Banho conjunto e ausência paterna
por Mariana Tezini
- Olá, Mariana. Tem uma coisa que tá martelando na minha cabeça faz algum tempo e eu queria saber sua opinião de psicóloga sobre o assunto. Seguinte: há alguns dias atrás entrei numa conversa com outras mães sobre tomar banho junto com os filhos. No meu caso, que sou mãe de menina, não teve muito problema quando eu disse que tomava banho junto com a minha filha, mas uma amiga que é mãe de um menino de 3 anos e disse que tomava banho junto com ele, aliás que ela, o filho e o marido tomavam banho juntos, foi duramente criticada pelas outras mães que disseram que a minha amiga estava estimulando sexualmente o filho dela precocemente. As mães foram unânimes ao dizer que enquanto bebê não tinha problema porque ele não iria lembrar e tal, mas que quando o bebê tornava-se criança, essa prática de tomar banho junta deveria ser abolida se a mãe não quisesse ter um filho curioso para as questões sexuais desde cedo. Eu entrei calada e permaneci calada porque nunca tinha parado para pensar sobre isso e acabei percebendo que nem tinha opinião formada sobre o assunto, mas agora estou pensando: e aí, será que tem problema? Eu tomo banho junto com minha filha, mas meu marido não. E não toma acho que por essa questão, por achar que é errado. Cresci ouvindo que era, acho que ele também e por isso prefere não tomar banho junto com ela. Mas, psicologicamente falando, é um estímulo? Deve ser evitado? (Eduarda)
Oi Eduarda,
A sexualidade faz parte da vida das pessoas desde o nascimento, é uma força natural e própria a todo ser humano. Sendo assim, penso que é algo sagrado e o pecado está no nosso olhar. O desenvolver da sexualidade faz parte do auto conhecimento de todos nós: a descoberta do prazer, perceber as diferenças entre o homem e a mulher, a curiosidade.
A sexualidade em seu aspecto erótico e sensual ainda está adormecida na criança pequena e o banho junto, dependendo de como a família lida com isso, não estimula nada além da curiosidade esperada do universo infantil. Portanto, se surgirem perguntas sobre o corpo dos pais elas devem ser respondidas de forma verdadeira e objetiva, no limite de entendimento da criança e sem ir além do que ela pede.
O banho é um momento relaxante e de descontração, e devemos olhar essa questão no contexto de cada família, a forma como vocês lidam com isso pode ser que estimule ou não, como você e seu marido lidam com isso? Seu marido não toma banho porque ela é menina? Se olharmos pra sexualidade como algo maior do que a questão genital, não veremos problema em pais e filhos de sexo oposto tomar banho juntos.
A curiosidade que pode surgir é algo natural e não deve ser motivo de censura e nem vergonha. Não vejo problema algum enquanto vocês agirem naturalmente e se sentirem a vontade com isso, sem forçar a barra e nem criar um clima artificial. Se incomodar o adulto ele pode passar a idéia de que aquilo é ruim e as atitudes passam uma mensagem maior do que as palavras.
Creio que vocês irão perceber aos poucos os sinais da sua filha pela busca de privacidade. Naturalmente as crianças vão sentir vontade de tomar banho e se vestirem sozinhas no momento em que sentirem a necessidade disso.
- Sou mãe solteira e minha filha tem sete anos e o pai dela não mora na mesma cidade. O papai noel e o pai dela, nesses últimos anos empatavam com o numero de visitas. Ontem perdi o controle com ela quando me falou que eu não mando nela e vai morar com o pai. Tadinha, o pai dela mal vem visitar, é super irresponsável, mas na cabecinha dela, ele é o melhor pai do mundo. Não sei lidar com isso e tenho dificuldades. Estou em estado esgotado com essa situação, me deixa sem chão não saber lidar com isso.
Qual foi a situação na qual sua filha falou que você não manda nela e que ela vai morar com o pai? Será que ela quer morar com o pai ou será que ela não gostou da situação que ocorreu entre vocês e talvez num momento de raiva ela quisesse chamar a sua atenção? Experimente compartilhar essa dificuldade com a sua filha, ela já tem idade para entender. Você fala do pai para ela? Ela diz sentir falta dele ou isso só surgiu neste momento?
O “melhor pai do mundo” pode ser visto dessa forma justamente por estar distante, entende? Como o pai não convive todo dia ela acaba preenchendo esse espaço com as fantasias dela, pois não tem elementos para criar uma imagem real, ela idealiza, talvez por querer acreditar que com o pai seria diferente. A convivência desmistifica muito as relações. Seu papel agora talvez seja falar com ela sobre o pai que ela tem, sobre as sua escolha de não estarem juntos. De uma forma clara, pra que ela possa devagar ir criando uma imagem mais verdadeira do pai. Qual a imagem do pai você apresenta pra ela?
Você já conversou com ela abertamente sobre o porquê do pai não morar com vocês? Quem sabe– na cabeça dela – você não é a única responsável por ela não ter um pai? Pelo que você conta eles quase não tem contato, então é você quem pode ajuda-la a compreender essa configuração familiar. E como mãe você tem a sensibilidade de perceber porque a figura do pai surgiu dessa forma, nesse momento da vida de vocês e te deixou perdida com todos esses questionamentos.
