O círculo *
por Flávia Penido
*, ou: ‘partos de parteiras e doula’
Era por volta de 5 da manhã quando o telefone tocou. Eu já sabia quem era. Terceiro dia que dormia pensando nela e acordava com seu telefonema. Pródromos. Nome engraçado esse. Pródromos era o nome dado à cavalariça ateniense que corria na frente. Chamam assim esse movimento de vai e vem do início do trabalho de parto de algumas de nós. Como que uma premonição, um aviso. Durante três noites Kátia vinha sentindo contrações incômodas, que a impediam de dormir, ao chegar o final da manhã elas evaporavam como o orvalho da madrugada. Desta vez senti em sua voz que algo estava diferente, senti que era para valer. Dentro de mim uma certa euforia se agitou. Não é todo dia que se é doula de uma amiga, menos ainda de sua parteira. Procurei meus bagulhetes de doula e saí.
Conheci a Kátia no final da minha terceira gestação. Ela tinha acabado de ter Leo através de uma cesárea. Eu estava à procura de alguém aqui da cidade de São José dos Campos que me acompanhasse enquanto a equipe que vinha de São Paulo, não chegasse. Pois é… há poucos anos era preciso buscar em São Paulo profissionais para o parto domiciliar. Olhando para trás aconteceu como tinha que acontecer. Meu parto foi tsunâmico. Naquele dia eu me empanturrei de amoras e deixei meus filhos se divertirem no sol agradável de inverno. Quando dei por mim em trabalho de parto, o processo já estava pegando fogo. Me lembro do carinho com que ela me tratou. Quando chegou, me examinou e eram nove centímetros já. A bolsa rompeu ao me levantar. Guardo em mim o respeito, me lembro dela me deixar em paz no chuveiro. Ô parteirinha querida. Foi nas mãos de Kátia que minha caçulinha veio ao mundo. Meus filhos vieram conhecer a irmãzinha com alegria e naturalidade. Ali naquele chuveiro libertou-se de vez a mamífera escondida em mim. Ali nasceu na Kátia enfermeira-obstetra, uma parteira urbana. Foram muitos nascimentos no momento em que nasceu a minha piruetes maluquetes, que hoje já tem cinco aninhos.
Chegando na Kátia, Patrícia enfermeira-obstetra, já estava lá. Tinha acabado de examinar e estava tudo bem. Logo fui me conectando com a Kátia, buscando algo que lhe trouxesse conforto. Quando a bolsa rompeu, comemoramos. Viva, está funcionando! – gritei, lembrando de todas as conversas que tive com a Kátia na gravidez dela, das dúvidas e das pequenas confissões que ela me fazia. Ela sentia medo de que o útero não fizesse seu trabalho. Desconfiar do útero não era difícil, com as vivências que tinha das gestações anteriores. Kátia tinha muitas razões próprias para se sentir desencorajada de parir. Resolvemos uma vez contar, chegamos a seis fatores ditos como não favoráveis ao parto normal :
1- Relaxamento dos ligamentos do útero que levaram a ter 3 vezes o prolapso do colo de útero e que segundo os médicos não permitiria ter parto normal pelo risco de o útero ser projetado para fora;
2- Duas cesáreas anteriores, sendo a última há dois anos e 5 meses;
3- 39 anos, que segundo muitos obstetras não humanizados é velha para parir;
4- Hipertensão há 1 mês e meio;
5- O peso do bebê;
6- Útero com vários miomas, alguns até palpáveis.
Os últimos dias foram duros para Kátia, a pressão aumentou, e fomos juntas à maternidade para fazer exames e não foi fácil para ela, manter a coragem, voltar para casa quando tudo conspirava para ela desistir. Mas lá estávamos nós, em franco trabalho de parto. O marido dela deu um jeito de prender a mangueira e fomos enchendo a banheira azul. Kátia ficou brava comigo. Eu estava enrolando ela para entrar na banheira. Que linda quando entrou! Suas feições mudaram, ela foi relaxando. Antes de entrar na água a Pati fez o toque a pedido da Kátia, 4 centímetros. Logo chegou a amiga Daniela, aplicou suas agulhinhas mágicas. Que efeito! Nos três nos cercamos da banheira, ficamos pressionando alguns pontos. Patrícia ficou com a mangueirinha cuidando discretamente do seu útero. Assim foi. Ficamos em um clima muito harmônico. Kátia cochilava entre as contrações, quando elas vinham, ela gemia e dizia que não ia agüentar, mas bastava a onda desaparecer para ela relaxar.
Fomos falando palavras suaves de carinho, falávamos todas bem baixinho. Por fim estava cada uma de nos em um canto da banheira formando como que por acaso um circulo perfeito, mágico. Lá dentro a Kátia estava protegida. Não levou uma hora desde que ela entrou n’água. Ela deu aquele urro. Nos olhamos sorrindo. Sabíamos o que estava acontecendo. Ela falou que ardia muito. O círculo de fogo. Essa sensação de queimação que algumas de nós sentimos quando o bebe já está ali, coroando para nascer. A Pati sugeriu a ela de virar um pouco na lateral. Assim a cabecinha nasceu devargazinho. Ficou bem encaixadinha. A Patrícia sentiu com a mão, na próxima contração delicadamente desprendeu o ombrinho da bebe. Era a Ana Bia, que veio ao mundo bem gordinha, 4,260kg! Sem nem pestanejar a Katia abraçou, cheirou e sorriu. Ficaram ali em êxtase, mãe, pai , bebê e as amigas. Foi um parto muito especial para mim, não pelas dificuldades na gestação, nem pelas seis indicações de cesárea que ela tinha, menos ainda pelo papel que desempenhei -mas pela emoção incrível que é ver uma amiga parir “apesar” de tudo.
