jan

27

2012

Cadê meu filho? »

por Kalu

Miguel sempre foi uma criança muito destemida. Desde bebezinho aceitou as pessoas do mundo de braços abertos e sorriso largo. Acredito que em grande parte por sua personalidades e uma outra, pela segurança interna que o respeito a suas dependências lhe deram esta autoconfiança.

Miguel mamou até quando quis (3 anos e 7 meses). Por outro lado sempre incentivamos que fizesse suas próprias coisas, como comer sozinho, limpar o bumbum, comprar um sorvete ali por perto.
Mas uma característica sempre me causou certo estranhamento em relação as outras crianças: Miguel nunca procurou meus olhos quando estava distante. Como se sua autoconfiança fosse tão grande, seu desejo de ser dono de si mesmo lhe desse a autonomia para fazer o que seu nariz manda.

Procuramos estar sempre de olho para não perde-lo de vista. Mas nesta semana, estava na praça correndo ao seu lado, enquanto ele andava de bicicleta. De repente, em segundos ele não estava no meu campo de visão.

Dei algumas voltas na praça e simplesmente não conseguia achá-lo. Comecei a chorar, em um misto de culpa, desespero, medo.  Sai perguntando se alguém tinha visto um menino vestido de camiseta verde e equipamentos de segurança. Ninguém havia visto. Foram 20 minutos o procurando, em total desespero, lágrimas. Confesso que tudo passou pela minha cabeça. Uma sensação de impotência terrível tomou conta de mim.

Até que o vi, debaixo de um banco da praça. A bicicleta estava caída bem atrás de uma árvore. Por isso não conseguia ver. Ele parou a bicicleta lá e foi descansar. Resolveu brincar de cabana e estava lá, alheio a tudo, imerso em sua imaginação. Não entendeu nada quando sua mãe chegou chorando e abraçando-o como se não o visse há séculos.

Ele começou a chorar junto perguntando: o que eu fiz? Alcalmei-me, alcalmei-o. Como dizer a ele que existem pessoas que não são boas? Para ele o mundo é perfeito e todos são amistosos e bons.

– Filho, por favor, sempre procure a mamãe. Nunca fique tão longe, tanto tempo, em um lugar aberto.
- Mas, por que?

E agora, o que dizer? Segui meus instintos.
- Filho, todo mundo que a gente conhece é bom e quer que você seja feliz. Mas tem algumas pessoas do mundo que não são totalmente boas e não fazem coisas boas com crianças.
- O que elas fazem?
- Elas mentem. Elas dizem que vão levar você em um lugar legal, cheio de brinquedos, mas na verdade elas podem levar você para longe do seu pai e da sua mãe para sempre. Você nunca mais vai ver a gente. Nunca mais vai ver sua casa, seu cachorro, sua gata, seus amigos e escola.

Neste momento ele começou a chorar, a chorar com muito medo, talvez ciente do perigo que correu.

- Que nem no Pinóquio, né, mãe? Eles queriam as crianças para que virassem burrinho para vender!
- Mais ou menos isso filho. O importante é sempre ficar por perto e se for fazer alguma coisa perguntar para mim ou seu pai se pode. Se pode ir a casa daquela pessoa ou em um lugar longe da gente. Nunca ir para nenhum lugar sem falar comigo. A mamãe sempre deixa aquilo que não fará mal par você. Tem coisas que a gente quer, mas se fizermos, algo ruim pode acontecer.

Depois de nos consolarmos, fomos para casa. Ao chegar, logo ele contou para o pai tudo que aconteceu, com a lição que tirou: eu nunca mais vou fazer isso. Sempre vou procurar vocês e nunca vou para lugar nenhum sem perguntar.

Antes de dormir ele pediu para rezar pelas crianças que foram levadas de seus pais, para que um dia voltem para casa. Eu chorei calada, com medo do que poderia ter acontecido e de certa forma experimentei por poucos minutos a dor de muitas mães que perdem seus filhos.

E  vocês, já passaram por experiência semelhante? Como lidaram com a situação?

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jan

26

2012

O discurso que muda »

por Nanda

Benjamin levou uma mordida de um dos gatos – que ainda não está vacinado – e decidimos dar a anti-rábica pra ele, apesar do gato não mostrar nenhum sintoma da doença. Fomos no pronto-socorro do plano de saúde, não tinham a tal vacina, que só é ministrada na rede pública. Então peregrinamos por 3 locais em bairros muito distantes um do outro, levados por informações desencontradas e desorganização.

No Hospital de Doenças Tropicais do Estado, um dos locais ao qual fomos erroneamente encaminhados, eu levei um tapa na cara: os técnicos do hospital estavam paramentados – de galochas e toucas inclusive – sentados no meio-fio da calçada. Outros técnicos estavam somente com o jaleco, sem nenhuma camisa por baixo, sem o mínimo de decoro ou higiene. A fila para atendimento no hospital era enorme, e o local estava caindo aos pedaços.

E aí eu percebi. Que os usuários do sistema de saúde pública não tem ilusões de humanização, de um parto ativo, de um atendimento digno. Que para eles, o SUS é a única opção, e eles se contentam com o que recebem, e dão graças se saem de lá vivos, mãe e bebê. Existe um blog contando como é fazer um pré-natal no SUS. Não informa em qual local do Brasil, não há nenhuma informação específica, mas dá pra saber que é factível porque se você alguma vez precisou de qualquer serviço no atendimento público de saúde, sabe que é exatamente daquela maneira.

