mai

16

2012

O tempo é deles »

por Tata

Não é raro a gente falar aqui sobre como é importante e bacana a gente ter respeito com o tempo dos nossos filhotes, para todas as coisas da vida. Libertar-se das expectativas, recusar as comparações, recusar todo e qualquer raciocínio que principie com “tem que ser assim”. É uma atitude para exercitar cotidianamente, nos pequenos e grandes acontecimentos.

Aqui em casa, temos uma pequenina que não nos deixa esquecer a importância desta atenção e deste respeito, nem mesmo por um instante. Chiara, nossa caçulinha, parece ter vindo ao mundo para nos ensinar esta lição: ter tranquilidade e confiança suficiente para não apressar as etapas, os aprendizados, as conquistas da vida de uma criança. Ela tem uma personalidade muito ‘pronta’, que não aceita rótulos e generalizações – muito menos apressamentos bobos e desnecessários.

Foi assim, aliás, já desde a barriga: 40 semanas de gestação, certinho? Que nada! Lá se foram as 40 semanas, lá se foram 41 semanas, e só perto das 42 é que a bichinha resolveu dar o ar da graça. Antes disso, não houve reza, caminhada, acupuntura ou ‘trio de hots’ que fizesse engrenar o trabalho de parto. E quando foi hora de vir, veio, sem rodeios e sem demora: em pouco mais de três horas após a primeira contração pra valer, Chiara chegava ao mundo, sem chorar, de olhos abertos e curiosos, pronta para a vida.

Depois, veio a introdução de alimentos. Começamos com sete meses, mas quem disse que a mocinha estava disposta? Quando comia uma colherzinha de café, a gente comemorava. Não era a hora dela, e enquanto esta hora não chegou, não adiantava colocar o prato mais bonitinho, caprichado, delicioso na frente dela. Depois do primeiro aniversário, aí sim, ela se decidiu: tinha chegado a hora de sentir os gostos do mundo. E já começou com o pé no acelerador, batendo uns pratões que a gente até assustava, e experimentando de tudo o que via pela frente.

Foi assim também para engatinhar, coisa que a mocinha foi fazer com um ano de idade, tempo considerado ‘tarde’ pelos teóricos de plantão. Depois, para andar – só com um ano e sete meses. Enquanto não era a hora, não adiantava querer forçar coisa alguma. A bichinha empacava, e não seguia em frente de jeito nenhum. Mas quando decidia, decidia – ia adiante sem arrependimentos, sem duvidar e sem olhar para trás. Em todos esses momentos, fomos obrigados a driblar a ansiedade, respirar fundo e encarar o aprendizado: o tempo da caminhada é deles, e não nosso.

Pois isso acaba de acontecer de novo: prestes a completar três anos de vida, a bichinha resolveu desfraldar. Assim, por si, pedindo com todas as letras, e muito segura de si. Já tínhamos tentado antes, lá pelos 2 anos e 8 meses, idade em que as irmãs mais velhas haviam encarado este desafio. Mas como de costume,          Chiara deixou bem claro que quem escolheria o momento seria ela, e não nós.

E foi agora, em pleno inverno (quem decidiu que desfralde TEM que ser feito no verão, com tempo quente e bom para secar roupas molhadas e deixar a criança peladinha, certamente não tinha em casa uma criança tão cheia de vontade e decisão como a nossa – #fato!), e como de costume, de uma hora para a outra, sem recuos e sem indecisão: um belo dia, a mocinha decidiu que não usaria mais fralda. Já faz mais ou menos uma semana, e tivemos pouquíssimos acidentes (o que, de resto, confirma minha teoria, elaborada por ocasião do desfralde das mais velhas, de que desfralde, quando é feito na hora certa – da criança – acontece de maneira lisa e tranquila, sem acidentes e sem stress). E a bichinha sabe mesmo de si, não precisa que fiquem lhe lembrando coisa alguma. Quando sente vontade, avisa, vai lá e faz o que tem que fazer, sem firulas e sem dramas. Se já lhe puseram a fralda (para dormir, ou para passeios longos), mas ela ainda está perto do pinico e sente vontade, arranca de uma vez e se resolve – sem pedir licença nem perguntar se pode ser. Esta é a minha menina: cuca fresca e firmeza são suas palavras de ordem.

É mesmo verdade: nossos filhos, quando chegam ao mundo, trazem consigo uma sabedoria infinita, sabem muito das próprias coisas, dos próprios tempos, das próprias possibilidades. Quando conseguimos respeita-los e não atropelar, eles seguem adiante de maneira tranquila, sem sofrimento. Ninguém sabe melhor do que eles o que podem ou não fazer, do que dão conta, e do que ainda não. Cabe a nós ter sensibilidade e atenção, e é claro, estar presente para apoiar e orientar quando eles pedem orientação.  Mas quando demonstram querer e poder caminhar pelas próprias pernas, ter tranquilidade e humildade para decidir menos, interferir menos. E ouvir mais.

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mai

15

2012

Mães Coragem e Médicos Frouxos »

por Kalu

Raul nascido em casa nos braços de Karime Marcenes

Neste final de semana ganhei um grande presente de dias das mães: uma matéria publicada no Estado de Minas sobre o Parto Domiciliar. Apesar do medo inicial, a jornalista captou a essência do que significa parir em casa. Muito embora fique parecendo que parir em casa é mais uma experiência mística do que científica, a matéria prestou um belo serviço.