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Eram 4 horas quando o telefone tocou. Já sabia quem era. Patrícia foi uma gestante tranqüila, era sua segunda gestação, a primeira filha dela nasceu logo depois da minha caçula e foi de uma cesárea, feita com dilatação total, porque… ai, nem importa mais! Foi uma cesárea desnecessária. Ela tinha chorado e amenizado essa mágoa. Tínhamos depois disto acompanhado mulheres parindo em casa ou no hospital naturalmente na posição que desejavam, sem ninguém tocando todo minuto nem apressando nada. Naturalmente aflorou a percepção do que tinha acontecido no parto dela. Simples assim. Uma assistência inadequada, embora bem intencionada. Mas por que uma enfermeira-obstetra busca um médico para parir – fico me perguntando? Desta vez a escolha das parteiras e da doula, nem era escolha. Ai dela pensar em outras! Ríamos juntas. Lembro de fazer uma visualização com ela e o marido, vivenciando o parto, sentimos todos tudo fluir fácil. Eles estavam bem. O tempo passava, ela teve umas ameaças de começo de trabalho de parto, mas nada de engrenar. Mas parece que era para ser assim.
Patricia nos ligou, já estava em trabalho ativo. Cheguei e a Kátia parteira e amiga já estava lá. Afe, essas parteiras não me deixam doular! (rsrs) Fui enchendo a banheira. Marido trouxe a Ana Tereza, outra enfermeira-obstetra amiga delas. Enquanto enchíamos de panelinhas a banheira, Patrícia ficou se pendurando no ganchinho do banheiro, a cada contração ela dobrava os joelhos e se pendurava, não precisava de nada nem de ninguém. Depois que nasceu ela me disse que apenas visualizava o colo se abrindo todo a cada contração como tínhamos feito antes. Quando pediu para ser tocada já era dilatação total. Ela nem queria ir para a banheira, mas acabou entrando. Foi ali, ajoelhada e apoiada na beira da banheira, que ela mesma tocou e sentiu a cabecinha. Mas um pouco e Kátia amparou a linda bebezinha. O círculo de energia se materializava ali mais uma vez conosco. Foi muito emocionante quando a Patrícia pegou a Gabriela, logo a Isabelli acordou e se juntou aos pais para receber sua irmãzinha recém-nascida. Que encanto. Ah, se fosse sempre assim que os pequenos conhecessem seus novos irmãozinhos para a vida. Quanta emoção naquele encontro.
Hoje nossas vidas ficaram assim sobrepostas nesse vínculo forte. Hoje as parteiras urbanas que vi nascer, partejam, simples assim. Nessa troca de afeto e amparo materno. Nosso circulo vem se expandindo. Nas nossas rodas de mulheres nascem bebes de forma respeitosa, nas nossas rodas nascem novas doulas em minhas doulagens. Surge nova parteira parceira. Assim em um círculo de amor que explode de femilidade. Simples assim.
Flávia Penido tem 41 anos, é mãe de três, psicoterapeuta, doula e coordenadora do grupo de apoio ‘Roda Bebedubem’, em São José dos Campos.
Publicado em 03.nov.11
Tags: amigas, doula, empoderamento, feminino, parteira, relato, São José dos Campos - SP, transformação














Ah esse círculo de fogo… ah esse círculo de mulheres sábias e empoderadas… Lindos relatos!
Parteira querida e amada essa Kátia, de mãos pequeninas e coração gde!
Lindo relato, Flávia! Lindo círculo de mulheres poderosas! E, q felicidade ter tido essa força em minha história!
Bjos carinhosos em tdas!
Se eu tiver uma alminha, quero que ela venha dentro de um círculo como esse. Tudo em mim desagua ao saber que somos capazes de parir tão fortes laços. Fica a gratidão por compartilharem histórias humanamente lindas.
rsrs… Sabia que eu conhecia esse nomes, mas só tive certeza quando vi a cidade. Lindo relato. Circulo magico msm, ou talvez espiral que vai se expandindo e levando a magia para mais e mais mulheres. Nunca vou conseguir agradecer por terem trazido essa magia para mim e por terem ajudado a trazer meu pequno para esse mundo dignamente.
Minhas amigas lindas… me sinto honrada em fazer parte dessa equipe maravilhosa, mesmo na cidade vizinha, estamos sempre unidas no mesmo objetivo!! Não me canso de ler o relato de vcs!! Vcs ensinam que ainda ha esperança para nosso sistema obstétrico falido!! AMO VCS!!
Quanta mulheres poderosas resgatando o parto como deve ser. Parabéns a todas e obrigada por compartilhar!
Linda história. Essas mulheres – não posso esquecer a Denise! – me ajudaram a trazer a mundo meu pequeno Ítalo, nascido em fevereiro desse ano. Nunca vou esquecer aquele dia especial. Sempre serei grata a vocês.