O nosso discurso é lindo, mas é surreal, ou irreal. E é justamente por isso que ele é tão importante. Nós falamos para nós mesmas: mulheres de escolaridade alta, renda que nos coloca entre as classes A e B, com tempo, dinheiro e letramento o suficiente para manter a blogosfera materna. Mas somos nós que damos o exemplo. Foram as nossas barrigas que começaram a ser cortadas de maneira serial, levando-nos a crer que a cesariana é uma escolha. Graças a isso, o índice de cesarianas (até mesmo eletivas) no SUS também aumentou, levando o Brasil ao índice mais alto de cesarianas.

Na minha monografia de conclusão de curso, questionamos o papel das telenovelas na escolha da via de parto. Mas não conseguimos chegar a uma conclusão: as telenovelas são um espelho da realidade, ou seriam uma forma de perpetuar o que já ocorre? De uma forma ou de outra, somos nós quem pautamos a mídia. As classes A e B. As classes que são, até onde é possível, donas de suas realidades. Que produz conteúdo. Porque se mudarmos a mentalidade dessas classes, fica mais fácil mudar o que é visto na mídia e cobrar mudanças de fato. E assim, fazer com que o nosso discurso salte do surreal para a realidade.

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jan

25

2012

Paulistaníssima »

por Tata

imagem: preservasp.org.br

Somos uma família paulistaníssima. Paulistana da gema, como costumo dizer. Eu e meu marido nascemos e vivemos a vida toda aqui. Nossas três filhas nasceram aqui, e aqui estamos até hoje.

Há quem ache que São Paulo é o pior lugar do Brasil para se criar uma criança. Eu não acho. Aliás, não acredito que haja lugares bons e outros ruins, a priori, para se criar um filho. Acho que cada lugar, aliás como todas as coisas da vida, tem seus prós e contras, suas vantagens e desvantagens, suas dores e suas delícias.

Sim, é uma cidade violenta, com altos índices de criminalidade. Sim, tem um trânsito infernal. Sim, a poluição é muita. Sim, é uma cidade exageradamente verticalizada, sem horizonte. Sim, tem uma elite emburrecida e arrogante, vergonhosamente egoísta. Sim, sim, sim.

Mas junto disso, vem muita coisa boa também. Depende do olhar que se lança sobre, depende de como se olha a cidade e quem vive nela, do que se procura, do que se valoriza – ou desvaloriza.

São Paulo é também lugar de gente muito boa. Gente de todos os tipos, de todos os gostos, de todos os ritmos. Gente que gosta de viver a vida em alta velocidade, com a cabeça a mil. E São Paulo também tem tanta beleza – basta sair a pé para caminhar pela cidade, querendo descobrir os cantinhos que turista não encontra.

Eu gosto demais de viver aqui. E vejo uma porção de coisas boas para se criar um filho por aqui. As opções culturais, por exemplo, são imbatíveis: muito teatro infantil, cinema com os últimos lançamentos, contação de histórias para todos os gostos, atividades gratuitas de todos os tipos, oficinas, cursos, programações variadas, incontáveis museus. Os parques de São Paulo são deliciosos, diversão garantida ou seu mau humor habitual de volta (como dizem por aí, o parque é a praia do paulistano, afinal).

São Paulo é uma cidade sem tédio: basta procurar, que você encontra o que fazer. Seja dar um passeio a pé pela Paulista, ir comer em um restaurante bacana, tomar um sorvete em uma sorveteria artesanal, ouvir uma música ao vivo, ver passar a tarde em uma livraria para depois tomar um café, comer um pão de queijo e jogar conversa fora, entre tantas outras possibilidades.

São Paulo é o berço brasileiro da diversidade. Aqui, tem gente de todo tipo – e eu acho isso fantástico. Para as crianças, crescer em São Paulo ensina a ver beleza na diversidade – de cores, de raças, de estilos de vida, de ritmos, de formas de vestir, falar e pensar. Aqui, cada um é como é.

E São Paulo também tem, sim, seus cantinhos de tranquilidade, seus refúgios. Lugares gostosos onde a gente até se esquece do tamanhão que essa cidade tem. Quem vive por aqui explora, desvenda, e encontra.

São Paulo é sim, lugar de gente feliz – ao contrário do que se gosta de dizer por aí. É lugar de gente que vive correndo, mas sempre com muita vontade de fazer e aprender, descobrir coisas novas, ampliar horizontes – por mais arranha-céus que tenha ao redor, o paulistano é um bicho enxerga longe, pensa grande e quer sempre mais. É lugar de gente que gosta de realizar.

E não pense que criança paulistana não se diverte, hein? Pode ser que não dê para subir em árvore, colher fruta do pé ou tomar banho de rio (isso tudo, os pequenos paulistanos fazem nas férias, e se lambuzam, como quem nunca comeu melado). Mas tem um outro tipo de alegria, nem melhor e nem pior, apenas outra. Uma alegria do olhar grande, do olhar ampliado, do olhar afinado com as coisas todas do mundo. Uma alegria de ter tudo ao alcance da mão, de tanta possibilidade diferente que até zonzeia. A alegria da vida caminhando a toda velocidade, trazendo sempre novidade, espantando o tédio.

E hoje, quando essa cidade que eu amo tanto, tão cheia de lindezas e de problemas, faz anos, é hora de olhar com cuidado, com carinho. Sem deixar de perceber as misérias e tudo o que precisa ser melhorado, mas sem deixar também de olhar para tudo o que há de bom, para tudo o que essa terra nos oferece como matéria prima e que cabe a nós fazer acontecer, para tanta gente maravilhosa que vive por aqui, uma gente fina elegante e sincera, uma gente com muita vontade de fazer as coisas acontecerem, e com muita capacidade de fazer de Sampa um lugar bacana e bom de se viver.

