Lutando de mãos atadas

por Fernanda Café

Victor, Benjamin e Nanda: a família nascida junto (imagem: arquivo pessoal)

Não é um relato de parto, porque não foi um parto. Eu poderia ter escrito assim que cheguei do hospital, mas não tive tempo. Preferi esperar o primeiro mesversário de Benjamin, só por esperar, porque minhas dúvidas ainda são as mesmas, a dor ainda é a mesma e a indignação (ainda reprimida por não ter certeza que foi uma desnecesárea) também é a mesma.

Aqueles a quem envio esse relato sabem do meu desejo e luta por um parto natural. Morando em Maceió, local onde a humanização do nascimento – ou do atendimento médico em geral – sequer chega perto da realidade, e tendo um “wake up call” meio tardio, devo dizer que foi uma vitória achar um médico que coubesse minimamente nas minhas expectativas.

No domingo (29/03) eu passei um dia muito tranquilo com o namorado. Saímos para almoçar, assistimos um filme, namoramos bastante e de noite saímos pra tomar um sorvete que, como toda bom casal grávido, evoluiu para uma pizza. Saindo da pizzaria eu senti uma pontada MUITO forte lá embaixo, uma pressão que estava dificultando andar, e já que estávamos na rua, eu pedi pra darmos um pulinho no PS do plano de saúde. Sei que foi arriscado, podiam querer me internar ali e fazer uma cesárea, mas eu queria saber a quantas andava minha gravidez, já que o Dr. Fulano não tinha feito toque na última consulta (o que é bom, eu sei), e a dor era muito grande. Chegamos lá e foi constatado que não tinha nada de errado, e nada de dilatação também, o plantonista previu que iria demorar mais de uma semana pra chegada do Benjamin.

Benjamin, ao nascer: conhecendo a mãe

Na terça (31) eu tive consulta. Ele não fez toque, auscultou o bebê, conferiu que estava tudo OK e mesmo assim pediu uma US. Eu perguntei porque, ele disse que era só pra conferir o estado da placenta, já que naquele dia eu estava completando 40 semanas, mas também disse que se eu não quisesse fazer, não precisava, já que eu estava me sentindo bem, Benjamin se mexia bastante. Como eu sabia que a ultra-sonografista era um amor e super a favor do parto natural, além de ter certeza que não teria nada de errado, escolhi fazer. Marcamos para a quarta-feira. Victor perguntou pro Dr. Fulano uma estimativa de data, ele disse que do fim da semana não passaria, e ainda brincou: “Tomara que seja na quinta à noite, que eu já estou de plantão lá no plano de saúde“.

Na quarta (1) fomos fazer a ultra-som. Já estava com contrações doloridinhas, mas bem espaçadas e irregulares. A ultra-sonografista disse que era missão impossível fazer o exame com a paciente tendo contrações, mas ainda conseguiu nos mostrar as dobrinhas do nosso filhote gorducho, o coração dele, e disse que a placenta estava em ótimo estado, o cordão estava perfeito, e ele estava perfeitamente encaixado. Depois que eu já estava vestida, ela mencionou como quem não quer nada: “Ele estava com circular na última ultra?” “Não…” “Ah…” “Por que? Ele está agora?” “Está, mas você sabe que isso não tem nada a ver, você vai ter seu parto do jeito que você quer…”. Como eu já disse, um amor de médica. Ela disse que esperássemos o resultado que ela faria o laudo ali na hora, mas acabou a energia na cidade toda (!!!) e não teve como fazer nada. A essa altura, Victor estava fazendo um bolão entre os médicos, com a promessa de uma barra de chocolate pra quem acertasse a data. Ela disse que achava que ainda ia demorar, previu pra outra terça. Depois mudou pra domingo. A ajudante dela previu pra sábado.

De noite a dor das contrações começou a aumentar, mas nada insuportável. Victor e eu estávamos tão animados que mal conseguimos dormir. Acordei de madrugada com as contrações muito mais intensas e regulares, achei melhor não marcar nada e voltei a dormir. Victor foi trabalhar e eu fiquei dormindo, mas acordei umas sete da manhã com dores bem fortes e cronometrei por uma hora: sete em sete minutos, duração de 45 segundos em média. Liguei para Victor, que veio desnorteado e ligou pro Dr. Fulano, que instruiu para ficarmos em casa, arrumarmos o que faltava, para irmos ao plano de saúde somente à noite, depois das 19:00 que começaria o plantão dele. Mandei um e-mail pra Thay dizendo que tinha começado, decidi não avisar a lista caso fosse (mais um) alarme falso, já estava com vergonha de tanto e-mail…

