Na minha cabecinha, gravidez era uma maravilha, algo onde tudo é perfeito e nada dá errado. Quando fui a consulta de pré-natal com 32 semanas, me queixei de muita dor de cabeça e tontura, eu estava muito inchada, mas nem liguei, afinal, gravidez incha, mas minha médica notou que eu, sem conseguir me alimentar corretamente, com vômitos diários, havia aumentado uns 20 kg entre uma consulta e outra, minha pressão arterial estava alta e ela me encaminhou ao hospital para uma avaliação.
De ali em diante, meu caso somente se agravava, minha pressão não parava de subir, e no hospital os exames detectaram pré-eclâmpse, fui internada imediatamente, devido aos picos da pressão arterial, que variavam entre 18.12 e 20.12. Foi uma semana tentando controlar a pressão arterial, enquanto meu corpo e meu filho estavam sendo preparados para um possível parto prematuro.
Até que um dia, mesmo com os tratamentos e o repouso, amanheci com a pressão arterial marcando 21.12, e fui encaminhada para um parto prematuro. A equipe médica inteira conversou comigo e com meu marido, existia a probabilidade da cesárea ou do parto induzido, mas meu filho não nasceria de forma natural, se esperássemos por isso, seria tarde demais, para mim e para ele, pois eu não estava entrando em trabalho de parto espontaneamente. Fiquei chocada, sempre alimentei o desejo do parto normal, e minha médica me apoiou sempre, nunca me fez pensar em fazer cirurgia caso o caso não indicasse.
Perguntei sobre o parto induzido pois minha desinformação era tamanha que sequer sabia que existia, sequer sabia que algumas mulheres usam o mesmo método para abortar. Me foi explicado o procedimento, e que, caso demorasse muito, a cirurgia se faria necessária, mas que ainda poderiam tentar o normal induzido. Os dois trariam riscos, para mim e meu bebê, e, mesmo diante de várias mulheres com o mesmo problema fazendo cesárea (era um hospital público, onde até a hora de ir a sala de parto, ficamos no mesmo local) eu preferi o parto normal induzido.
Nessa altura, eu já estava com sonda, pois se levantasse para ir ao banheiro minha pressão subia demais e corria o risco de um AVC. Questionei a equipe sobre o parto elevar minha pressão e me garantiram que a qualquer sinal de risco e perigo, estariam preparados para uma cesárea de emergência.
Começou o procedimento e não demorou muito para as dores e o início da dilatação. Eu e meu bebê sendo monitorados o tempo todo, com
diversos equipamentos e a equipe ao nosso lado, sempre conversando comigo, questionando. Hoje sei que isso é também para avaliar meu estado, minha lucidez. Algumas horas depois, o momento chegou, meu marido saiu correndo trocar de roupa, quando chegou a sala de parto, foram alguns minutos até o bebê vir a luz. Ele era muito pequeno, nasceu com 33 semanas, 1,900 kg e 37 cm e veio direto ao meu peito, infelizmente por poucos minutos, pois foi a UTI neonatal por variados motivos.
Nem 48 horas após parto, eu estava muito bem e tive alta. Juan teve complicações normais a prematuros, ficou ainda um tempo no hospital. Para mim e para ele, essa escolha foi vantajosa, não sofri com as dores da cesárea enquanto passava dia e noite no hospital, com meu bebê. Tirava meu leite quando ainda não podia mamar e o bebia por sonda. Muitas mães sabem o sofrimento de ter alta sem o filho nos braços, e meu sofrimento seria ainda maior com as dores de uma cirurgia que poderia ser evitada.
Após o parto, ouvi muitas criticas, principalmente de médicos me dizendo que foi irresponsabilidade um parto normal no meu caso. Pesquisei muito e descobri que cada caso é único e na hora deve ser analisado. Tive sorte de não ter medo do parto, apesar de ouvir minha mãe e minha irmã falando que jamais tentariam parto normal novamente, que era insuportável e desnecessário e tentavam sim me colocar medo. E tive sorte em ser atendida por uma equipe que não quis me empurrar uma cirurgia goela abaixo, que agiu clara e honestamente.