Mariana Tezini
Mariana Tezini, mamífera mãe do Caetano e da Aurora, e psicóloga. Uni a maravilhosa experiência da maternidade ao meu trabalho, sou especialista em terapia de família e casal e também grávidas e casais grávidos. A vida depois dos filhos ficou mais gostosa do que já era. Estarei aqui para trocar idéias sobre temas interessantes, refletir e compartilhar novas perspectivas sobre qualquer dúvida ou assunto.










mariana, obrigada pela resposta! adorei! e me fez repensar muita coisa sobre isso .:) vou compartilhá-la com meu marido e também com essa amiga mãe de um menininho de 3 anos.
Libertadora, sua resposta, Mariana! Acredito que muitos psicanalistas e psicólogos não compartilham com este seu olhar, mas eu, particularmente, como mãe e mulher, adorei sua visão! É libertadora, sem preconceitos e tabus!
Abraço
Obrigada Luciana, realmente muitos psicólogos não compartilham dessa visão. Lembrando de aulas que tive e materiais da faculdade me recordo desse tema ser tratado de uma maneira bem superficial e sem direito a individualidade: não pode porque a criança vai desenvolver a sexualidade precocemente, é mais proibido ainda com pais do sexo oposto. (ponto final)
Se a gente não se liberta de preconceitos e tabus de forma consciente ficamos a mercê de idéias empoeiradas e sem sentido.
Oi Mariana, que maravilha de texto!!!
Aqui em casa não temos problemas com nudez. Sophia tomava banho com o pai. Agora ela já vai fazer 6 anos, toma banho sozinha e já dá sinais de que quer privacidade. Inclusive, quando precisa entrar no banheiro quando meu marido está tomando banho, o faz pedindo licença.
Ao contrário dela, fui criada numa família onde tudo era feio, proibido e escondido. Depois de adolescente tomei conhecimento de casos de abusos. Por isso o assunto nudez/sexo eram proibidos lá em casa. Até hoje não superei totalmente isso.
E sobre a ausência do pai, também comigo aconteceu assim, como não tinha ele comigo, criei um super pai fictício, o que também trouxe problemas no realcionamento com minha mãe que queria que eu odiasse meu pai.
Abraço.
Sarah, se lidarmos de forma natural (cada um a seu tempo) em algum momento a necessidade da privacidade começa a dar sinais. Sem a sombra do feio/proibido.
Em um filme infantil que adoro, “Meu Vizinho Totoro”, tem uma cena que acho o máximo. O pai toma banho com as duas filhas pequenas e é tudo uma grande brincadeira.
Engraçado isso sobre tomar banho pq vem muito da criação, eu fui criada muito sem preconceito em casa, tomei banho com o meu pai até meus 10 anos juntamente com a minha irmã, eu não me lembro de ficar curiosa em relação ao pênis, achava maravilhoso isso de compartilhar o banho e so paramos de tomar banho juntos pq eu comecei a entrar na adolescência e quis privacidade, ja o pai da minha filha acha isso um absurdo e sendo assim não compartilha o banho com ela, acho uma pena pq ela fica doida pra tomar banho com ele e ele nunca deixa, pelo menos é isso que ela conta e quando o perguntei ele disse que isso não era certo, pois ela ja tinha 3 anos e é super curiosa. Ja eu tomo banho e deixo-a livre para perguntar e isso é com todos la de casa, ela toma banho com a minha irmã e com a minha mãe e nunca achei constrangedor. Minha filha é apaixonada com o pai e o tem como um Super Pai, a minha opinião é bem contrária mas não a influencio e também não o engrandeço, deixo ela cria o pai dela pois ainda tem 3 anos, mas quando for crescendo e entendendo tudo melhor, irei explicar todos os motivos pelo qual não estamos juntos, mas sem agredir ou denegrir.
Beijos
Noh
Adorei a forma como você colocou a questão da sexualidade, e concordo com tudo. Na minha casa também não se podia tomar banhos juntos e muitas outras coisas pra mim foi tabu durante muito tempo. Eu tenho um filho que completará 4 anos em janeiro e desde pequeno a gente sempre tomou banho juntos, não vejo problema nenhum nisso. É um momento de brincadeira, descontração. Ele adora, leva um monte de brinquedos e a gente fica conversando sobre como foi o dia dele e cantando. O difícil é sair do chuveiro, porque ele sempre quer ficar mais um pouquinho. E por mais incrível que possa parecer ele nunca ficou me perguntando nada sobre as diferenças do corpo, a única pergunta que ele fez uma vez, que foi mais uma contestação dele, é que menina não tem pipi, né mãe, só menino. Eu respondi que sim e ele nunca mais perguntou nada.
bjos
Todos os dias meu filho pede para que eu tome banho com ele. Ele atribui o ato de tomar banho a uma brincadeira com seus bichinhos, carrinhos e a imaginacao corre solta. Eu tomo banho com ele. E o meu marido tambem jah tomou. Acho que as perguntas vao acontecer naturalmente, e se forem levadas de forma natural, nao haverah problemas futuros. E acho tambem que o preconceito, a vergonha e o “obsceno” estah na cabeca do adulto.