Decidi que queria almoçar no shopping, comemorar o último dia de barriga. Passeamos bastante, comi tudo o que senti vontade, fomos nas lojas nas quais os vendedores já nos conheciam e morríamos de rir com a cara de assustados que todos faziam quando eu tinha uma contração e parava de andar, me apoiava… Com aquela barriga enorme, achavam que eu teria o bebê ali no meio do shopping, a qualquer momento.

mãe e filho (imagem: arquivo pessoal)

Quando cheguei em casa senti uma coisa descendo: era o tampão. A minha impressão foi de que ele saiu todo de uma vez, e então eu tive certeza que meu menino estava chegando, meu corpo estava preparado para a chegada dele, agora o negócio era com ele. Quando vim imprimir o plano de parto para distribuir pra equipe do hospital, vi a Rebeca online no msn e contei pra ela o que estava acontecendo, mas nem dei tempo dela responder…

Às 20:00 fomos no hospital dar uma checada na progressão do TP, quase batemos o carro no caminho, eu levei um baita susto e Benjamin também, parou de se mexer por um tempinho. Cheguei lá e tinha fila pra atendimento ginecológico, as mulheres queriam me deixar passar na frente, me olhavam horrorizadas quando eu agachava durante as contrações, mas eu nem quis passar na frente, as contrações ainda estavam de 5 em 5 minutos, durando 1 minuto, eu sabia que não estava tão perto assim. Benjamin havia voltado a se mexer, então eu estava tranquila…

Ouvimos o coração dele batendo normalmente, e fizemos o exame de toque: mal dava um dedo, 1cm de dilatação. Dr. Fulano me observou por um tempinho pra cronometrar as contrações, disse que a intensidade delas estava muito boa e mandou voltarmos pra casa para que o ambiente hospitalar não atrapalhasse o TP, mas que não demoraria muito… comentou que ele iria nascer no mesmo dia do aniversário de seu filho mais novo. Fui pra casa muito frustrada, achei que àquela altura já teria uns 4, 5cm de dilatação, mas relaxei e me deixei curtir o momento.

Chegando em casa, mandei Victor dormir e fui pro chuveiro com a bola. Coloquei o CD que havia gravado pro TP e fiquei lá uma hora e meia, deixando a água quentinha bater e aliviar a dor. Doía, bastante, mas eu não poderia estar num melhor humor: meu maior medo era não entrar em TP, principalmente porque meu pai chegaria na próxima semana para conhecer o neto e ainda não tinha neto pra conhecer. Depois desse tempo, me preocupei com a conta de energia (haha) e achei melhor andar um pouco, fiquei caminhando pelo quarto conversando com Benjamin e ouvindo os roncos de Victor, mas a dor fora da água era imensamente maior, e eu não conseguia mais aguentar calada, comecei a reclamar “Aiaiaiai” e Victor acabou acordando. Para deixá-lo descansar, decidi tentar dormir um pouco, ou pelo menos ficar deitada pra ver se cochilava entre as contrações, mas deitada doía ainda mais e eu desisti e voltei pro chuveiro. Tivemos uma briguinha por causa da contagem das contrações (eu ainda não confiava 100% nele, pois ele tinha cochilado daquela outra vez), mas já estavam com duração de 1 minuto e o intervalo era de 3 em 3 minutos.

o corte do cordão (imagem: arquivo pessoal)

Não havíamos percebido, mas já eram 5 da manhã, então decidimos voltar pro hospital pra ver a quantas estávamos. Eu já havia decidido que pediria internação de qualquer jeito, porque o quarto de parto natural do hospital tinha uma linda e enorme banheira quentinha que eu queria usar, e eu estava certa de que já estava com uns 6cm de dilatação, então não teria problema. Fui berrando o caminho inteiro por causa da (falta de) posição no carro, mas cheguei no hospital bem calma, pois não queria cadeira de rodas nem tratamento de mãezinha. As recepcionistas, que nunca deviam ter visto uma parturiente tão bem-humorada, riram muito do desespero do maqueiro que queria me colocar na cadeira de rodas de qualquer maneira, e eu dizendo “Não, que eu não estou doente: estou parindo!!” e ele “Minha senhora, a senhora tem o menino aqui no meio, eu não sei o que fazer…” “Não precisa fazer nada, eu faço tudo…”.