Hoje é dia de dizer, como eu gosto de dizer todos os dias, de reafirmar: eu adoro São Paulo. Adoro com seus defeitos e qualidades, adoro com as coisas divertidas e boas de se fazer, e com as coisas ruins também. Adoro cada uma de suas muitas potencialidades, suas infinitas possibilidades. Que a gente não precisa de perfeição para gostar – a gente gosta do que é vivo, do que afina e desafina. E essa cidade é mesmo assim, como cantou Caetano: o avesso do avesso do avesso. E o avesso também pode ser lindo.

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jan

24

2012

E se foi o bebê »

por Kalu

Foto: Kalu Brum. Miguel e suas janelinhas.

Eis que se abriram duas janelas. Uma depois da outra. Os dentes de baixo, os mesmo que nasceram aos 4 meses. E eu sei, não é apenas um dente. É um sinal claro de um amadurecimento emocional, físico e espiritual. Um mês antes de completar 5 anos. Também fui assim com a ânsia de crescer e romper com as limitações do corpo pequeno e pouco habilidoso.

Não é só um dente, é uma nova fase que se iniciou faz tempo: limpa o bumbum sozinho, come sozinho, pede para dormir rezamos e você vira de lado e acorda apenas 12 horas depois, come de tudo e experimenta alimentos novos e saudáveis.

É o equilíbrio de quem conseguiu surfar em pé, sozinho. De quem não tem medo do mundo e fala com toda a gente. Faz amigos com facilidade com prosa boa de menino tagarela.

Ainda me lembro dos palpites infundados de quem me dizia que por amamentar muito e prolongadamente, teria um filho apegado. Que por atendê-lo em cada demanda de colo e peito, teria uma criança que nunca sairia do meu quarto. Que por nunca bater, teria um menino sem limites.

E sem dosar a quantidade de amor e tempo, segui meus instintos. Sem prender demais, nem soltar sem limites. Seguindo apenas em frente, voltando para trás quando percebia ser necessário.

Eis que me vejo de mãe de um menino de quase 5, com 2 janelas e sinais de uma nova fase começa. Menino que sabe compartilhar as coisas, que cuida do planeta, gosta de ajudar os outros e tem uma energia infinita.

Hoje, logo de manhazinha, você foi para meu quarto. Vi seus dedos longilíneos outrora curtos e gordinhos. Seu corpo esquio com a barriga que começa a entrar para dentro da cavidade. Ali do meu lado não via nem sombras do bebê que foi. Um menino dormia ali.

Confesso que chorei. Não por não ter aproveitado cada fase, porque isso, tenho certeza que o fiz. Ter podido trabalhar em casa foi num grande presente que a vida me deu e me permitiu amamenta-lo até 3 anos e 7 meses, acompanhar cada conquista. Chorei  por ter desejado que algumas fases passassem rápido.

A gente se sente cansada, esgotada de amamentar. Das doenças, da dependência que não me deixava fazer um coco mais prolongado. Os palpites infinitos de que não cuidava direito do meu filho por não intervir com farinhas na alimentação difícil. Por não bater em um menino que fazia muitas pirraças.

Não faço mais papinhas, não acordo mais a noite, não preciso me preocupar se ele está no quintal comendo algo inadequado. E tenho saudades de cada detalhe, de cada cansaço. Por que o que faz uma rosa diferente de mil outras, é o tempo que se dedica a ela.

Esse tempo é difícil, indigesto de se dividir. Parecemos estar atrofiadas, estagnadas enquanto nossos filhos crescem. Aí que perdemos a oportunidade de crescer juntos. Perdi várias delas.

Sempre chega a hora de ganhar o mundo e essa hora chega muito rápido. 5 anos e o bebê se foi. Mais 7 (ou menos?!) e o menino se foi. E se você está cansada com seu bebê que acorda mil vezes, se está exausta com as mil mamadas do seu filho que deixou de comer bem, aproveite. Por que ele vai crescer, como o meu. É agora que ele precisa de você, agora que você é o mundo dele. Depois ele será para sempre do mundo. Brinque, brinque muito. As vezes é cansativo, mas ali na brincadeira que criamos a cumplicidade e desatrofiamos nossa criança interior.

Não é se anular para não perder cada fase. Mas não desejar que passe logo. Em cada etapa  existem desafios difíceis que só precisam de nossa intuição para tomar a melhor atitude. Talvez  o segundo filho seja mais fácil por isso: a gente aprende a ter mais leveza com as dificuldades e curtir mais cada fase.  Só que aí tem o anterior para demandar mais tempo… Que bom seria se o quarto filho nascesse primeiro.

Agora sou oficialmente a mãe de um menino. Que venha a nova fase. E que pena, ela também passa.

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jan

23

2012

Parto Normal de Bebê prematuro com pre-eclâmpsia »

por Mamífera(o) Convidada(o)

Priscila, grávida de Juan, hoje com 3 anos e meio.Na minha cabecinha, gravidez era uma maravilha, algo onde tudo é perfeito e nada dá errado. Quando fui a consulta de pré-natal com 32 semanas, me queixei de muita dor de cabeça e tontura, eu estava muito inchada, mas nem liguei, afinal, gravidez incha, mas minha médica notou que eu, sem conseguir me alimentar corretamente, com vômitos diários, havia aumentado uns 20 kg entre uma consulta e outra, minha pressão arterial estava alta e ela me encaminhou ao hospital para uma avaliação.

