barriga. Parecia um peixinho nadando apressado…
Como você, segui minha intuição: eu misteriosamente sabia e fazia.
Como diz Clarissa Pínkola Estés, é algo do fundo dos ovários, a gente simplesmente sabe que tudo o que nossos filhotes precisam é da gente.
Bjuss…
Kalu, nunca vou cansar de te dizer: você é pura inspiração
Dentre tantos episódios que me fizeram sentir-me mãe, um dos mais bonitos é qndo a cria começa a chorar, vc deixa que a vó, a tia, o pai, peguem, para não parecer monopolizadora, e é só no seu colo que o choro cessa, assim, num segundo
Pra mim não há prova maior de ser mãe…
Beijos enormes de sua admiradora incondicional!!
Fiquei gravida com 20 anos tive com 21 anos me senti mãe quando cheguei em casa com ele nos braços e tudo estava do mesmo jeito menos eu pois tinha algo nos braços que dependia totalmente de mim para tudo e foi assim então hj depois de 8 anos fico toda cheia qd esculto da boca dele : Vc é a melhor mãe do mundo tenho tanto orgulho de vc eu te adoro eu te amo tanto… aquele momento foi magico… e ainda é … acredito que vai ser assim sempre
Kalu, eu simplesmente adoro você! Mesmo não concordando com exatamente tudo que você pensa, admiro o que você escreve e a maneira como escreve sobre sua história pessoal e seus ideais. Também engrosso sua lista de fãs.
Eu me senti MÃE, de verdade, quando me vi sozinha com meus pequenos e percebi que tudo que eles precisavam era de mim e de meus instintos. Eles estavam com 1 semana de vida e minha mãe teve que voltar pra cidade onde mora e não pode mais me ajudar. E foi a melhor coisa que aconteceu. Meu marido exerceu com afinco o papel de pai e nossa relação ficou muito mais fortalecida.
As avós tendem a querer resgatar o que elas não conseguiram ser quando foram mães, talvez por inexperiência ou por ser coisa de geração mesmo. Mas essa atitude acaba roubando o nosso momento de exercer a maternidade.
Grande beijo e muita luz!
Lindo depoimento!
Eu me senti mãe quando aconcheguei minha recém nascida nos braços logo após o parto e ela estava chorando e quando me viu (sempre choro nessa hora!) ela parou na hora de chorar e ficamos nos olhando (não consigo mais parar de chorar!)e aquele momento sempre volta quando ela precisa de mim ou quando a vejo chorando…
Ficou confuso, mas é isso!
Linda a sua história e mais lindo ainda é como deu tudo certo da maneira que voce queria e que tanto te orgulha..
Nasci como mãe há uma semana (apesar de a minha filha ter 12 dias, acho que a ficha de Mãe caiu há pouco tempo). Sinto um orgulho imenso de dar de mamar a ela, e de ela acalmar quando escuta minha voz, quando deita a cabeça no meu peito ou quando sente o meu toque em seu corpinho. Me sinto mãe por ter vencido um nervoso interno e ter tido coragem de dar banho nela tão novinha e trocar o curativo do umbigo; me sinto mãe quando acho forças não sei de onde para acordar na madrugada de bom humor, pronta para amamentar minha pequena até ela não querer mais…. me sinto mãe quando a vejo tentando focalizar meu rosto ou quando sorri depois de mamar! Hoje sei que sou mãe, finalmente!
Ainda não deixei de ser filha, pois moro com meus pais, e nem deixei de ser solteira, porque não moro com meu namorado, mas já nasci como mãe, e isso pra mim é um dos passos mais importantes e encantadores de toda a minha vida.
Beijo!
Oi Kalu,
Só agora, depois de ter minha primeira filha, consigo compreender o verdadeiro sentido da tão conhecida frase: sempre que nasce uma filha, nasce também uma mãe. Nascemos porque nos reencontramos absolutamente transmutadas, não é mesmo? Eu renasci em termos de valores, de objetivos, de comportamento, de hábitos… O Parto Natural então? Acho que me fez compreender de fato o que é ser mulher. E os nossos filhos acho que vêm mesmo para isso: nos lançar em novos desafios, novas deascobertas, novos aprendizados e nos fazer seres humanos melhores. Assim evolui a humanidade! Veja, minha filha me trouxe a oportunidade de conhecer vocês, mamíferas como eu! E quer saber quando me senti mãe?
Foi quase como você (e tb sou de BH, tb larguei plano de saúde, tb com 37 semanas descobri que o Sofia era minha luz no fim do túnel), veja:
http://partejandocomlaurinha.blogspot.com/2010/06/aprendendo-o-beaba-no-dia-seguinte-ao.html
A minha ficha de que “sou mãe” caiu quando o gineco estava fazendo o ultrasom e disse para o bebê: vamos, agite-se, dê coices na mamãe para ela sentir você…
Um abraço,
Adri
Esse texto traduziu exatamente as minhas preocupações e anseios. Falta pouco para o meu primeiro filhote chegar, e o misto de auforia e desespero é sem medida, mas acredito q ouvir meu coração será o essencial para que eu seja a mamífera que desejo ser.