O Dr. Fulano me examinou novamente: ainda estávamos no mesmo 1cm de dilatação. Eu nem havia pedido, mas ele já havia solicitado a internação, mandou preparar o PPP (nome do quarto de parto normal) e reservar o apartamento, aí eu fiquei meio cabreira com a minha decisão de ir pro hospital, eu devia saber que o TP não tinha evoluído, devia ter ficado mais em casa. Mas me levaram pro quarto e a banheira tirou isso tudo da minha cabeça. Mandei uma mensagem pra Thay contando da internação, rezando pra não acordá-la, e fui pra água. Na banheira as contrações espaçavam mais, e eu me lembrei que não era recomendado entrar na banheira antes dos 6cm de dilatação por que atrasava o TP, mas a dor era tão grande fora de lá. Perguntei pra enfermeira e pro Dr. Fulano, que me garantiram que não havia problema, então fiquei mais um tempinho.

Victor havia chegado com todas as nossas coisas, incluindo o som com o CD de músicas relaxantes, então apagamos a luz do quarto e ele ficou fazendo massagens em mim com o massageador que havia no quarto, enquanto eu deitava na bola e tentava descansar. Minha tia e minha prima chegaram e ficaram na saleta adjacente ao quarto do parto, eu levei a bola pra lá e fiquei conversando com elas enquanto rebolava, nisso as contrações voltavam a pique… o Dr. Fulano chegou com a banqueta de cócoras e foi nos ensinar a usar, mas veio com um aviso: havia acabado o plantão dele, ele iria atender consultório e voltaria dali a umas duas horas, se não tivesse evoluído, teríamos que ir pra cesárea. Eu perguntei qual era o motivo, e ele disse que o TP não estava progredindo, minhas contrações estavam frequentes e com uma intensidade boa, mas o colo do útero não estava cedendo. “Mas o bebê está bem, não dá pra esperar mais que duas horas?” “Olha, até dá. Mas você tem certeza que vai preferir esperar que ele entre em sofrimento?”. Palavra mágica, né. Não pra mim, que sabia que ele estava longe do sofrimento, mas para Victor e consequentemente, o pedaço de família que já tinha chegado no hospital.

A Thay me ligou e disse para eu fazer os exercícios pra virar o bebê, além de respirar “cheirando uma flor e assoprando uma vela” durante as contrações, coisa que obviamente eu havia esquecido de fazer. Também indicou que eu agachasse amparada por Victor nas contrações pra ajudar Benjamin a descer, mas isso eu já estava fazendo. Eu contei pra ela do ultimato do médico, e ela disse que em último caso, eu pedisse o misoprostol para amaciar o colo do útero, não seria um PN, mas pelo menos seria um parto normal…

Aí eu comecei a me desesperar. Como é que eu iria relaxar e deixar o TP evoluir com um cronômetro pendendo na minha cabeça? Já estava totalmente arrependida de ter ido pro hospital, MESMO com as contrações de 3 em 3 minutos. Veio uma fisioterapeuta e me ensinou uma respiração pra ajudar a abrir o colo: eu deveria fazer força, empurrar mesmo quando viesse a contração, pra ajudar Benjamin a descer. Fiz isso por um tempo, mas já estava morrendo de fome e de sono, então decidi deitar na cama e dormir, simplesmente dormir e deixar a natureza agir (a-hã, quem é que dorme em pleno TP???).

Assim que me deitei, senti um ploct e soube que a bolsa havia estourado. Apesar do líquido claro, já eram 10 da manhã e eu só conseguia pensar que agora era mais um motivo pra me empurrarem pra cesárea, além de saber que não poderia mais voltar pra banheira e que a dor do exame de toque seria muito, mas muito maior. A enfermeira disse que eu podia voltar pra banheira, sim, mas eu preferi não arriscar e fiquei sentadinha na banqueta de cócoras, fazendo a respiração de força que a fisioterapeuta ensinou.

Dr. Fulano chegou, e meu pavor se instalou de vez. Eu sabia, simplesmente sabia que a dilatação não havia evoluído e que ele ia querer me abrir, só ficava pensando no que a Thay havia dito “Ninguém vai te amarrar na maca e te levar à força pra sala de cirurgia”, ninguém faria isso MESMO. Ele fez toque e confirmou a minha certeza, eu só havia evoluído mais meio cm de dilatação. Eu achei que esse meio cm seria o suficiente pra ele deixar meu TP correr, mas ele disse que já era pra eu estar com muito mais dilatação, com as contrações naquela intensidade e com aquele intervalo de tempo, e que eu teria que ir pra cesárea. Eu pedi, implorei pelo misoprostol, por ocitocina, qualquer intervenção que ele pudesse fazer para eu ter um parto vaginal, e ele me olhou cheio de pena e disse que não poderia fazer nada por mim, que as induções eram para estimular contrações, e contração eu tinha e MUITA.

