O Parto Não Sonhado
por Kalu Brum
Edição: Renata Penna

Ingrid e o filho João, nascido de cesárea desnecessária: e quando o parto não é o que sonhamos? (foto: arquivo pessoal)
Diante de uma gravidez, especialmente a primeira, não é incomum que as mulheres saibam pouco sobre suas responsabilidades diante do parto. Nem sempre a consciência de que o médico ‘simpático’ do seu pré-natal não vai fazer o que você deseja, mas sim o que ele sabe e acredita ser o melhor dentro de seus paradigmas e limitações, vem rapidamente. Para algumas mulheres, nasce de imediato; para outras, é um processo mais demorado.
Ao assumir o protagonismo de seus partos, mulheres trocam de médico, buscam apoio de doulas e encontram seus caminhos pessoais para vivenciar o parto idealizado. Mas a vida não segue roteiros. Muitas vezes, as coisas simplesmente não saem de acordo com o idealizado. Aí, chega a hora de lidar com a frustração: meu parto não foi o que eu desejei que fosse, e agora?

a veterinária Cristina Ribeiro, com as filhas Julia e Luiza: dois partos que não aconteceram como planejado (foto: arquivo pessoal)
A veterinária Cristina Ribeiro, mãe de Julia (7) e Luísa (5), sabe por experiência própria como é passar por isso. Em sua primeira gravidez, o médico estava otimista em relação ao parto normal. Mas com 36 semanas de gestação, passou a fazer repouso por indicação médica e, segundo ela, a ausência de ocupação a deixou ansiosa: “As contrações de Braxton, responsáveis pela preparação do útero, foram se intensificando, e com quase 39 semanas, meu médico disse que meu corpo tentava entrar em trabalho de parto, mas não conseguia. Que talvez devêssemos tentar uma indução. Na época, eu não acreditava que induzir o trabalho de parto com 39 semanas fosse uma intervenção significativa, então aceitei. Depois de 6 horas de trabalho de parto muito tranquilo no hospital, o obstetra me examinou e disse que os batimentos cardíacos da bebê estavam irregulares, e indicou uma “cesárea de emergência”. Nessa hora, acreditei que era o melhor. Até então, eu estava feliz e tranquila, mas a partir daí não me senti bem. Ficar separada da Julia logo após a cirurgia foi horrível, eu fiquei ansiosa na recuperação, pois ela foi levada ao berçário. Quando fui ao quarto, tive reação aos anestésicos e tremia muito de frio, mal conseguia segurar ela para mamar, e o corte doía muito quando eu me levantava, ou mesmo quando a pegava no colo”. Cristina conta que, nos primeiros dias de vida da filha, por dificuldades que teve, esqueceu-se do parto, mas quando descobriu que sua cirurgia tinha sido desnecessária, ficou decepcionada: “Não gostei nem um pouco da cirurgia, nem do modo como ela nasceu, mas pelo conhecimento que eu tinha na época, não soube fazer diferente”, desabafa.
Ingrid Lotfi, analista de sistemas e doula, 34 anos conta que desejava um parto normal em sua primeira gestação, há 8 anos, e acreditava que seu médico respeitaria seu desejo, e não a operaria sem necessidade. Entretanto, não aconteceu bem assim. Seu filho João nasceu de uma cesárea desnecessária: “No final da gravidez, ele indicou uma cesárea por motivos que, depois vim saber, não justificavam um procedimento cirúrgico. Acho que todas as mulheres, se não pesquisarem um pouquinho, se não questionarem o elevado número de cesáreas, correm o risco de serem não só iludidas como engolidas pelo sistema. Mesmo quando sabemos o quanto é difícil parir no Brasil, isso não é o bastante para escapar de uma cesárea desnecessária. É preciso sair da zona de conforto”, reflete.
Sair da zona de conforto foi exatamente o caminho que a veterinária Cristina resolveu trilhar, quando se descobriu grávida pela segunda vez. Queria um parto bem diferente, e decidiu informar-se e preparar-se para isso: “Conheci mulheres que tinham tido partos normais, partos domiciliares. Li muito a respeito, encontrei parteiras (enfermeiras obstetras) e doulas. Passei a gestação mais confiante, informada, e achava que estava preparada para tudo que pudesse acontecer no parto domiciliar. Estava ciente até mesmo dos riscos, mas sabia que eram menores que os riscos de uma cesárea sem necessidade. Esperamos a Luiza querer nascer, o que aconteceu com 41 semanas de gestação. Foi ótimo, porque ela escolheu a hora dela, as parteiras me ajudaram a manter a calma e a pediatra que nos acompanhou também me ajudou muito a lidar com a ansiedade da espera desta vez”, relembra.