Karime, Catarina e Geozeli, citadas na matéria foram mulheres a quem tive a honra de acompanhar durante a gestação, parto e fotografar os nascimentos. As imagens que ilustraram a matéria foram fotos em que consegui captar o que significa parir no aconchego do lar.

No final da matéria, como o bom velho jornalismo prega, foi preciso ouvir o outro lado. Carlos Henrique Mascarenhas Silva – Obstetra e diretor de defesa profissional da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig) disse barbaridades risíveis vindas da arrogância da Obstetrix (matrix obstétrica). Vou citar algumas passagens:

“Como uma escolha de parto consciente (domiciliar) é a mesma coisa que dizer que vamos abdicar dos medicamentos, vacinas e dos cuidados hospitalares. Falar de parto em casa é o mesmo que dizer que não queremos o benefício da tecnologia na medicina”.

Essa é uma idéia bastante comum no meio médico tradicional de ver na mulher em trabalho de parto (ou gestante) como uma bomba relógio em que o bisturi salvador pode cortar os fios e desativá-la. Ainda se acredita que partos domiciliares são sem assistência, quando na verdade os mesmos são atendidos por uma equipe com muita experiência em partos (não em cirurgias, como é o saber médico), com treinamento de reanimação neonatal e sempre antenadas nas evidencias científicas. Geralmente por prestarem um atendimento tão próximo e contínuo, conseguem identificar qualquer problema e realizam a transferência antes da mesma se configurar uma situação de risco.

“Na Europa, mais especificamente na Holanda, dar à luz em casa começou há alguns anos. Mas muitos trabalhos científicos mostram que os nascimentos são piores quando ocorrem nessas situações. Lá, quando a mulher decide ter filhos em casa, é enviada uma equipe de enfermeiras bem treinadas para isso e há uma ambulância à disposição. O parto não pode estar distante mais do que 10 minutos de um hospital. Isso não é a realidade do nosso país. Aqui está ocorrendo um modismo, em que as pessoas não conseguem avaliar o risco”.

Sempre citam trabalhos científicos mas não mostram porque não existem. Podemos apresentar esta pesquisa da Dra Melania, que foi ouvida pelo jornal Estado de Minas, que mostra cientificamente que partos em casa são seguros e recomendados. Outra falácia no meio médico é de que na Holanda há uma ambulância na porta. Isso é uma grande mentira e demonstra claramente o desconhecimento médico da verdadeira realidade obstétrica na Holanda. E sobre os riscos… Apenas gestantes de baixo risco podem ter partos domiciliares e os riscos durante o Trabalho de Parto são avaliados durante o atendimento. Risco maior é submeter-se a uma cesárea sem trabalho de parto, aumentando em 3 vezes a mortalidade materna e neonatal, assim como o risco de necessidade de UTI para o despreparado pulmão do bebê.

“O parto é um momento dinâmico, não se pode dar certeza se será vaginal ou por cesariana. Nem sabemos se haverá algum problema durante o procedimento. A criança pode ter uma diminuição de batimento cardíaco, por exemplo. Em pleno século 21, é inadmissível que um bebê morra em casa, que tenha uma lesão cerebral por causa de baixa oxigenação no nascimento. A humanização do parto não quer dizer hospitalização. O hospital não tira a humanização de dar à luz, mas dá segurança. E não existe gestante de baixo risco. Isso é uma tentativa de substituição de mão de obra bem paga. Nenhuma entidade médica concorda com isso. Não abrimos mão da segurança à paciente.”

O que sabemos é que 85% das mulheres tem total possibilidade de ter um parto natural e o mesmo não acontece apenas por excesso de intervenções. Exames de toques, procedimentos desnecessários como lavagem intestinal, jejum, ocitocina sintética e anestesia são os fatores que levam o bebe, geralmente apresentar alterações cardíacas. Fisiologicamente quando isso acontece em um parto natural e domiciliar há tempo hábil para uma transferência. Todas as mulheres que desejam um parto domiciliar criam um plano B e C no caso de urgência e um médico de referência, que geralmente a acompanhou no prenatal, é acionado para o atendimento.

Fica claramente expresso pelo Dr. que na visão deles é uma questão de mercado, quando o mesmo se refere as bem pagas mão de obra. Aqui em Belo Horizonte ainda é impossível viver razoavelmente atendendo aos escassos partos domiciliares. E o valor cobrado é muito aquém do que se imagina. Muitos médicos cobram o mesmo valor, por fora do plano de saúde, com o papinho de vamos tentar seu normal e fazendo a mulher engolir que não tinha dilatação porque tentaram de tudo em 4 horas de Trabalho de Parto. Considerando que um parto, como da KArime, pode demorar 14 horas. E não significa 14 horas de dor. São 14 horas em que se ouve música, come-se, vai para a banheira, recebe massagem e escalda pés, chuveiro, beija o marido, dança, volta para a banheira, cochila-se, come-se e experimenta-se a sensação de encorajamento, segurança, força e amor.

Esse tipo de pensamento demonstra que estamos há anos luz da verdadeira assistência do parto humanizado, em que a mulher não é uma bomba relógio, que nem todas as gestações são de alto risco e a mesma não é uma doença. Para a maioria das mulheres é um momento de força, plenitude, superação que bem cercada, bem assistida, pode se tornar uma referência para a vida de uma mulher.