Eu comecei a chorar e olhei pro Victor, que também já estava derrotado e me olhava com a mesma pena do Dr. Fulano. Liguei pra minha irmã e ela já estava aos prantos porque já sabia das notícias, e falou comigo com a voz que ilustrava os olhares de Victor e do médico. Eu nem precisava ir até a outra sala pra saber que veria a mesma expressão na minha tia e na minha prima, e foi aí que eu tive a certeza que estava sozinha. A idéia de Benjamin entrar em sofrimento assustou até Victor, que era a única pessoa que poderia brigar por mim e comigo. Pensava “Porque estão me olhando com essa pena? Eu estou tão empoderada, tão certa do meu parto, tão dona desse momento, é pra olharem pra mim com admiração, é para sentirem essa força emanando de mim, não é pra terem pena de mim” e fui murchando, fui perdendo toda a força que reuni durante a gravidez. Pedi 10 minutos ao Dr. Fulano para me acostumar com a idéia de que não iria parir, de que havia passado as últimas 30 horas em TP “em vão”.

Caí em prantos. Queria minha mãe ali comigo, queria alguém que pudesse me salvar da cesárea, que gelava meu corpo inteiro só em pensamento. Aí esvaziei de vez. O choro parou e eu fiquei apática. Se começasse a pensar na cirurgia que eu sempre temi, entraria em choque, e isso não era bom pra Benjamin nem pra mim. Liguei pra Thay, e até ela já sabia que eu iria pra cesárea mesmo, não adiantava nada que ela me dissesse. O médico voltou e disse que a sala de cirurgia estava pronta, eu podia ir pra lá. O mesmo maqueiro veio me buscar com a cadeira de rodas, e eu novamente me recusei a sentar, mas já não tinha graça nenhuma naquilo. Eu estava desnorteada, Victor teve que literalmente me empurrar no caminho pro centro cirúrgico.

Chegando lá, ele não podia entrar comigo, tinha que ir por outra entrada pra poder se paramentar, e uma enfermeira me enfiou uns sapatos esquisitos, uma touca na cabeça e me levou pra sala gelada de cirurgia. Ela dizia “Deita pra eu colocar o soro”, mas as contrações doíam demais e eu não conseguia deitar, principalmente de barriga pra cima como ela queria. E eu só dizia “Cadê meu namorado? Eu só faço qualquer coisa quando ele chegar…”, então ela me deixou sozinha, morrendo de frio porque eu estava com a bata encharcada de líquido amniótico. Eu tive que gritar por ela três vezes para que ela viesse desligar o ar-condicionado e tirar a minha bata, o que ela fez ligeirinho e me deixou lá de novo, pelada e sozinha.

Victor chegou, e com ele veio uma equipe enorme de médicos que eu nunca havia visto na minha vida. O Dr. Fulano disse que a Dra. Sicrana (pediatra) não poderia vir, porque a caminho do hospital havia batido o carro, e aí eu acordei e avisei pro Victor grudar na plantonista e não deixar aplicar o colírio nem a vitamina K. Ele disse pra ela “Olha, a gente elaborou um plano de parto que tem umas coisas sobre os cuidados com o bebê, as enfermeiras todas têm, você pode dar uma lida?”, e ela “Ah, eu acho que me falaram algo sobre, é…” e ignorou.

O anestesista foi logo perguntando porque eu não estava no soro, me explicou o procedimento, me infomaram que a cirurgia teria duração de 15 minutos, me ligaram a um monte de aparelhos, e como eu não queria deitar por causa da dor das contrações, me mandou sentar para aplicar a anestesia. Ele dizia “mãezinha, tá sentindo dor de ter nenê?” e eu sem entender o que era a dor de ter nenê, que era a contração. Ele disse pra eu informar quando estivesse acabando uma contração, porque tinha que aplicar a anestesia entre elas. Ele observou minha barriga e disse “tá acabando a dor de ter nenê? É a última que você vai sentir…” e eu pensava “Peraí, como assim a última? Se você tirar minha dor de ter nenê, como é que eu vou ter nenê?”, e o choro querendo voltar.