De ali em diante, meu caso somente se agravava, minha pressão não parava de subir, e no hospital os exames detectaram pré-eclâmpse, fui internada imediatamente, devido aos picos da pressão arterial, que variavam entre 18.12 e 20.12. Foi uma semana tentando controlar a pressão arterial, enquanto meu corpo e meu filho estavam sendo preparados para um possível parto prematuro.

Até que um dia, mesmo com os tratamentos e o repouso, amanheci com a pressão arterial marcando 21.12, e fui encaminhada para um parto prematuro. A equipe médica inteira conversou comigo e com meu marido, existia a probabilidade da cesárea ou do parto induzido, mas meu filho não nasceria de forma natural, se esperássemos por isso, seria tarde demais, para mim e para ele, pois eu não estava entrando em trabalho de parto espontaneamente. Fiquei chocada, sempre alimentei o desejo do parto normal, e minha médica me apoiou sempre, nunca me fez pensar em fazer cirurgia caso o caso não indicasse.

Perguntei sobre o parto induzido pois minha desinformação era tamanha que sequer sabia que existia, sequer sabia que algumas mulheres usam o mesmo método para abortar. Me foi explicado o procedimento, e que, caso demorasse muito, a cirurgia se faria necessária, mas que ainda poderiam tentar o normal induzido. Os dois trariam riscos, para mim e meu bebê, e, mesmo diante de várias mulheres com o mesmo problema fazendo cesárea (era um hospital público, onde até a hora de ir a sala de parto, ficamos no mesmo local) eu preferi o parto normal induzido.

Nessa altura, eu já estava com sonda, pois se levantasse para ir ao banheiro minha pressão subia demais e corria o risco de um AVC. Questionei a equipe sobre o parto elevar minha pressão e me garantiram que a qualquer sinal de risco e perigo, estariam preparados para uma cesárea de emergência.

Começou o procedimento e não demorou muito para as dores e o início da dilatação. Eu e meu bebê sendo monitorados o tempo todo, comriscila com seu filho Juan nascido de um Parto Normal Induzido com 33 semanas diversos equipamentos e a equipe ao nosso lado, sempre conversando comigo, questionando. Hoje sei que isso é também para avaliar meu estado, minha lucidez. Algumas horas depois, o momento chegou, meu marido saiu correndo trocar de roupa, quando chegou a sala de parto, foram alguns minutos até o bebê vir a luz. Ele era muito pequeno, nasceu com 33 semanas, 1,900 kg e 37 cm e veio direto ao meu peito, infelizmente por poucos minutos, pois foi a UTI neonatal por variados motivos.

Nem 48 horas após parto, eu estava muito bem e tive alta. Juan teve complicações normais a prematuros, ficou ainda um tempo no hospital. Para mim e para ele, essa escolha foi vantajosa, não sofri com as dores da cesárea enquanto passava dia e noite no hospital, com meu bebê. Tirava meu leite quando ainda não podia mamar e o bebia por sonda.  Muitas mães sabem o sofrimento de ter alta sem o filho nos braços, e meu sofrimento seria ainda maior com as dores de uma cirurgia que poderia ser evitada.

Após o parto, ouvi muitas criticas, principalmente de médicos me dizendo que foi irresponsabilidade um parto normal no meu caso. Pesquisei muito e descobri que cada caso é único e na hora deve ser analisado. Tive sorte de não ter medo do parto, apesar de ouvir minha mãe e minha irmã falando que jamais tentariam parto normal novamente, que era insuportável e desnecessário e tentavam sim me colocar medo. E tive sorte em ser atendida por uma equipe que não quis me empurrar uma cirurgia goela abaixo, que agiu clara e honestamente.

Juan com três meses e saudável, engravidei da Sophia. Dessa vez não era principiante e informação não me faltava. Quando fui a gineco, e informei meu desejo pelo parto normal novamente, ela se surpreendeu e me disse o quanto essa escolha era maravilhosa e que estava aliviada por não ter que passar nove meses tentando me explicar os porquês de um parto normal.

Essa gravidez foi muito calma. Chegaram as 40 semanas, nada de dilatação nem contrações, a médica me informou que não devia me preocupar, a nenê estava muito bem e podia vir a qualquer momento, e a não ser que fosse preciso antes, uma cesárea seria feita somente com 42 semanas.

Uns três dias após essa consulta, acordei numa madrugada com cólicas, que meu marido logo notou que não eram cólicas normais. Estava entrando em trabalho de parto, naturalmente, como eu desejava e dessa vez foi possível. Tudo foi bem rápido: as dores vieram com tudo e então, fomo deixar o Juan com minha mãe  para ir ao hospital.

Internei exatamente as 4h30 da manhã, sem nenhuma dilatação, somente contrações em intervalos de tempo extremamente pequenos. A dor era enorme, penso que no outro parto, por estar muito mal, eu não senti muito a dor da contrações, não como essas. Eu apertava a mão do meu marido tão forte que ele chegava a se assusta.

Fiquei com medo quando falaram sobre não ter dilatação, me imaginei horas com aquelas dores e quase me desesperei, mas em nenhum momento fui pressionada para a cesárea, mesmo sendo uma cidade pequena e o médico ter sido acordado em sua casa para ir ao plantão obstétrico no hospital, nada disso fez com que ele, por não querer correr o risco de ficar horas me acompanhado, me dissesse algo que eu optaria por cesárea, comportamento médico esse que não ocorre em muitos casos, inclusive na pequena cidade serrada gaúcha que eu morava.

