Pai em casa, sim senhor!
por Renata Penna
José, João e Clarita. Uma história que começa em 29 de dezembro de 2009, com um bebê pontual, chegado no mundo na data exata prevista para o nascimento. Coisa rara.
Mas 29 de dezembro é data ingrata: tempo de festas, mas também de folga no trabalho, e foi por causa dela que José perdeu sua licença paternidade, sobreposta ao recesso coletivo da PUC, onde trabalhava. João teve pouquinho tempo de contato intenso com o pai, José, que logo voltou ao trabalho, e em seguida às aulas da Faculdade de Letras, que frequenta até hoje.
Ana Clara – a Clarita –, esposa de José e mãe de João, estava sem trabalhar. Dedicava-se à casa e à vida de mãe. José trabalhava na PUC em horário integral, estudava na USP no horário noturno. Saía de casa cedo e voltava tarde. Via João sempre dormindo. Aos finais de semana, era dureza encaixar no pouco tempo de sábado e domingo tudo o que havia para fazer: trabalhos da faculdade, lazer como desse.
Mas João era uma alegria de bebê, e dava ânimo para continuar, mesmo com as distâncias e dificuldades de todos os dias. A vida não para, mesmo.
Foi então que Clarita, pedagoga recém-formada, recebeu resultado de um concurso prestado: passou – ia trabalhar na prefeitura. Era hora de escolher a melhor escola, entre as opções possíveis: escolheram uma a meio caminho entre a casa da família e a PUC, trabalho de José. João ficaria por lá enquanto pai e mãe estivessem trabalhando. O restante do tempo seria em companhia da mãe.
Mas os planos de João eram outros, e o pequeno não estava disposto a discuti-los: a adaptação à escola simplesmente não aconteceu. Desde quando chegou ao mundo aqui do lado de fora, João tinha colo de mãe o tempo todinho. Peito em livre demanda. O trabalho do pai possibilitava esse arranjo, fazia acontecer. Mas os tempos agora eram outros, e as necessidades também. José e Clarita tomaram a decisão: não era a hora de João ir para a escola. Não era essa a vida que a família queria.
José era praticamente um estranho para o próprio filho: viam-se aos finais de semana, e se o amor não faltava, o reconhecimento mútuo era às vezes desconfiado. Mas era preciso encontrar solução que atendesse aos desejos de todos. A solução se apresentou clara, cristalina: era hora de João e José estarem juntos, muito juntos, todo o tempo possível.
A crise da separação, as dores inevitáveis, viriam. Mas se não era possível ter colo de mãe o dia todo, João teria colo de pai.
Foi a hora de organizar as idéias: José repensou seus horários, cada atividade de trabalho, estudo e lazer que tomava seu tempo. Cortou aqui, reorganizou ali. Chegou ao trabalho com uma proposta de redução de horas – e proporcional redução de salário –, com a qual poderia ficar com João todas as manhãs, enquanto Clarita cuidaria do pequeno todas as tardes.
Proposta recusada, com as devidas bravatas: ‘vai ser babá agora??’, ‘tem que colocar seu filho em uma escola, todo mundo faz isso!’, e até mesmo “você não pensou na empresa, só pensou na sua família!!”. José não trabalhava em uma empresa, trabalhava em uma Universidade – mas parecia que todos haviam se esquecido disso.
Mas José e Clarita estavam firmes. Insistiram na proposta, e não tiveram escolha: José precisava pedir demissão. Foi o que fizeram, e José então passou a ter tempo só seu com João – tempo para criar intimidade, entender que choro era isso e que choro era aquilo, colocar à prova as teorias, já que até aquela hora a relação tinha acontecido muito timidamente, pela falta de tempo e presença de um para o outro.
José dava conta de quase tudo – mas quando era hora do leitinho da mamãe, João não aceitava conversa. Até hoje não aceita: se quer mamar, é a mamãe e só a mamãe. Mas em todas as outras horas, José e João foram acertando os ponteiros. Até mesmo no sono, a hora mais difícil. João, acostumado a dormir mamando, estranhava a presença do pai a tentar fazê-lo entregar-se ao sono de uma vez por todas. Foi sofrido, sim – para os dois lados. Mas pai e filho acharam caminho para se entender, com bola suíça e sling, dois artefatos caídos do céu que fizeram a dupla José/João deixar para trás os desencontros na hora da soneca. Penduradinho no sling, João sentia a segurança do colo de pai. Com o balanço da bola, vinha o sono, e João dormia contente no colo de José.
Nova fase na vida da família: depois de um período de merecido descanso e dedicação integral ao filhote, José voltou a trabalhar, de casa, com tranquilidade e muito gosto. O tempo passou a ser dividido: quando era hora de José trabalhar, Clarita ficava com o pequeno, e vice versa. Arranjo bom para todo mundo – pai e filho, mãe e filho, pai e mãe.
E assim as coisas na vida de João, José e Clarita foram se ajeitando. Com Clarita trabalhando na USP, João conseguiu vaga por lá, e a família inteira ganhou: família toda morando, estudando e trabalhando por ali, estavam todos bem juntinhos, perto, felizes da vida. E continuam até hoje, organizando horários, trabalhando e cuidando da coisa mais importante de todas: o pequeno João.
José não poderia estar mais contente, e conta: “O que posso afirmar é que não só eu era desconhecido para o João. O João também era um desconhecido para mim. Hoje somos bons amigos, temos intimidade, nos entendemos, conhecemos coisas um do outro que ninguém mais conhece, nos comunicamos bem, e ficamos muito bem, obrigado, quando Clarita está trabalhando, o que tanto é bom para o desenvolvimento do João, que já superou a crise da separação e está super bem adaptado na creche, quanto é bom para a Clarita, que agora trabalha sem peso na consciência, sabendo que João está feliz, mesmo sem a mãe a um chorinho de distância no período da tarde. E da minha parte, me sinto verdadeiramente pai e marido, além de conseguir trabalhar o suficiente para ajudar no orçamento, sem ter abandonado a faculdade”.
Pai em casa pode funcionar, sim. João, José e Clarita experimentaram, e estão aí para assinar embaixo e dizer que é bom, bom demais.
Jose Yoshitake tem 34 anos, é formado em engenharia da computação mas trabalha com tradução, revisão e transcrição de texto. Pai do pequeno João, casado com a bela Ana Clara, cursa Letras na USP e curte ser pai em período quase-integral.
Renata Penna
Mamífera, mãe das três pimentinhas Ana Luz, Estrela e Chiara, ‘casadamigada’, filha de dois, irmã de um e amiga de uns tantos escolhidos a dedo, escritora, redatora e atriz. Sou bicho da arte, só sei viver criando. Apaixonada por cinema, literatura e fotografia, adepta-praticante das intensidades da vida. Ser mãe me deixou de cabeça para baixo - e eu achei o maior barato.












Que história linda e inspiradora!!
Parabéns à família!
Que a gente possa ver cada vez mais pais ativos assim!
Ê!! Tudo verdade.
Essa familia é uma delícia.
bjo enorme!!