ago
31
2010
Anestesia: Vilã ou mocinha?
por Kalu

Foto: Kalu Brum - Bianca, que dilatou rapidamente depois da anestesia com 7 cm e pariu João da forma mais natural possível.
Se me perguntassem, há alguns meses, se era contra anestesia durante o parto responderia fechando a questão: sim sou. Afinal, narciso acha feio o que não é espelho.
Sabemos que é possível sim ter um parto sem anestesia. Um parto natural evitando a cascata de intervenções: anestesia, lentidão na progressão do trabalho de parto, uso da ocitocina sintética, risco de alteração do batimento cardíaco do bebê.
O que ajuda evitar essa cascata é escolher uma equipe humanizada, um lugar que propicie o atendimento humanizado, ser respeitada nas escolhas e alguém que confie no parto como um evento fisiológico e não médico. É o mesmo que estar de dieta e marcar um encontro numa pizzaria. A tentação está sendo oferecida de bandeja.
Acontece que entre o preto e o branco, existe uma infinita escala de cinza. A dor do parto não é ela por si só. É o medo do desconhecido, é a insegurança de um evento sem controle, são os mitos que existem dentro de nós, é a luta que muitas vezes começa tardia, é a informação da cabeça que não chega ao corpo.
E nesse contexto o parto pode se tornar doloroso. Pode carregar as dores dos nossos não-nasceres, o pânico das violências sexuais e morais que nossos corpos algumas vezes sofreram. O medo da morte, a falta de coragem de assumir a responsabilidade. Não apenas do parto, mas a responsabilidade de vida que evita que culpabilizemos os outros por qualquer coisa. Responsabilizar-se com consciência é assumir um lugar numa linda estrada solitária em que se saboreia apenas o fruto da jornada.
Diante da dor, reagimos de forma diferente. Há quem compreenda uma contração como um “passar mal”, algo que a sociedade evita com as cesáreas eletivas antes de “passar mal”. Há quem abrace a dor e entenda que ela passa e o que fica é o aprendizado, é a superação necessária para galgar um novo estágio. E há para aquelas que a dor desvirtua, faz esquecer a razão do parir.
Claro que ela pode gerar complicações, claro que como doula vou defender que a água é um excelente anestésico, que massagens fazem a contração ficarem mais confortáveis, que a bolsa de água quente alivia, que a consciência do processo natural faz ter fé em persistir. Mas hoje, humildemente, digo que a escala de cinza me mostra que a anestesia pode fazer a diferença positiva para um nascimento quando os demais recursos não-farmacológicos não mais funcionam.
E naquela dose mínima a mulher pode relaxar, recobrar os ânimos e encarar mais uma etapa até trazer ao mundo um filho através do abraço apertado das entranhas.
Se me perguntassem, há 6 meses, se era contra anestesia fecharia a questão olhando para meu umbigo:melhor parir que fazer limpeza de dente (para esta última sempre preciso ser anestesiada). Mas limiares de dor são incomparáveis. Assim como não se devia comparar o desenvolvimento das crianças ou sentir-se mais ou menos mãe por essa ou aquela questão.
Cada um sabe de seus limites. E que as escolhas sejam assumidas com responsabilidade e consciência. E dentro do possível, que possamos tentar ir um pouco além. No meu parto, sabendo da minha fragilidade a dor,escolhi parir em casa, onde não haveria a tentação tão de perto. Deu certo. Assim como os partos que acompanhei com anestesia também deram, dentro do limite e possibilidade de cada mulher.




Kalu, eu tbem pari em casa, mas a escolha foi por outros motivos… Não imaginava nem de perto o que era dor de parto. Sempre me achei a “poderosa” que aguentava qq rojão. Mas na hora quase surtei de dor e senti muita raiva por estar sentindo aquela dor, que foi só minha e incomparável. Imaginava que parir fosse diferente. Mas venci a dor, venci muitos traumas, passei pelo portal e sai mais forte, mais consciente, mais humana. Ter sentido aquela dor me fez Mulher. Hoje estou de 38 semanas, esperando novamente por ela…. a dor do parto. Não sei se será diferente, mas pretendo ao menos olhar para ela com mais candura….