Uma amiga psicóloga esteve no Japão e ouviu uma história na casa de parto que foi conhecer. Ela contou que depois do terremoto, muitas mulheres que tinham perdido tudo, foram para a casa de parto oferecer ajuda. Segundo elas, estar naquele ambiente as lembrava de um momento de superação, dando forças para reconstruir suas vidas.

Deveria existir na Faculdade de Medicina uma disciplina: o que desejam as mulheres em seus Trabalhos de parto e o que necessitam os bebês quando chegam a esse mundo. E principalmente uma cadeira que mostrasse as evidências científicas para treinar menos cirurgiôes e mais parteiros.

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mai

13

2012

No Mothers Day »

por Nanda

Eu sempre adorei o Dia das Mães, mesmo antes de ser uma. Me importava mais com o Dia das Mães do que com o aniversário da minha própria mãe, e talvez isso diga um pouco sobre como eu faço o balanço entre o papel de mãe e a própria existência da mulher. Então eu perdi minha mãe. Então eu virei mãe. E a balança ficou maluca.

Desde que Benjamin nasceu eu fiz questão de ser paparicada de todas as maneiras no segundo domingo de maio. Presentes, horas a mais de sono, almoço e/ou jantar. Mas esse ano, com as circunstâncias um pouco mudadas eu me vi sozinha, no Dia das Mães, com uma criança que sequer sabe o dia da semana. E foi um domingo como outro qualquer, como talvez devesse ser.

Esse ano, uma organização chamada Every Mother Counts lançou uma campanha chamada No Mothers Day, cuja proposta seria desaparecer durante o Dia das Mães para chamar a atenção para o fato de que 360.000 mulheres morrem por ano devido à complicações na gravidez ou no parto. A princípio, fantástica ideia. Vídeo emocionante, causa mais do que nobre. Mas e mães, como eu, que só tem crianças de 3 anos para “ignorar” nesse dia? Ou aquelas mães que usam a internet e os meios sociais para se pronunciar, inclusive sobre causas como essa?

Então eu não sumi. Atualizei o Facebook, agradeci todas as mensagens de felicitação e carinho que – ainda não – vem do meu próprio filho. E cá estou, na internet, chamando a atenção para a organização e a causa pela qual ela luta. E você, como aproveitou o dia das mães?

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mai

12

2012

O certo, o errado, e todo o resto »

por Tata

imagem: google images

Nos últimos dias, o assunto no mundo materno é um só: a polêmica capa da TIME, edição de 21 de maio, que traz uma mãe amamentando seu filho de 3 anos, estampando a provocativa questão: “are you mom enough?” (“você é mãe o suficiente?”). As discussões, muito inflamadas como era de se esperar, pipocaram por todos os cantos quando a imagem começou a ser freneticamente compartilhada, pelas redes sociais e pela blogosfera materna.

Com o acirramento dos ânimos, mais uma vez a discussão se transformou em um verdadeiro ringue de luta, como se estivéssemos diante de uma disputa mortal entre adversários totalmente incompatíveis: de um lado, as mães rotuladas como ‘alternativas’, defensoras do parto natural, da amamentação, do colo em livre demanda, do attachment parenting, nadando contra a corrente; de outro, as mães ditas ‘tradicionais’, seguindo as cartilhas dos pediatras e obstetras, alardeando os benefícios da tríade rotina-disciplina-independência, seguindo de acordo com o que a sociedade diz e prega que deve ser.

Eu, que normalmente sou das primeiras a me enfiar em discussões semelhantes, desta vez fiquei ‘entrincheirada’ no meu canto, bem quieta. Não me animei a começar novas-velhas discussões, porque já sei que o terreno não é frutífero: quase sempre, as discussões que começam com bases polêmicas como esta enveredam pelo terreno pantanoso do “eu não sou menos mãe porque…”, e confesso que já não tenho muita paciência para este tipo de conversa.

O que acho mesmo curioso é que em pleno século vinte e um, nós, tão avançados em uma série de coisas, sejamos ainda tão apegados a esta visão redutora, dicotômica de mundo: um maniqueísmo infantil de conto de fadas, que divide tudo em bom ou ruim, feio ou bonito, certo ou errado. Será que algum dia amadureceremos o suficiente para compreender que a vida não se presta a categorizações tão limitadas, e que não faz sentido dividir pessoas ou experiências em certas ou erradas, porque tudo é caminho?

Lembrei-me agora de uma frase muito bacana, atribuída a Cazuza no longa autobiográfico que leva seu nome: “tem o certo, tem o errado, e tem todo o resto”. Acho que é bem por aí, e penso que o que nos falta como sociedade é perceber que é precisamente neste “resto” que repousam as maravilhas da vida – ali mesmo, em meio a um emaranhado de sentimentos, escolhas, valores, desejos, paixões, tentativas, contradições. Em relação a tudo isso, não cabe qualquer tipo de juízo de valor, qualquer tipo de comparação, qualquer espécie de nivelamento. Diante da vida, que nos surpreende e exige de nós todos os dias, é mesmo ‘cada um por si’ – e digo isto da melhor maneira possível, como quem compreende e reconhece que toda caminhada é válida, que toda experiência tem sua beleza, e faz sentido dentro da história pessoal de cada indivíduo.