Priscila amamentando Sophia logo após o parto.Já no quarto, veio uma dor muito mais forte. Chamei as enfermeira e logo veio o médico e fomos informados de que estava com 8 centímetros de dilatação. Dali foi tudo muito rápido: fomos para a sala de parto, quando cheguei lá, a Sophia já estava prontinha para nascer.

As 5h29 da manhã, ela nasceu, laçada pelo cordão umbilical, rochinha, até hoje olho o vídeo e vejo o doutor lhe tirando o cordão do pescoço ainda enquanto apenas sua cabeça estava para fora.Todos seus sinais estavam bons e ela direto veio para meus braços, meu peito, meu cheiro.

E novamente me senti sortuda por não me deixar abater pelo medo que senti, por não ter pedido uma cirurgia por desespero da dor, por ter sido agraciada por um parto maravilhoso, sem medicamentos em que pude sentir cada momento, mesmo que doloroso.

Enquanto vários médicos do posto de saúde que consultei diziam que era absurdo a mulher sentir dor se podia evitar, diziam que parto normal era uma agressão, tive sorte em ter uma profissional que me apoiou, um marido que me ajudou e um lindo filho nascido de parto normal, mesmo induzido. Sai do hospital em 24 hrs, com minha filha nos braços e meu filho me aguardando lá fora, pude ir para casa e aproveitar os dois sem a recuperação de uma cirurgia.

Não quero me exibir nem me vangloriar, mas preciso contar minha história, porque me orgulho dela, me orgulho de meus partos, de mim, e isso não é errado. Também não é errada a cesárea, ninguém é menos mãe por optar pela cesárea “conscientemente”, ou por necessitar de uma. Mas é errado uma sociedade médica que abomina o parto normal, que não trabalha com transparência, por egoísmo e preguiça.

Também discordo de mulheres que optam pela cesárea pensando apenas nelas mesmas, sem antes buscar toda a infromação sobre todos os procedimentos, isso também é egoísmo. Menos mãe? Não mesmo. Mas tenho o direito a uma opinião, como muitas tem também sobre mim.

Também é errado ter um parto normal por exibicionismo. Para mostrar-se mais mulher que as outras que por muitos motivos não o fizeram. Isso também não é motivado por principios, e sim por egoísmo. Como também é muita hipocrisia mascarar os próprios motivos, admiro quem é sincera e bem resolvida consigo mesma e assume sua opção verdadeira pelos verdadeiros motivos. Não por dever satisfação, mas por ser um ato generoso de sinceridade com as outras mulheres que um dia poderão passar pela mesma situação, ser sincera, falar como sente-se após isso, sendo esse sentimento bom ou não.

Enquanto o governo coloca na televisão campanhas sobre parto normal e aleitamento materno, os profissionais públicos da saúde, muitos deles, pregam o contrário em hospitais e postos de saúde Brasil a fora. É fato que essa é uma questão que requer uma revisão, um projeto em massa, que prepare a comunidade brasileira inteira para a verdade em todos os sentidos. Então teremos mulheres em trabalhos de partos conscientes do que estão fazendo, bem resolvidas e bem informadas, e não agindo por resultado de atitudes de uma sociedade preconceituosa e influenciada por médicos preguiçosos, sim, pois não vejo outro motivo para assumir os riscos de uma cirurgia sem necessidade, senão para evitar a fadiga de longas e demoradas horas de um trabalho de parto imprevisto e impossível de ser agendado para um horário comercial que lhe for conveniente. Penso onde estão os princípios morais e éticos que juram ao tornarem-se médicos.

Também deve-se começar a denunciar e punir médicos e enfermeiras que debocham da mulher em trabalho de parto, humilhando-a e fazendo sentir vergonha, pedindo pela cirurgia para acabar com as dores e não mais “atrapalhar com suas dores”. Não passei por isso, mas se passasse, sinto-me na obrigação com todas as mulheres, de denunciar e exigir retratações e punições.

Muitas vezes as mulheres escolhem sim a cesárea, mas não é uma vontade sua, ela age sob pressão, da equipe do hospital, de outras mulheres que a fazem sentir vergonha das dores do parto. Meus partos foram muito rápidos, o primeiro induzido durou umas 4 horas no máximo o trabalho, e o segundo fiquei pouco mais de uma hora em trabalho de parto, por isso não me senti pressionada de forma alguma. Mas quando as dores são insuportáveis e o tempo parece não passar, não respondemos mais por nós mesmas e ficamos completamente manipuláveis.

Minha irmã no mesmo hospital, mas com outro médico, o médico que diz achar um absurdo uma mulher optar pelo parto normal. Com nem uma hora de trabalho de parto e quase 6 centímetros de dilatação, ouviu que precisava fazer uma cesárea de emergência, porque ainda demoraria horas e perguntou o que ela achava de ficar horas com as dores. Ela cedeu e digo mais, ela jura que jamais tentará um parto normal novamente, por medo das horas com dor. Tudo isso resultado de um médico inconsequente. O menino dela nasceu uma semana antes do meu, mas me recuperei muito antes dela que havia feito a cirurgia.

Atitudes médicas assim devem ser combatidas, discutidas e esclarecidas. Um médico que pressiona por uma cesareana desnecessária está abusando do poder. Dificilmente questionaremos o médico, afinal, ele é medico! O medo de discordar e continuar com o parto é enorme, afinal, tememos pelo nosso filho.