Ah! Lindo seu texto sobre a anestesia. Cada corpo tem suas histórias e suas necessidades. É preciso apenas respeito pelas escolhas…. Mas que sejam de fato ESCOLHAS.
Kalu,
Tenho refletido muito sobre essa questão da anestesia e da dor do parto. Eu tive minha filha no hospital, um parto normal muito humanizado, com uma equipe humanizada nota mil, aguentei a dor até os 9cm de dilatação, mas estava tão insuportável pra mim que caí na tentação da anestesia. Por estar em trabalho de parto já avançado, a anestesia não atrapalhou, ufa… na verdade ajudou, pq eu relaxei, recobrei as forças e enfrentei as 3hs que ainda me separavam da minha filha. Mas eu não queria ter tomado. Não queria. Fico analisando o que fez com que o processo (TP) chegasse num ponto insuportável pra mim. O que fez com que a dor me vencesse? Estar num ambiente hospitalar, e não no aconchego do meu lar? Medo do desconhecido? (me lembro claramente de dizer que queria anestesia pq eu tinha medo de não aguentar o que ainda tinha por vir até o bebê nascer) Insegurança qto à minha capacidade de parir? Não ter o controle? Não ter o controle… Todas as hipóteses levantadas são válidas, mas essa é a pedra fundamental. Eu tenho verdadeiro pavor de não ter o controle, de qq situação que seja na minha vida. Descobri isso recentemente. Eu simplesmente não sei reagir qdo não tenho o controle da situação, me amedronto, paraliso.
Nem estou grávida de novo, mas já sei que o próximo parto vai ser em casa. E até lá vou trabalhar muito pra mudar esse meu funcionamento interno e aprender a vivenciar situações das quais eu não tenho controle nenhum.
Muita gente pode não entender isso de não querer anestesia no parto (afinal, a medicina está aí pra isso mesmo, e blá blá blá…). Acho que a anestesia é um recurso muito bacana quando bem aplicado (pra ajudar e não atrapalhar). Mas pro meu processo de crescimento e amadurecimento interno, parir sem anestesia representa um passo muito importante. Cada uma sabe de si.
Beijos
Kalu, boas reflexões! O mais engraçado é que acabei de voltar do dentista, estou com a boca anestesiada, assim como sua descrição. Na cadeira do dentista eu não penso duas vezes: É anestesia sim!
Mas no parto ela não aconteceu. Foi uma opção passar pelo processo, pela “dor”, para sentir tudo.
Mas assim como vc colocou, cada mulher é única, cada história é diferente e não dá prá julgar as escolhas de acordo somente com o nosso contexto.
Gostei!
Beijos,
Camila.
Kalu, muito legal ver a sua humildade em admitir que algumas vezes pode ser legal usar sim. No meu caso, o parto foi super longo (começou na manhãzinha de sábado e Marco nasceu na madrugada de domingo para segunda). Ele estava com a cabeça defletida + contrações irregulares e por isso após mais de 24 horas em casa esperando pelo PD fizemos a transferência para a maternidade fazer a condução com ocitocina. Lá tentei de tudo, encheram a banheira, mas eu não queria ficar parada durante as contrações, sentia necessidade de me mover. Aguentei assim até 7 para 8 cm, já era comecinho da noite de domingo e pedi analgesia não sei se pela dor ou pelo cansaço já que não tinha dormido nada desde o início do TP. Depois do alívio descansei uma meia hora e ao acordar me senti muito mais disposta a andar, agachar etc. Tive a sorte de estar com uma equipe humanizada que não transformou isso em uma cascata de intervenções, apesar disso me culpei pois sonhava muito com um parto natural. Hoje consigo ver que foi necessário e talvez nas mãos de outro médico eu tivesse ido pra faca fácil.