Juan com três meses e saudável, engravidei da Sophia. Dessa vez não era principiante e informação não me faltava. Quando fui a gineco, e informei meu desejo pelo parto normal novamente, ela se surpreendeu e me disse o quanto essa escolha era maravilhosa e que estava aliviada por não ter que passar nove meses tentando me explicar os porquês de um parto normal.
Essa gravidez foi muito calma. Chegaram as 40 semanas, nada de dilatação nem contrações, a médica me informou que não devia me preocupar, a nenê estava muito bem e podia vir a qualquer momento, e a não ser que fosse preciso antes, uma cesárea seria feita somente com 42 semanas.
Uns três dias após essa consulta, acordei numa madrugada com cólicas, que meu marido logo notou que não eram cólicas normais. Estava entrando em trabalho de parto, naturalmente, como eu desejava e dessa vez foi possível. Tudo foi bem rápido: as dores vieram com tudo e então, fomo deixar o Juan com minha mãe para ir ao hospital.
Internei exatamente as 4h30 da manhã, sem nenhuma dilatação, somente contrações em intervalos de tempo extremamente pequenos. A dor era enorme, penso que no outro parto, por estar muito mal, eu não senti muito a dor da contrações, não como essas. Eu apertava a mão do meu marido tão forte que ele chegava a se assusta.
Fiquei com medo quando falaram sobre não ter dilatação, me imaginei horas com aquelas dores e quase me desesperei, mas em nenhum momento fui pressionada para a cesárea, mesmo sendo uma cidade pequena e o médico ter sido acordado em sua casa para ir ao plantão obstétrico no hospital, nada disso fez com que ele, por não querer correr o risco de ficar horas me acompanhado, me dissesse algo que eu optaria por cesárea, comportamento médico esse que não ocorre em muitos casos, inclusive na pequena cidade serrada gaúcha que eu morava.
Já no quarto, veio uma dor muito mais forte. Chamei as enfermeira e logo veio o médico e fomos informados de que estava com 8 centímetros de dilatação. Dali foi tudo muito rápido: fomos para a sala de parto, quando cheguei lá, a Sophia já estava prontinha para nascer.
As 5h29 da manhã, ela nasceu, laçada pelo cordão umbilical, rochinha, até hoje olho o vídeo e vejo o doutor lhe tirando o cordão do pescoço ainda enquanto apenas sua cabeça estava para fora.Todos seus sinais estavam bons e ela direto veio para meus braços, meu peito, meu cheiro.
E novamente me senti sortuda por não me deixar abater pelo medo que senti, por não ter pedido uma cirurgia por desespero da dor, por ter sido agraciada por um parto maravilhoso, sem medicamentos em que pude sentir cada momento, mesmo que doloroso.
Enquanto vários médicos do posto de saúde que consultei diziam que era absurdo a mulher sentir dor se podia evitar, diziam que parto normal era uma agressão, tive sorte em ter uma profissional que me apoiou, um marido que me ajudou e um lindo filho nascido de parto normal, mesmo induzido. Sai do hospital em 24 hrs, com minha filha nos braços e meu filho me aguardando lá fora, pude ir para casa e aproveitar os dois sem a recuperação de uma cirurgia.
Não quero me exibir nem me vangloriar, mas preciso contar minha história, porque me orgulho dela, me orgulho de meus partos, de mim, e isso não é errado. Também não é errada a cesárea, ninguém é menos mãe por optar pela cesárea “conscientemente”, ou por necessitar de uma. Mas é errado uma sociedade médica que abomina o parto normal, que não trabalha com transparência, por egoísmo e preguiça.
Também discordo de mulheres que optam pela cesárea pensando apenas nelas mesmas, sem antes buscar toda a infromação sobre todos os procedimentos, isso também é egoísmo. Menos mãe? Não mesmo. Mas tenho o direito a uma opinião, como muitas tem também sobre mim.