Acabei não prestando atenção no aviso dele e estiquei a coluna quando ele aplicou a anestesia. Levei uma bronca da sala inteira, menos do Dr. Fulano, que estava bem calado desde o aviso da pediatra. Ergueram o lençol, e eu parei de sentir tudo, as contrações, minhas pernas, tudo, só sentia a dor de saber que aquele momento não me pertencia mais. Sei que trouxeram uma música – que não era a minha – o anestesista filmava tudo enquanto Victor ficava fazendo carinho na minha cabeça… ouvi um outro médico perguntando “Bolsa íntegra, né?” e o Dr. Fulano respondendo “Não, bolsa rota. Ela está em pródromos há 30 horas, mas nada de evoluir…” e eu fiquei muito brava porque o outro médico sequer sabia da minha tentativa de PN…

Benjamin e Nanda (imagem: arquivo pessoal)

Soube na hora em que ele nasceu porque Victor disse “Como é cabeludo!!”, mas não ouvi o chorinho dele imediatamente, nem o trouxeram para mim na mesma hora. Um tempinho depois eu o ouvi, lá da sala de cuidados neonatais, e retornei da apatia. Perguntava “cadê ele? porque não põem ele pra mamar?” enquanto sentia os puxos e sacudidelas da costura. Uma eternidade depois, trouxeram ele ainda sujinho para que eu visse, e o mundo ao redor deixou de existir. Ele parou de chorar quando chegou perto de mim, e eu soube que não tinha espaço para lamentar o não-parto, não naquele momento. 10 segundos depois, levaram-no de volta e Victor foi atrás para cortar o resto do cordão, e garantir que nada fosse injetado ou pingado em Benjamin.

Deram banho nele e ele foi pro colo de Victor enquanto aguardávamos o maqueiro para nos levar para o apartamento. Eu queria pegá-lo no colo, queria colocá-lo no peito, mas a anestesia havia roubado a pouca energia que ainda havia em mim, eu só conseguia dormir, estava muito grogue. Não vi o caminho até o apartamento, mas sei que minha irmã já havia chegado, minha melhor amiga também, e o quarto estava cheio de gente.

A enfermeira veio para colocar Benjamin no peito e ensinar as técnicas de amamentação. Eu não conseguia nem focalizá-la, imagina prestar atenção e aprender as técnicas que ela ensinou… não sei quanto tempo se passou, mas acho que ele ainda mamou na primeira hora. Eu não senti. Não senti ele mamando, não conseguia ampará-lo, não conseguia fazer nada. Estava inutilizada.

A cesárea trouxe meu bebê, mas tirou todo o resto de mim. Não tive um pós-operatório fácil, só consegui carregar Benjamin uns 5 dias depois (só conseguia segurá-lo deitada). Desmaiei quando me levantaram pro banho na manhã seguinte. Meus baby blues duraram uma semana, uma semana de muito choro por precisar do namorado para desabotoar a cinta para que eu pudesse ir ao banheiro, uma semana de muito choro por não conseguir andar, abaixar, me esticar e ficar tão dependente de todos.

Mas eles passaram. Assim como a dor física e patre da dependência. A dor espiritual? Acho que essa não passa. E a tal saudade da barriga está batendo, enquanto Victor e eu já pensamos no próximo bebê que nascerá em casa.

No dia da alta, o Dr. Fulano me explicou que Benjamin ainda estava virado pra cima, e que provavalmente não tinha feito o giro por causa da circular de cordão em seu pescoço, que não estava fazendo compressão, mas que poderia fazer caso ele se virasse. O motivo pelo qual ele não se virou e encaixou propriamente para fazer pressão e abrir o colo tinha sido um mecanismo de defesa. Eu não sei. O silêncio do Dr. Fulano na sala de parto me fez pensar que talvez ele estivesse simplesmente cansado do plantão noturno de 12 horas, quisesse ir pra casa, dormir um pouco e curtir o aniversário do filho. Eu ainda estou criando coragem para confrontá-lo, perguntar porque ele não me deixou na mão do plantonista, mas pra isso eu preciso ter certeza de que fui submetida à uma desnecesárea.

