mai

17

2010

Antropologia militante

por Mamífera(o) Convidada(o)

por: Bianca Lanu – Mamífera Convidada

Talvez para aplacar a angústia dos últimos dias resolvi escrever esse relato de militante a favor da humanização à assistência ao parto e nascimento, mas o que venha a ser humanização, empoderamento, protagonismo feminino para àquelas que não puderam ter acesso a bens culturais elitistas (que deveriam ser democratizados, ou mais ainda, socializados) como uma boa formação e educação? Como atingir esse público, especialmente de usuárias do Sistema Único de Saúde que enfrentarão hospitais cheios, equipe despreparada, falta de privacidade e aconchego para parir e até mesmo um acompanhante de sua escolha em seu trabalho de parto, parto e pós-parto, direito garantido por Lei desde 2005, enfim, como?

Já atuei em diferentes movimentos sociais especialmente na área da Educação e preceitos de Paulo Freire, pedagogo e educador comunitário que desenvolveu a Pedagogia do Oprimido, sempre traçaram meus caminhos e a grande dificuldade, ou melhor, o grande desafio, seria fornecer a grupos desfavorecidos tanto social, quanto economicamente, a oportunidade de ter uma educação com qualidade, crítica e autônoma.

Penso que a discussão do parto e nascimento no país ganha os mesmos contornos: como fazer a informação e a Medicina baseada em evidências científicas atuais chegarem democraticamente às mulheres e suas famílias nesse momento tão singular e especial que é a vinda de um novo ser para a sociedade? O despertar, ou nos jargões de nosso grupo, o empoderamento, é um processo individual, claro que se a parturiente tiver como chegar a esses dados facilita, mas será que damos com clareza a direção?

Participei de um curso de gestantes oferecido em meu município por um órgão federal com enfermeiras obstetras do Programa Saúde da Família. No encontro, poucas barrigudas presentes, uma, inclusive, com 13 anos, no discurso tecnicista o repasse de que “Parto bom é parto rápido”, e como, atualmente, o uso de ocitocina sintética é benéfico para a mulher em trabalho de parto, pois acelera o processo e proporciona menos sofrimento. Nem preciso dizer como me senti!

Passei pelas duas experiências de parir: tive uma cesárea e um parto domiciliar; na primeira gestação apesar de ler muito sobre o tema ainda não tinha tomado a “pílula azul” e deixei-me confiar pela ginecologista (afinal, ela era médica, detentora da Ciência!) e acabei sendo operada! Laudo: distócia. Mesmo com o uso de ocitocina sintética e bolsa rota há 12 horas o trabalho de parto não evoluiu, com dois dedos de dilatação, nas finais da Copa do Mundo de 2002, meu primeiro filho nasceu! Durante a cirurgia escutava a equipe médica comentar sobre os gols das jogadas, os atacantes, ótimo exemplo de humanização do nascimento!

Quando engravidei pela segunda vez busquei outras possibilidades e por desejar um parto normal e a cada encontro com o ginecologista a resposta era “Vamos ver, pois você já teve uma cesárea!” compreendi que esse momento, exclusivo do meu corpo, da natureza feminina, deveria ter as rédeas tomadas por mim, protagonista da história, de minha história e descobri um novo mundo possível!

A “pílula azul” foi tomada e a saída da Matrix realizada! Novas leituras, novas discussões, listas na internet, sites, blogs, boa informação, pessoas, profissionais e grupos engajados não faltam, sendo que de norte ao sul do País temos ótimas referências, mas ainda estamos no 2° lugar, perdendo apenas para o Chile, nosso vizinho, de cirurgias cesarianas, com taxas que alcançam 80% na rede privada de saúde.

È neste ponto o meu pesar, e também minhas indagações, como nós, mulheres e homens pertencentes a este outro lado do muro, como ginecologistas obstetras, enfermeiras obstetras, doulas, educadoras perinatais (e antropólogas, no meu caso!) devemos proceder? Como fazer com que os dados que temos acesso sejam também de fácil acesso para camadas da sociedade que mal sabem o que é o aparelho reprodutor feminino? Como ser didática, interessante e palpável as discussões e encontros? Temos um grande desafio, mas também uma poderosa chance de transformar os paradigmas e baluartes de nossa sociedade!

E vocês, como trabalham essas questões no dia-a-dia profissional?


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