Adorei o tema abordado e acho que as mulheres deveriam se informar muito mais sobre as opções que podem ter para alívio da dor antes de optar pela cesária.
bjs, Kris
Acho que a anestesia pode ser benéfica sim, se bem utilizada, com uma boa equipe presente no caso de intercorrências e se a gestante estiver muito bem informada sobre o assunto. Pela minha experiência como acadêmica de enfermagem já constatei que partos naturais evoluem MUITO melhor do que partos com anestesia, nisso não há nem o que discutir, porém todos tem os seus limites mesmo, quanto a isso não há o que discutir.
Eu quando tenho cólicas menstruais (que são tenebrosas!) não penso 2x antes de tomar um analgésico, porém quero com certeza um parto natural, acho que vivenciar a dor do parto é totalmente diferente de qualquer outra dor.
Beijos
Nossa, escrevi 2x seguidas “quanto a isso não há o que discutir”, que gafe, hehe!
Eu sento na cadeira do dentista e digo: sem anestesia. E penso: bom, se eu aguentei a dor do parto, vou aguentar essa também.
Eu acho que a dor é muito do psicológico, muito da cabeça e da preparação.
Mas respeito quem precisa da anestesia, afinal, cada um sabe aonde o calo dói..rs
Beijos.
Hahaha,
eu faço igual a Letícia e faço limpeza e obturação sem anestesia. As vezes fico um pouco tensa com todos aqueles aparelhos cortantes na minha boca, mas aguento firme, porque a dor nem é muita, pior é a ansiedade, o medo…
Assunto delicado esse! Eu recebi anestesia em Tp e sei que perdi meu parto ali. Foi “fraca”, não perdi os movimentos das pernas, pude andar, mas meu filho precisava dos empurrões em sua máxima performance para nascer. Da anestesia veio a cesárea. No box ao lado tinha uma mulher bem jovem que urrava de dor aos 4cm. A equipe cedeu ao pedido de anestesia e em menos de 1hora o filho dela nasceu! SEm dúvida ela precisava da anestesia!
Sem dúvida eu não! Descobrir as escalas de cinza é onde mora o mistério, requer sabedoria! Defendo que analgesia não deve ser oferecido. Para que ela seja sempre a mocinha, é preciso avaliação delicada da equipe diante do pedido por anestesia da parturiente.
Anestesia porque a equipe está sofrendo com a dor, para mim, é sempre vilã!
Beijos, lindo texto
Kalu querida, esse post me lavou a alma. Me fez entender, 1 ano e 4 meses depois do parto, que eu tive o parto que eu pude ter naquele momento. Que a anestesia não me faz menos mãe.
Maravilhoso o texto.
Um beijo
Kalu, confesso que sou frustrada por ter cedido à analgesia. Mas depois de ler esse seu texto, me senti muuuuito confortável da escolha que eu fiz e percebi de verdade que mesmo diante de tamanha dor e medo, eu fiz a escolha certa, estava no meu limite. Fico imaginando que sem ela, eu não ia relaxar ao ponto de viver tão intensamente o expulsivo (que foi loooonnngoooo) e receber minha pequena nos braços
Mas espero ansiosamente pela próxima vez, um parto domiciliar, sem analgesia. Agora eu aprendi, entrar em TP, dormir, dormir e dormir pra não ficar tão cansada e ceder a tudo rs.
adorei o post, me caiu muito, muito bem!
beijos
Kalu,
Muito legal o seu depoimento e o de outras pessoas sobre anestesia, bom mesmo é quando a mãe durante o parto consegue passar por todo o processo tolerando a dor, mas o parto humanizado comeca exatamente no momento que ele respeita os desejos e limites da mulher, inclusive o de sentir dor. Para a Anne digo que não deve ser motivo de se sentir frustrada o fato de ter cedido a uma anetesia, cada parto é um parto. Eu acompanhei uma amiga que também optou após horas de dor pela anestesia, e no bloco cirugico se manteve em cadeira de cocoras por mais de 5 horas, após a anestesia, mas se sentiu vitoriosa com o processo do parto ao ter o bebe em suas mãos que hoje possui 5 meses, sem ter passado por uma cesariana. Abracos Valeria
Amei o texto. Veio bem a calhar com algumas coisas que ando pensando e repensando. Te mandei um email, ok?
Bjuss…
mil luas só suas!!