Isto, é claro, não significa que não possamos – e devamos – nos posicionar apaixonadamente, com comprometimento, com intensidade. Mas sem perder de vista que meus caminhos, minhas escolhas, minhas verdades, são apenas isto: minhas. E se elas me cabem, se delas estou segura e convicta como deveria, as verdades alheias não virão para me confundir, muito menos agredir – elas são do outro, competem ao outro, não me dizem respeito. Posso me propor a ouvir, conversar, argumentar, posso acolher a experiência alheia como algo que me sirva, ou não. Mas não vou me prestar a comparações, porque tenho o meu caminho, e ele é só meu. Esta solidão é irrevogável, necessária – e quando aprendemos a compreendê-la, até muito bonita.

Portanto, abandonemos de uma vez por todas os conceitos empobrecidos e imaturos de uma maternidade ‘melhor’ ou ‘pior’ do que a outra. Concentremo-nos em ser cada uma de nós a melhor mãe que possamos ser, com nossos acertos e erros, conquistas e tropeços. Com esta história que é só nossa, bonita por si só, e precisamente porque ninguém mais poderia escrevê-la a não ser nós mesmos, com nossas possibilidades e limitações.

A única comparação válida e produtiva nesta história toda é aquela que coloca cada mãe diante de si mesma, repetindo diante do espelho o questionamento tão estridentemente estampado na capa da TIME: ‘você é mãe o suficiente?’ – não o suficiente aos olhos da sociedade, não o suficiente aos olhos das mães ‘alternativas’, das mães ‘tradicionais’, ou qualquer novo rótulo que achem de inventar por aí, mas o suficiente diante de suas prioridades, de seus valores, de seus desejos. Esta sim, é a reflexão bacana, e é a ela que deveríamos todas dedicar nosso tempo e energia: estou sendo mãe o suficiente, estou dando o melhor de mim, estou fazendo tudo o que posso – estou sendo a mãe que desejo e sei que posso ser?

Se pudermos estar corajosamente e sem defesas diante destas questões, a polêmica terá afinal servido para alguma coisa: amadureceremos todas, como mães e como mulheres. Assumindo nossas responsabilidades e recusando a armadilha fácil da culpa – afinal, a idéia não é justificar-se para o mundo, a idéia é alinhar-se com aquilo que é importante e fundamental para você.

Maternidade não é competição, não é corrida, não tem linha de chegada, não tem troféu ou  medalha para as ‘dez mais’. No final deste arco-íris não há nenhum pote de ouro – mas há algo bem mais valioso: a oportunidade de confrontar-se consigo mesma, com suas prioridades, escolhas, valores, crenças, caminhos, desejos. E aproximar-se cada vez mais da pessoa que você gostaria de ser.

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mai

11

2012

A capa da Time: levanta a bola mas não corta »

por Nanda

Observe o quanto a gata se importa com a capa da Time

A matrix é um confortável colchão de penas. Macio – até demais – é difícil querer sair dali. E mesmo quando se quer, o macio colchão não oferece apoio para você se levantar. E a sociedade lhe abana com longos leques e lhe oferece drinks refrescantes de hora em hora. Menos a Time. A Time chega e taca fogo no seu colchão. Ela coloca na capa da revista semanal mais lida do mundo (cordei kd fonte) uma mulher mais magra, mais loura e mais linda do que você. E ela está amamentando um gurizão mais velho do que seus filhos. E não parece nem um pouco incomodada com isso. E ainda por cima ela pergunta se você está sendo mãe o suficiente. Tá querendo, né?

Tá querendo sim. Querendo vender revistas. E tudo bem com isso, dentro da lógica de mercado em que vivemos. Eu sou mais do que a favor de tacar fogo no colchão, tento fazer isso diariamente. Mas enquanto incendeio o colchão, eu tento estender uma mão pra ajudar a mulher a sair dali sem se queimar, ou no mínimo mostro um ponto de apoio para que ela faça isso sozinha. E a Time não fez isso.

Ok, eu não li a matéria. Ninguém, a não ser os assinantes da Time, leu a matéria, porque a revista sequer está nas bancas ainda. Mas desde ontem eu venho devorando todos os artigos relacionados à matéria (mentira, à capa. Ninguém tá nem aí pra matéria por lá), inclusive a entrevista com a repórter que escreveu a reportagem. Por mais alma de editora-chefe que eu tenha (aceito empregos) não cabe a mim revisar fonte e posicionamento da jornalista. Que ela tenha colocado lá que o Dr. Sears é o guru do attachment parenting, que ela tenha colocado lá que é imprescindível para um praticante da AP a) amamentar prolongadamente b) fazer cama compartilhada e c) usar sling o tempo todo. O meu problema não é esse. É que ela vestiu a roupa da neutralidade jornalística e com um sorrisinho no rosto, acaba com a raça do AP, ao menos na entrevista.

Fazendo isso, a Time atiça o vespeiro simplesmente por atiçar. Eu não tenho a ilusão de que, como disse o editor-geral da revista, a capa tenha vindo para levantar questionamentos. E tudo bem que - e se – ela fizer isso. Tudo ótimo. Mas cadê a mão estendida, cadê a matéria que torna esse questionamento agressivo um questionamento construtivo? Se você já não estiver no chão firme, longe do colchão emplumado, fica muito difícil não interpretar isso como alfinetada. Até porque gente, quem é que define o que esse suficiente? É a Time? É a mãe, o pai? É a criança?