Pena que isso aprendemos sozinhas, não temos profissionais dispostos a gastar seu precioso tempo no preparando de forma verdadeira para esta fase, e isso muitas vezes a torna desgatante, para mãe e filho. Precisamos aceitar que cada caso é um caso, e não nos guiar apenas pelo o que os outros dizem ser certos. Vale lembrar que mulher que foge do senso comum, não importando como, sempre será alvo de críticas, de todas as espécies. O melhor é não deixar deixar se atingir.

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jan

22

2012

Para recuperar-se de uma desnecesária »

por Nanda

Uma das coisas mais difíceis para uma mulher que tenha sofrido uma cesariana desnecessária – e esteja consciente do fato – é conseguir aceitar o fato de que foi desnecessária. Quando eu escrevi meu relato de parto, eu ainda não tinha essa certeza, e não tinha certeza de que queria tê-la. Buscamos justificativas, prontamente fornecidas pelos médicos: parada de progressão, circular de cordão, falta de dilatação. Todas aquelas justificativas que sabemos serem vazias, aquelas que deveríamos ter evitado. E enquanto não estivermos prontas para aceitar o fato de termos perdido a batalha, elas serão suficientes.

Uma vez compreendidas enquanto farsas, a aceitação transforma-se em revolta: contra o médico, aquele safado que nos enganou e nos levou a uma cirurgia. Contra a pressão familiar, que apareceu no hospital e nos colocou na corda-bamba. Contra o próprio hospital, cujo entra-e-sai de enfermeiros ocasionou a tal parada de progressão. Muita gente para por aí.

O difícil, difícil mesmo, é admitir a parte que cabe à mulher na realização dessa cirurgia. Admitir ter ido pro hospital cedo demais, admitir a desinformação, admitir ter desistido de lutar, admitir que não, ninguém a amarrou na maca e sedou-a para que a cirurgia acontecesse. Admitir que preferimos confiar no médico falando algo sobre um possível futuro sofrimento fetal a confiar nas informações que você tem no momento e o que está sentindo em relação ao seu corpo. Depois de enxergar isso é que vem a verdadeira revolta. E aí, barriga cortada, alma dilacerada, existe algo a se fazer?

O primeiro passo é escrever o relato de parto. Talvez novamente, talvez internamente. E aí, lutar. Lutar para que o próximo parto não seja assim. Lutar para que o parto de pessoas próximas não aconteça da mesma maneira – desde que exista a abertura para isso. Seja criando um blog, levantando bandeiras, indo para a linha de frente da militância, fazendo um curso de doula, ou só conversando com quem queira ouvir. Não muda a realidade do próprio parto, mas ajuda a mudar a realidade de outras pessoas.

Mas também dá pra fazer mais. A Ceila, do blog Desabafo de Mãe, fez um post sobre o que é a ANS e qual é o seu papel na diminuição das taxas de cesariana no país. Lá ela fala sobre o que você pode fazer em relação à sua cesariana desnecessária: denunciar o plano de saúde, o hospital, o obstetra. Mobilizar-se para que o plano de saúde seja obrigado a informar a taxa de partos normais dos obstetras cadastrados. E como é uma ação embrionária, cabe a nós saber o que podemos fazer através dos meios legais, mas o importante é fazer.

Será que agora vai?

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jan

21

2012

A falácia do cardápio infantil »

por Tata

Eu adoro comer. Aqui em casa, somos todos bons garfos. E como gostamos de comer comidas diferentes, um dos nossos programas favoritos é sair para comer fora. Sempre fizemos muito isso, desde antes das meninas nascerem. Depois delas, passei a prestar atenção em coisas diferentes na hora de escolher um restaurante, e comecei a fuçar por aí à procura de restaurantes bacanas, com boas opções não só para nós, mas para as filhotas também.

No começo, sempre me empolgava quando ficava sabendo que o restaurante tal tinha “cardápio infantil”, ou “menu kids”. Do alto de minha inocência, eu imaginava alguma comida bem bacana e balanceada, pratos gostosos ao estilo da culinária do restaurante, mas com alguma ‘pegada’ que chamasse a atenção dos pequenos: uma decoração diferente do prato, um ingrediente qualquer que deixasse a comida mais colorida, enfim.

Pois sim. Qual não foi a minha decepção quando fui aos poucos descobrindo que, na imensa maioria das vezes, o tal do ‘cardápio infantil’ se resumia a um prato com arroz, hambúrgueres e grelhados e batatas smile, ou duas opções de macarrão – invariavelmente, uma com molho vermelho, outra com molho branco. Então é isso? Criança só come arroz, carne e batata frita (quando muito, feijão!), ou macarrão? Será mesmo?

Engraçado como há mesmo uma cultura de que legumes, verduras, comidas elaboradas, com ingredientes diferenciados, não são “comida de criança”. Não é à toa que vemos por aí tantas crianças torcendo o nariz para qualquer coisa que fuja do menuzinho básico carboidrato-carne – pois não é isso que ensinamos a elas? Que criança gosta mesmo é de hambúrguer e batata frita, ou spaghetti com molho?

Nossas meninas vão conosco a todo tipo de restaurante. Comem de tudo. Nunca pedimos os tais “pratos infantis”, escolhemos as comidas adultas, mesmo, e elas devoram sem grandes dificuldades. As pessoas ao redor se surpreendem ao vê-las comendo sushis e sashimis, frutos do mar, paellas, para ficar só em alguns dos restaurantes aos quais já as levamos.