Também é errado ter um parto normal por exibicionismo. Para mostrar-se mais mulher que as outras que por muitos motivos não o fizeram. Isso também não é motivado por principios, e sim por egoísmo. Como também é muita hipocrisia mascarar os próprios motivos, admiro quem é sincera e bem resolvida consigo mesma e assume sua opção verdadeira pelos verdadeiros motivos. Não por dever satisfação, mas por ser um ato generoso de sinceridade com as outras mulheres que um dia poderão passar pela mesma situação, ser sincera, falar como sente-se após isso, sendo esse sentimento bom ou não.
Enquanto o governo coloca na televisão campanhas sobre parto normal e aleitamento materno, os profissionais públicos da saúde, muitos deles, pregam o contrário em hospitais e postos de saúde Brasil a fora. É fato que essa é uma questão que requer uma revisão, um projeto em massa, que prepare a comunidade brasileira inteira para a verdade em todos os sentidos. Então teremos mulheres em trabalhos de partos conscientes do que estão fazendo, bem resolvidas e bem informadas, e não agindo por resultado de atitudes de uma sociedade preconceituosa e influenciada por médicos preguiçosos, sim, pois não vejo outro motivo para assumir os riscos de uma cirurgia sem necessidade, senão para evitar a fadiga de longas e demoradas horas de um trabalho de parto imprevisto e impossível de ser agendado para um horário comercial que lhe for conveniente. Penso onde estão os princípios morais e éticos que juram ao tornarem-se médicos.
Também deve-se começar a denunciar e punir médicos e enfermeiras que debocham da mulher em trabalho de parto, humilhando-a e fazendo sentir vergonha, pedindo pela cirurgia para acabar com as dores e não mais “atrapalhar com suas dores”. Não passei por isso, mas se passasse, sinto-me na obrigação com todas as mulheres, de denunciar e exigir retratações e punições.
Muitas vezes as mulheres escolhem sim a cesárea, mas não é uma vontade sua, ela age sob pressão, da equipe do hospital, de outras mulheres que a fazem sentir vergonha das dores do parto. Meus partos foram muito rápidos, o primeiro induzido durou umas 4 horas no máximo o trabalho, e o segundo fiquei pouco mais de uma hora em trabalho de parto, por isso não me senti pressionada de forma alguma. Mas quando as dores são insuportáveis e o tempo parece não passar, não respondemos mais por nós mesmas e ficamos completamente manipuláveis.
Minha irmã no mesmo hospital, mas com outro médico, o médico que diz achar um absurdo uma mulher optar pelo parto normal. Com nem uma hora de trabalho de parto e quase 6 centímetros de dilatação, ouviu que precisava fazer uma cesárea de emergência, porque ainda demoraria horas e perguntou o que ela achava de ficar horas com as dores. Ela cedeu e digo mais, ela jura que jamais tentará um parto normal novamente, por medo das horas com dor. Tudo isso resultado de um médico inconsequente. O menino dela nasceu uma semana antes do meu, mas me recuperei muito antes dela que havia feito a cirurgia.
Atitudes médicas assim devem ser combatidas, discutidas e esclarecidas. Um médico que pressiona por uma cesareana desnecessária está abusando do poder. Dificilmente questionaremos o médico, afinal, ele é medico! O medo de discordar e continuar com o parto é enorme, afinal, tememos pelo nosso filho.
Pena que isso aprendemos sozinhas, não temos profissionais dispostos a gastar seu precioso tempo no preparando de forma verdadeira para esta fase, e isso muitas vezes a torna desgatante, para mãe e filho. Precisamos aceitar que cada caso é um caso, e não nos guiar apenas pelo o que os outros dizem ser certos. Vale lembrar que mulher que foge do senso comum, não importando como, sempre será alvo de críticas, de todas as espécies. O melhor é não deixar deixar se atingir.