A Ligia, do Cientista que Virou mãe, escreveu um excelente post argumentando sobre os motivos pelos quais ela acha que a capa da Time é, sim, construtiva. E eu gostaria de concordar com ela, mas não consigo. Consigo, como ela, me ver na capa da Time. E sentir muito orgulho da Jamie Lynne Grumet, que não somente enfrentou o mundo de cabeça erguida, mas deu uma entrevista matadora revelando muito mais coisas do que a capa: ela amamentou dois filhos ao mesmo tempo (ambos tem idades muito parecidas). Um deles adotado, e o biológico nasceu prematuro. Seu marido ordenhava enquanto ela estava desmaiada por sedativos e seu filho mais novo não conheceu leite artificial. O mais velho – e isso é um choque nos EUA – é negro. A própria Jamie foi amamentada até os 6 anos de idade, e tem memórias vívidas e sensórias disso. Seus pais não eram hippies (termo usado por ela), mas seu pai é PhD em Nutrição, e por isso apoiou a amamentação prolongada num país em que o tempo médio de amamentação é ainda menor do que o Brasil.

Só a entrevista com Jamie, para mim, valeu o burburinho todo. A Time tem articulistas online também, e quase todos eles falaram sobre a capa da revista. Surpreendentemente, só um deles – um homem, não que isso importe – escreveu o artigo mais absurdo que eu já li e nem vou me dar ao trabalho de linkar aqui. Uma articulista renomada “saiu do armário” e conta que amamentação prolongada é mais comum do que parece nos EUA.  Essa outra rebate lindamente os argumentos da Elizabeth Badinter (e ainda conta pra gente que a Badinter é Relações Públicas de companhias que produzem leite artificial, olha só). E essa aqui levanta uma bola que, para mim, pesa mais do que a pergunta da capa. Ela diz que os pais que praticam o AP (e todos os outros métodos de criação) fazem o que é melhor para eles e não para os bebês. Ui.

Então, essa discussão linda e frutífera que está acontecendo na internet é graças a essa capa. Nesse ponto eu cedo. Mas quantas pessoas irão passar da foto da capa? E dessas, quantas passarão da manchete? Quantas pessoas que não tenham esse interesse em particular pelo assunto irão procurar esses links relacionados? Quantas pessoas com pensamentos dogmatizados sedimentados ainda mais pelo incômodo causado pela capa irão de fato chegar até essa discussão sem armamento pesado? Eu gostaria de depositar minha esperança em grandes números. Mas teremos que esperar pra ver.

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mai

10

2012

Teta na cara »

por Kalu

A capa da Revista Time desta semana tem abalado os brios destas terras tupiniquins em que a média de amamentação exclusiva não passa de 23 dias e a licença maternidade é de 4 meses.

Em um país cujas taxas de cesarianas passam de 50% e as mães, com suas camadas profundas de tecidos e órgãos remexidos, mal conseguem se posicionar adequadamente para amamentação. Bebês recebem NAN ou água com glicose e quase nunca mamar como deveriam.

Conheço pouquíssimos pediatras realmente favoráveis à amamentação. Poucas mulheres que persistem com a amamentação exclusiva o que dirá prolongada. E quantas, no globo terrestre, chegam hoje a marca de amamentação por mais de três anos? Quantas são as famílias que praticam cama compartilhada e que se beneficiam do contato proporcionado pelo sling prolongadamente.

Essas mulheres, e me incluo nesta lista, são chamadas de mulheres das cavernas. Isso porque até mesmo na idade média amamentar era considerado algo inferior, atribuída à função para as mamadeiras humanas escravas chamadas amas de leite.

O título da matéria faz uma provocação: “Você é mãe o suficiente? Como o attachment parenting leva algumas mães ao extremo – e como o Dr. Sears se tornou seu guru”.

Ainda não tive acesso à matéria na integra. A foto parece algo provocativo, em uma posição em que geralmente não damos de mamar, talvez para incitar o apelo sexual, a que muitos pediatras atribuem aos danos da amamentação prolongada. Dizer que o attachment parenting leva algumas mães ao extremo, me parece, também provocativo. De que extremidade estamos falando?

Para mim é muito antinatural os treinamentos propagados pela Super Nany e a torturadora de bebês. Deixar um bebê chorando até que ele se console e aprenda que suas demandas emocionais não serão atendidas, para mim, é o extremo da violência. Para mim esta matéria mascara divulgar os conceitos de uma maternagem instintiva para difundir a ideia de radicalismo. Um prato cheio para rebatedores de todas as partes do mundo.

Em um planeta de mulheres cesareadas, dominado pela cultura feminista que diz volte ao mercado, dê leite ninho, com mamadeiras que imitam o peito sinceramente a ideia de neutralidade jornalística é uma tacada de mestre para mostrar que seguimos uma religião cheia de dogmas do guru Dr. Sears.

A verdade que eu percebo é que muitas mulheres vão percebendo aquilo que mais lhe cabe dentro de suas possibilidades, bases culturais e consciência. Em um dos artigos sobre a matéria, da revista Crescer, um médico diz que nas camadas mais baixas esse tipo de “criação” é mais comum. Sem consciência não adianta dormir junto, carregar o filho no sling, dar banho de balde e dormir junto, amamentar pronlongadamente por falta de grana. Não é a falta, mas a consciência que leva famílias a adotarem, não de maneira hegemônica as praticas que envolvem o conceito do attachment parenting.