É claro que elas não gostam de tudo que experimentam. Têm suas preferências, seus gostos pessoais. Mas elas têm o hábito de experimentar, e isso é o que acho mais bacana. Ao invés de já reduzir as opções da criança, porque afinal, “é só disso mesmo que ela gosta”, dar a ela a oportunidade de conhecer sabores e ingredientes novos, enriquecendo seu paladar e refinando seu gosto pelos alimentos.

Criança não gosta de camarão? De abóbora? De fondue? De cogumelo? De sushi? De acarajé? De suflê? De paella? De curry? Pode gostar, sim. Mas ela precisa ter a oportunidade de experimentar.

Nós aqui continuamos à procura de restaurantes com opções realmente bacanas pensadas especialmente para os pequenos fregueses, com ingredientes variados, combinações interessantes, e quantidade adequada ao estômago da criançada. Pratos pensados não para encher a barriga da criança o mais rápido possível e com o menor esforço, mas para agradar o paladar e ensinar o prazer da degustação de uma boa comida. Estabelecimentos onde se compreenda que ter um espaço adequado às crianças não significa ter monitores fazendo bichinhos de balão, televisão em canal de desenho, ou um enorme brinquedão aos fundos do salão, para que as crianças brinquem (depois de terem enchido a barriga com uma porcaria qualquer de valor nutricional praticamente nulo), enquanto os adultos se alimentam.

Comer bem, equilibrando prazer, cultura e saúde é um aprendizado, para a vida toda. Se esse aprendizado não começa na infância, vai começar quando?

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jan

20

2012

Rede virtual, rede real »

por Kalu

Encontro de Pós parto do Ishtar

Em uma entrevista a uma leitora do Blog que está fazendo uma tese de mestrado sobre nós ela me perguntou se eu acreditava que os Blogs e listas de discussão substituem a rede de apoio, que Laura Gutman defende como um dos grandes problemas da maternidade moderna.

Acredito que a internet é capaz de interconectar pessoas com pensamentos e estilo de vida semelhantes. Apesar das câmeras, chats, o contato físico, a convivência  é fundamental. É através da observação, das tarefas cotidianas que aprendemos e nos  revelamos como pessoas reais. É fácil ser perfeito em uma comunicação mediada por uma máquina.

E para quem acredita, a energia feminina nos equilibra, nutre e fortalece.  Estar em uma rede de mulheres conectadas em apoio mútuo virtualmente é maravilhoso. Tanto que minhas boas amigas aqui de Belo Horizonte foram fruto de minhas buscas e compartilhares dentro do universo do parto humanizado.

Amanhã estaremos reunidas com nossos filhotes, papeando, cozinhando e entre interrupções dos pequenos, filosofando sobre a vida e as múltiplas facetas que fazem o ser mulher.

Informação, apoio virtual são ferramentas essenciais. Mas nada substitui um abraço real.

Por isso procure estabelecer vínculos com mães com vidas semelhantes a sua e se reúnam sempre para multiplicar a energia feminina e para que possamos fortalecer nossa rede de apoio, crescendo coletivamente.

Bom final de semana para vocês.

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jan

19

2012

A alienação da mulher e o parto »

por Nanda

Um dos conceitos marxistas mais difundidos de forma geral é o de alienação. Para Marx, a alienação do trabalhador é a única forma de manter o status quo, uma vez que ele não se percebe no produto de seu trabalho. Colocado numa linha de produção onde aperta parafuso atrás de parafuso, nunca vai conseguir perceber aquele parafuso específico na imensidão do carro. Ele não percebe que produziu o carro, por isso não se enxerga no direito de possuir o carro. Você sabe, como Chaplin em Tempos Modernos.

Por causa do meu ceticismo, sempre tive um problema com o aspecto místico que tende a envolver o gestar e parir. Com aquela história de sagrado feminino, com a apropriação do termo empoderamento – originalmente feminista – com o viés místico da coisa. Não quer dizer que eu tenha problemas com as pessoas que enxergam através desse prisma, vejam bem, é que eu simplesmente não conseguia – e não consigo – me identificar com isso. Mas ao perceber a analogia fácil da alienação de Marx com a alienação feminina em relação ao próprio corpo, algumas janelas se abriram.

Semana passada, estavam discutindo em uma lista a notícia sobre a mulher que tinha duas vaginas e dois úteros. O que me chamou a atenção não foi a possibilidade dela ter duas gestações de tempos diferentes, ou como seria a fisiologia do parto, mas o fato de que ela só descobriu essa anomalia aos 18 anos. Claro, existe a possibilidade de a) ser tudo uma farsa ou b) ela estar aumentando bastante os fatos para causar o fator de choque. Mas segundo ela, foi preciso a intervenção do namorado e uma ida ao médico para o tal diagnóstico.

Isso me levou a pensar sobre o quanto as mulheres estão alienadas. Alienadas de si, de seu corpo. Como seria possível que alguém só descobrisse algo como possuir duas vaginas aos 18 anos de idade. A masturbação feminina é um tabu, a cólica é suprimida com analgésicos ao primeiro sinal, a menstruação pode ser suspensa com hormônios e o parto é realizado pelo médico. Não estou dizendo que ninguém deva gostar de estar menstruada, ou que deva sofrer cólicas descomunais sem analgésico, mas existem várias outras facetas da sexualidade femininas sendo ignoradas ou deturpadas.

Existe uma falsa ideia de liberdade sexual sendo apregoada pelas mulheres, estampada na capa das revistas femininas: “Como enlouquecer seu homem na cama.” Essas mesmas revistas, e também as aulas de educação sexual, nos dizem que é OK tocar a si mesma, mas dificilmente com o intuito de sentir prazer. Os filmes pornôs nos mostram mulheres com o objetivo único de dar prazer ao homem (mesmo quando são duas mulheres), mulheres irreais, que não se parecem em nada comigo ou com você, e simplesmente continuamos alienadas do nosso corpo e do que podemos fazer com ele.