Esse relato de parto causou um tremendo desconforto na “cena” do parto humanizado em Maceió, que se resumia a esse médico e algumas mulheres que eram minhas conhecidas da internet – e atendidas por ele. Por isso o nome dele não é citado. Ele recebeu esse relato das mãos de terceiros, uma vez que o mesmo foi enviado às listas de discussão, e não gostou nada do que leu. Hoje, toda e qualquer mulher que chegue munida de informações ao seu consultório, é imediatamente informada sobre o que aconteceu comigo, sem citar nomes. E eu sei que na luta diária pela humanização do atendimento, terei que confrontar-me com ele eventualmente.
Se na época da redação deste relato eu não tinha certeza sobre a desnecessidade da cesariana, hoje eu tenho. Peguei o meu prontuário e encaminhei para pessoas que levam o estudo da obstetrícia a sério, mantendo-se atualizadas e sustentadas por evidências científicas. E adivinhem só: não há nenhuma que sustente a necessidade da minha cesariana, visto que até no prontuário constava que eu estava em pródromos, não em trabalho de parto. Hoje eu tenho certeza de que eu fui violada, no meu corpo e no meu direito, como muitas e muitas mulheres Brasil afora são diariamente. E graças às cicatrizes emocionais e físicas, tenho vontade de lutar mais e mais para mudar a situação obstétrica no Brasil.

Fernanda Café

Fernanda Café

Fernanda Café, feita de ironia e com o superego em falta, características passadas para o pequeno Benjamin que do alto de seus 2 anos já desconcerta qualquer um. Ri de si mesma por não conseguir rir dos outros e tem o canal lacrimal em ligação direta com o coração. Uma jornalista com diploma tal e qual o marido, mas preferiu exercer a profissão de mãe. Tenta abraçar o mundo com as pernas, mas sempre arruma um tempinho para os quadrinhos, seriados enlatados, literatura de fantasia, RPG e o maior dos seus vícios: a internet. Em constante aprendizado de coisas novas para poder mudar de opinião à vontade.


8 comentários na matéria “Lutando de mãos atadas”

  1. Dani disse:

    Isso aí Nanda, me sinto da mesma maneira.
    QUando penso no que poderia ter evitado para meu filho, meu coração aperta e meus olhos ficam merejados.
    Nessa gravidez, quero parir Alice com todo meu ser! estou preparada pra isso, e aqui na Inglaterra, não preciso brigar nem um pouco, todos querem que eu tenha um VBAC! outra realidade.

  2. Flavia disse:

    Nanda,

    me emocionei tanto ao ler o seu relato…

    tenho certeza que essa história e a tua luta ajuda, e vai continuar ajudando a muitas mulheres em Maceió e pelo Brasil a fora.

    um beijo carinhoso.

  3. Rebece disse:

    Pródromos, putz! É de matar, se ele sabia pq não mandou embora? Posso me valer do poder a mim conferido pela TPM e xingá-lo? Melhor não, né? rs
    Beijocas, Nanda, o que é seu tá guardado! Vc vai curar suas feridas parindo e ajudando outras a parir!

  4. Rebeca disse:

    Errei meu nome, sentiu a ira? rs

  5. Paloma disse:

    Dói muito, né? Acho que a marca da desnecesárea fica lá pra sempre. Mas depois de um parto domiciliar emponderador ela abranda. Foi assim comigo. Vai ser assim com você. As vezes era necessária para nos dar mais força na luta para que outras não contem a mesma história. Beijo no coração.

  6. Maitê Maronhas disse:

    Fiquei com uma dúvida, mesmo tendo rompido a bolsa era um pródromo e não TP?

    1. Maitê, a cesariana aconteceu menos de 1h após o rompimento da bolsa. Os estudos mostram que provavelmente o TP teria engrenado após o rompimento (natural) da bolsa, mas o médico preferiu não esperar.

  7. Anne disse:

    Nanda, só hoje li ao seu relato, acredita? Só agora, depois que vc colocou o link no post de hoje no blog aqui do Mamíferas. Não lembro se li na época (se li apaguei da minha mente por ser o mesmo obstetra que me acompanhou) ou li com outra dimensão e visão, uma vez que ainda não tinha filhos. Lembro muito bem é do medo que senti de ter o meu parto roubado. Felizmente consegui parir; embora não tenha sido natural, embora não tenha sido um parto cheio de glamour, floreado e fofo, foi o parto que consegui. Infelizmente o cenário da obstetrícia aqui de Maceió não melhorou significativamente desde o nascimento de Benjamin (nem mesmo desde o nascimento de Isis) pra cá. O que nos resta fazer é “recriar o paraíso agora para merecer quem vem depois”. Abração e sigamos em luta!


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