O título da matéria é para segregar e sabemos que cientificamente há argumentos para ambos os lados, mas a grande maioria ainda pratica uma maternagem tradicional,seguindo as orientações de profissionais que indicam cesáreas, NANs, quartos separados, amamentação de 3 em 3 horas, introdução de complementos e alimentos precocemente. Enquanto isso somos capas de revista, como atração de circo ou relíquia pré histórica, de mulheres que negam a evolução e a tecnologia, sacrificando-se pelos filhos. O fato é que muitas de nós, como eu, descobrem o nome para as praticas adotadas em nome da busca de uma felicidade e harmonia para mãe/pai e bebê, instintivo e natural, sem seitas de gurus, sem o tracejado de uma linha que separa as mães radicais das insuficientes.

E você, o que achou da capa e repercussões da matéria?



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mai

9

2012

Equilibrando três »

por Tata

Ser mãe de três filhos é uma equação delicada. Aliás, a partir do momento em que se tem mais de um filho, a gente passa a se equilibrar em uma corda bamba constante: se percebe que está dando atenção demais a um, vai pendendo para o lado do outro; quando o lado do outro começa a pesar, a gente vai voltando para o lado de onde veio; e assim sucessivamente – incansavelmente. É uma melodia que afina e desafina, não repousa nunca.

É bem verdade que eu, que logo de cara tive gêmeas, nunca experimentei a sensação de ser mãe de um só. Desde o comecinho, fui aprendendo a me dividir, a olhar aqui e olhar ali, a ouvir uma pergunta aqui e dar uma resposta acolá, a cuidar de uma que corre para a esquerda, enquanto a outra brinca lá num canto bem à direita. Mas gêmeos têm uma facilidade: a idade é a mesma, as demandas também. Eles passam juntos pelas mesmas fases, curtem as mesmas coisas mais ou menos nas mesmas épocas. Por mais que cada um tenha a sua personalidade, a idade permite agrupá-los e dar a eles atenção que, embora diferente para cada filho, tem uma certa continuidade.

Já quando chega um caçulinha para bagunçar o coreto, a equação complica um bocado: lá vem uma criança diferente, de uma idade diferente, passando por fases diferentes, querendo coisas diferentes, pedindo por um tipo diferente de atenção e cuidado. Aí sim, a gente se embanana completamente!

Nós, aqui em casa, pais de três, enfrentamos constantemente este desafio: harmonizar o convívio a cada dia, e equilibrar a atenção dada, por um lado, a duas meninas-quase-mocinhas de (daqui a 10 dias!) sete anos, começando a ler, curtindo a escola, ampliando os horizontes, afinando a percepção sobre as coisas do mundo, descobrindo aptidões e talentos particulares, pegando gosto por brincadeiras complexas; e de outro lado, uma bebê-quase-menininha de (daqui a 15 dias!) três anos, querendo sair das fraldas, quase desmamando, às vezes chorando mais do que falando e outras vezes o contrário, aprendendo a se expressar e descobrindo sua maneira de colocar-se diante do outro, oscilando indecisa entre o colo e a independência, encarando uma briga interna danada entre as delícias de virar ‘menina-grande’, e a nostalgia de ser bebê bem pequena, aconchegadinha no colo da mãe.

Para nós, tem sido um aprendizado diário, trabalhoso e muito intenso. A cada passo desta caminhada, precisamos nos reavaliar, pensar e repensar nossas atitudes, conversar, trocar ideias e impressões, perceber como estamos olhando nossas três meninas, que tipo de cuidado estamos oferecendo, onde estamos acertando, e onde poderíamos melhorar. Isso, é claro, faz parte da maternidade sempre, até para quem tem um filho só. Mas com mais de um, a dinâmica familiar pede uma afinação mais ‘fina’, porque é preciso buscar um equilíbrio constante. Quando este equilíbrio falta, alguém se sente excluído, e isso é sempre muito ruim.

Ufa! Eu confesso: não é nada fácil. Por mais que a gente evite cair na armadilha, a velha e ‘boa’ culpa entra na jogada, e é difícil evitar uma frustração das boas, por não estar dando conta de tudo o que nossos filhos demonstram precisar. Por que é, afinal, que a gente sempre acha que pai e mãe têm que ser onipresentes, onipotentes, oniscientes? Vai saber – mas a gente acha!

Aqui em casa, em nossas constantes conversas sobre nossas atitudes, escolhas e caminhos, percebemos sempre que erramos mais do que gostaríamos, mas tanto quanto precisamos para amadurecermos, nós também, como pais. Se vira e mexe alguém dá mostras de não estar recebendo atenção suficiente, lá vamos nós pensar a respeito, olhar a questão com cuidado e carinho, sem preconceitos, encarar uma autoanálise que não é nada fácil e exige coragem. E no final das contas, a gente tem a oportunidade de melhorar, tentar de novo, em busca de uma vida familiar mais equilibrada, mais harmoniosa, mais leve. Não perfeita, porque nenhuma é, mas muito cheia de alegria e amor – e no final das contas, estes são os únicos ingredientes que não podem faltar nesta receita, não é mesmo?