Ao engravidarmos, precisamos de exames para comprovação, ecografias para manutenção, cesarianas para conclusão. A alienação do próprio corpo se perpetua dessa maneira, nos entregamos agora aos médicos para fazer com que tudo dê certo. O pré-natal é importante e deve ser feito sim, mas quantas US são indicadas durante a gestação? 2? 3? Quantas são feitas na verdade, somente para que possamos exteriorizar o rosto em formação daquela criança que está crescendo dentro do nosso corpo?

A sexualidade feminina é feminista. É política. É graças à sexualidade que engravidamos, e o parto é sexual, sensual, sensitivo. É impossível parir alienada do próprio corpo, eu bem sei. E muitas mulheres acabam na anestesia, na ocitocina sintética ou em outras intervenções justamente por causa dessa alienação. Não é uma coisa mística, sobrehumana. Não é um retrocesso, uma limitação do papel da mulher ao de reprodutora, aquela ilusão de que o parto só é tranquilo para quem se aceita enquanto primitiva. Esse é um argumento surpreendentemente usado por feministas para dizer que não, a mulher não precisa sentir as dores, que liberdade é escolha. Escolhas devem ser feitas com ciência. Liberdade é informação e conhecimento.

Para parir é preciso conhecer-se. Para gozar é preciso conhecer-se. Para amar a si mesma, é preciso conhecer-se. Desalienar-se. Enxergar cada parafuso, cada costura que faz o todo. Entender como funciona e colocar para funcionar. Só assim ninguém poderá tomar posse de seu corpo e dizer que você não poderá tê-lo. Quem sabe esse seja um passo para entender outras coisas em outros aspectos da sua vida?

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jan

18

2012

A grama do vizinho »

por Tata


imagem: hipervitaminose.com.br

Sabe aquele dito popular que diz que “a grama do vizinho é sempre mais verde”? Então. Quando eu era criança, acreditava piamente nessa história. Sempre achava que a vida de todas as minhas amigas era melhor do que a minha.

Eu, que sou filha de pais separados, que tive uma porção de questões complicadas para lidar na relação com meu pai, que morei boa parte da infância e adolescência com meus avós, sempre achava que as amigas, primas e todas as crianças ao meu redor viviam dentro de um comercial de margarina: pais perfeitos, família perfeita, casa perfeita, vida perfeita.

Isso durou até que bastante tempo. Foi só no final da adolescência que comecei a desconstruir esse pensamento, que comecei a perceber que, de fora, qualquer vida pode parecer perfeita, organizada, linda. Mas que do lado de dentro, a história é outra. Imperfeição é coisa que faz parte da vida, de todos.

Pois de uns tempos pra cá, tem acontecido uma coisa curiosa: de vez em quando, percebo que alguém projeta em mim uma imagem muito semelhante à que eu projetava nas minhas amigas, quando criança. Um olhar de idealização – acreditam que eu tenho um casamento perfeito, uma casa perfeita, que sou uma mãe perfeita, com filhas perfeitas, a vida perfeita.

Minha vida é feita de erros e acertos, como a de todas as outras pessoas. Estou caminhando e aprendendo – a vida, afinal, é para isso mesmo. Vivo uma relação bacana, cheia de amor e respeito, mas meu marido e eu brigamos, como a maioria dos casais (aliás, nossas brigas são memoráveis, já que somos os dois muito passionais, e por qualquer bobagem vamos ao pico da discussão). Tento ser a melhor mãe que posso ser, é uma busca de todos os dias, mas não sou perfeita – perco a paciência de vez em quando, falo mais alto e com menos delicadeza do que gostaria, grito bem mais vezes do que acho aceitável. Quando isso acontece, tento sempre reconhecer meu erro, pedir desculpas, e me esforço para agir de um jeito melhor, da próxima vez – o que às vezes acontece, e às vezes não. Preocupo-me bastante com a alimentação da família, cuido eu mesma da comida diária e procuro priorizar alimentos orgânicos, evitar os industrializados, mas não neurotizo, a idéia é fazer o melhor possível, não alcançar a perfeição. E como dona de casa, bem, aí acho que posso dizer que sou um perfeito fracasso, porque não dou conta da rotina diária de cuidados domésticos sem a preciosa ajuda da minha querida ajudante Fátima, meu braço direito aqui em casa.

Essa é a minha vida. Não é comercial de margarina, não é exemplo de coisa nenhuma, mas querem saber de uma? Eu até que gosto. Estou satisfeita. Com cada acerto e com cada erro também, que me faz aprender, crescer, melhorar.

E não se iludam: às vezes, a menina de doze anos ainda se agita aqui dentro do peito, eriçada. Mergulhada em suas inseguranças, ela ainda se permite acreditar que é sempre na casa ao lado onde há mais harmonia, mais cuidado, mais acerto, mais organização e mais estrutura.

A diferença é que hoje, quando isso acontece, eu já sei acalmá-la. Com palavras doces, eu a faço lembrar que o tom de verde do jardim do vizinho não tem a menor importância – é dele, e não me diz respeito. O que importa de verdade é a minha grama, crescendo indisciplinada, a seu tempo, cheia de meios tons. E colorida do verde mais lindo que eu poderia querer, porque é meu, único, e especial. Como eu – e como cada uma de nós.

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