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mai

8

2012

Ode à menstruação »

por Kalu

Eu me lembro como se fosse hoje o dia em que ela começou na minha vida. Eu era tão nova: 9 anos, perto do aniversário de dez. Não estava perto da minha mãe, talvez para mostrar um pouco como a minha vida começou. Estava com a minha avó, com seus tabus e preconceitos. Meu avô, um homem sério, pegou seu Bugue preto e foi comprar absorvente. Trouxe um enorme. Eu estava me preparando para jogar bola com os meninos. Minha avó não deixou:

- Mulher quando sangra não pode ir a praia.

Foi a primeira vez que senti vergonha por ser mulher. Conheço mulheres que tomam pílulas para não menstruarem em determinadas ocasiões. Uma viagem com namorado, lua de mel. Como se pudéssemos pegar nossos processos fisiológicos para que nos sirvam. Tem quem abra mãos de menstruar. Transar menstruada é um tabu. Mas se você for perguntar para os homens, este tabu é muito mais feminino.

Menstruar é um verbo feminino como parir. Igualmente cheio de tabus, nojos, crenças erradas e intervenções. Como parte do nosso castigo em ser mulher.

Há quem tenha nojo do próprio sangue?! Depois de começar a usar os coletores, menstruar se tornou ainda mais fácil. Posso correr (que não vaza), entrar na água (que não fica aquele tufo inflado de algodão por dentro). É só lavar, algumas vezes por dia. E como o sangue não entra em contato com o ar, ele não tem aquele cheiro desagradável dos absorventes descartáveis.

Por muito tempo a menstruação era para mim um grande problema. Não pelas cólicas, que nunca tive, nem pelo fluxo, mas porque eu nunca gostei de usar absorvente. Meu ciclo sempre foi perfeito – 28 dias. A Menstruação sempre durou 4 dias. Mas eu era atleta e a menstruação diminuía meu rendimento e quando menstruada tinha que usar absorvente interno para nadar ou malhar.

Parar de menstruar foi um ato bem simbólico para mim. Isso aconteceu durante a gestação e depois de nove meses. Eu senti a menstruação vindo. Virei um bicho. Brava, agressiva. A loba que nascia no parto que mostrava sua face escura na lua nova. Foram as minhas TPMs que me mostraram o caminho de resgate do meu feminino que se fragmentara criando um caleidoscópio da antiga Kalu, para a nova. Passei a entender que as TPMs são, na verdade, uma lente de aumento para aquilo que não vai bem. Uma grande oportunidade para olhar de perto e bem fundo o que nos assola.

Ano passado, em outubro, depois do curso da Mother Maya, sobre a cura do feminino, passei a fazer aplicação de um chá para amenizar os efeitos da TPM na minha vida.

Receita do Chá
3 colheres de sopa de pétalas de rosas vermelhas orgânicas
3 colheres de sopa de folha de morango silvestre seco (pode substituir por gel de babosa puro 1 colher de sopa)

Ferver duas xícaras de chá de água em banho maria. Quando ferver jogar as pétalas e deixar tampado até estar mais fria do que um chá de beber. Aplicar com uma ponteira vaginal em recipiente de enema (preferência por metal). Colocar lá dentro. Reter e depois soltar, deitada no chão, de barriga para cima, com os pés apoiados no chão, inclinando para cima o quadril e liberando-o levemente.

Esse chá ajuda a melhorar todos os processos femininos. Sempre aplicar no segundo dia de lua nova, até o nono dia da lua, dia sim e dia não. Para quem já menstrua na Lua nova ele serve para limpar o útero. No pós parto, banho de assento com esse chá é ótimo para cuidar desta região.

Em 3 aplicações comecei a menstruar na Lua Nova. Depois de passar 2 finais de semana seguidos trabalhando com os aspectos do feminino, minha menstruação atrasou 10 dias, e chegou no segundo dia de Lua Nova, trazendo para mim a renovação.

Minha menstruação sempre foi muito simbólica para mim. Ela me mostra sobre minha saúde emocional principalmente. Sempre que inicio uma nova relação minha menstruação muda. Como se entrasse em um novo ciclo com aquele parceiro. E no término, ela vem, como para mostrar o fim.

Sou apaixonada pelo meu sangue, pelos meus ciclos, perfeitos, harmônicos -quando tudo vai bem, desarmônicos- quando não.
O caminho de aceitação pelo feminino, em minha opinião, passa por uma aceitação da menstruação e dos demais processos que nos cabem: parir e amamentar. A belez do feminino não é abrir mão disso, mas aprender a conviver bem com tudo isso. E todos esses processos são um convite de olhar e adentrar em sii mesma, percorrendo os caminhos das sombras para ver as estrelas.

Não tenho filhas, mas meu filho sempre vê meu sangue. Não me escondo. Ele me pergunta sempre a menstruação e uso a analogia da lua para explicar o que acontece com as mulheres. A lua cheia, o útero que espera o filho e quando este não vem, o corpo que se renova.

Quando ele não vê a lua no céu ele diz: está perto do dia de você sangrar, né, mãe?

E assim, conectada e de posse de nosso sangue, podemos fazer uma revolução interna. Menstruar é um verbo feminino que temos que ter orgulho de conjugar, como parir e amamentar. Claro que podemos abrir mão, mas não sem consequência para nosso crescimento feminino.

Vale ler o texto da Silvia Baldim.

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mai

7

2012

Quando eu pari um E.T? »

por Mamífera(o) Convidada(o)

por: Katia Guitierrez

Já faz um ano… um ano e 12 dias precisamente, que eu acordei com a bolsa rompida às 5 da manhã e às 22:09 ele nasceu.

Ou ela? Não sei. Existe gênero para seres de outro mundo??

Programamos seu nascimento para ser em casa… mas a vida na Terra nos conduziu ao hospital.Enfim, a minha pequena alienígena nasceu linda, saudável e eu me sentia ótima, desde o primeiro minuto após seu nascimento.

Incrível, conseguimos nosso parto sem anestesia (contrariando as expectativas terráqueas), ela veio pro meu peito em seguida, mamou, ganhou peso ainda na primeira semana e eu, antes disso, já conseguia subir em bancos lá em casa pra arrumar o quarto dela que ainda não estava pronto, visto que ela se antecipou e chegou com 37 semanas. Mas 37 semanas talvez só seja um prazo precipitado para os humanos normais e não para os E.T’s. Fica mais essa dúvida.

Ah, diferentemente dos humanos, ela também se nutriu exclusivamente do meu leitinho até os 8 ou 9 meses. Infelizmente, nem sempre direto do meu seio, mas, já adaptada ao mundo na Terra, aceitou bem a mamadeira e nunca rejeitou o calor do meu peito por conta disso. Ainda notamos algumas desarmonias com a vida terráquea, não come balas, chocolates, biscoitos ou batata frita, não toma refrigerantes, têm roupinhas azuis (apesar de a identificarmos como menina), não assiste TV e não chupa chupeta… uma verdadeira extra-terrestre! Apesar de todas as dificuldades em se tornar uma terráquea tradicional, é muito carinhosa, calma e delicada.

Adora cantar a música do pintinho amarelinho, que aprendeu com os pais, que aprenderam com os seus pais e não com a Galinha Pintadinha.

Cantou em sua linguagem própria, dançou e bateu palmas ao ouvir essa musiquinha na sua festinha de aniversário oferecida pela família terráquea que mora no Paraná. É diferente, o normal seria ela preferir o Parabéns pra você, mas isso é para os humanos, né?

Quando mais novinha, não chorava, tossia. Agora para chamar a atenção, faz o que chamamos de charminho – que nada mais é que uma leve inclinada de pescoço e um sorriso com seis dentinhos.Imaginamos que seja a forma de cumprimento do seu planeta de origem. Muito simpático! Achamos uma ótima ideia a dela e aqui em casa, estamos sempre usando esse cumprimento, e como ficamos felizes depois de usá-lo!

Não sabemos o histórico exato de como era o local de onde ela veio, apenas sabemos que era um lugar agradável, calmo, com sons e luzes suaves, comida sempre disponível, calor humano, sempre pronto para uma sonequinha e muito, mas muito seguro.

Assim, cientes da responsabilidade de termos trazido a pequetita para este local tão diferente, tentamos não adaptá-la ao nosso mundo, mas nos adaptarmos ao mundo dela, tão puro e despretensioso… para que se sinta confortável, para que não perca suas origens, para que possa expressar o melhor de si, se sentindo parte e não se adaptando ao que os outros julgam ser normal ou esperado.

Assim, apesar de soar muito estranho, eu constato que sou muito feliz em ter parido um(a) E.T.

Ai, ai, serei eu mesma de um lugar que não é aqui??

Grande beijo às minhas queridas amigas de maternagem de seres de outro mundo!

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mai

4

2012

Marcha das parteiras »

por Kalu

Houve um tempo em que a vida chegava a este planeta pelas mãos habilidosas, envolta de crendices, rezas, apoio. Mulheres que muitas vezes não recebiam nada por seu ofício. Um dom, uma vocação. Elas ainda estão espalhadas pelo mundo afora, onde a tecnologia e o acesso à saúde ainda não chegaram.

Hoje nos centros urbanos temos as chamadas enfermeiras obstetras, homens e mulheres especializados no atendimento do parto. E as obstetrizes, profissionais especializadas especificamente para o ofício obstétrico.

E por que marchar por estas mulheres, em plena Avenida Paulista? Onde há a presença de enfermeiras obstetras ou obstetrizes no atendimento à gestante de baixo risco, existe uma redução considerável das taxas de cesarianas desnecessárias, menor uso de medicamentos e intervenções  e um maior grau de satisfação por parte das mulheres.

Ao contrário da vocação, do misticismos, estas mulheres estão embasadas em evidencia científica. Ser atendido por uma enfermeira Obstetra não significa abrir mão da assistência. Com seus olhares atentos, com conhecimentos afiados, conseguem perceber quando é preciso a intervenção, na menor parte dos casos, ou quando é seguro prosseguir com o atendimento.

Meu filho chegou ao mundo através das mãos de duas parteiras incríveis. O atendimento e apoio que recebi foram fundamentais para a formação da minha maternagem consciente e plena.

Médicos são perfeitos para atuarem quando houver necessidade. Eles são preparados para fazerem cirurgias perfeitas. E ainda bem que existem para salvar muitas vidas, que no passado não eram salvas.

Para mudar a vergonhosa taxa brasileira de cesariana que leva os índices de mortalidade materna e neonatal para as alturas, é preciso criar possibilidades para que as obstetrizes possam atuar para a assistência de gestantes de baixo risco.

Se você está em São Paulo, pode se unir amanhã, dia 05 de maio, das 11h as 13h, entre o MAsp e Consolação, à marcha das parteiras para apoiar e homenagear essas mulheres tãos especiais, que sabem, com ninguém, apoiar uma parturiente.

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