Quando chegou a hora da pequena Luiza nascer, contudo, mais uma vez as coisas saíram do planejado: Cristina entrou em trabalho de parto à meia noite, e seguiu com contrações por toda a madrugada. Mesmo com toda a preparação, a expectativa acabou se transformando em nervosismo: “No final da tarde, fiquei muito nervosa porque a Luiza não descia mais. As contrações doíam, estava cansada e começava a achar que alguma coisa não ia bem, por isso pedi para ir ao hospital”. Já no hospital, Cristina foi atendida com atenção e carinho, recebeu anestesia em dosagem baixa para não perder os movimentos e poder caminhar e se movimentar, para que o trabalho de parto continuasse evoluindo. Porém, mais tarde, com a intervenção de outro médico, bastante grosseiro, Cristina viu cair por terra suas chances de parir naturalmente: “Ele foi muito grosso, entrou na sala de parto criticando ‘uma mulher que tentava parir em casa’, reclamou por eu estar em trabalho de parto há tanto tempo (cerca de 20 horas, a esta altura), me examinou sem nenhuma delicadeza, reclamando que o meu útero era ruim e que eu não iria parir nunca. Foi quando eu desisti de tentar, e pedi para a médica fazer a cesárea, pois eu queria que aquele médico saísse de perto de mim”. Luiza nasceu muito bem e, diferentemente da irmã mais velha, pode mamar após o parto e permancer junto da mãe. Cristina, entretanto, conta que aceitar o parto que não aconteceu não foi fácil: “A recuperação cirúrgica foi igualmente ruim, mas neste caso a psicológica foi pior”.
Segundo a psicóloga Ana Bach, a construção de um plano de parto – uma espécie de ‘roteiro’ em que a gestante esclarece todos os seus desejos para esse momento especial - faz parte de uma descoberta pessoal e, logo em seguida, do casal: “É uma busca de informações com senso crítico. Por isso é necessário questionar e refletir sobre o próprio desejo. O que geralmente acontece é que o papel principal, que seria da gestante, é assumido por outros: o hospital, o marido, a sogra, ou qualquer figura que possa assumir aquilo que não estamos prontos ou não nos sentimos capazes de assumir”.
Para Cristina, ter vivido uma cesárea no nascimento de sua primeira filha não foi algo tão doloroso, mas na segunda experiência, foi realmente sofrido: “Tudo saiu do planejado de maneira muito radical: de um parto domiciliar para uma cesárea com um médico que eu não conhecia, falando bobagens, tem uma distância grande. Durante muito tempo, eu me culpei pela fraqueza de não ter acreditado em mim e na equipe que eu escolhi, e ter decidido ir para o hospital. Até hoje não entendo direito porque eu quis ir para o hospital, e ainda me arrependo disso”, relata.
Já para Ingrid, a cesárea trouxe uma recuperação difícil: “O pós-cirúrgico foi bastante ruim. Sentia muita dor, pressão baixa, tonturas, desmaios. Além disso, um vazio muito grande que eu não entendia muito bem de onde vinha. Era um lamento profundo, como se a cesárea tivesse sido um mal necessário. Ao mesmo tempo, me cobrava, porque deveria estar feliz com a chegada do meu filho”, relembra.
A psicóloga Ana explica que é importante transformar a frustração em aprendizado quando as coisas saem do planejado, pois estas são grandes oportunidades de crescimento e transformação: “ É preciso falar e buscar acolhimento. Afinal, a forma como o bebê nasce é importante, mas a maternidade não se resume à via de parto. Se as coisas não saíram como sonhamos no parto, podemos fazer das outras relações melhores, solicitando a inteireza da mulher e sua capacidade de entrega à maternagem. Parir por si só traz uma série de sentimentos ambíguos, novos e intensos. O parto possível, a aceitação das próprias dores e medos são uma oportunidade de lançar um novo olhar sobre si mesmo”.
A veterinária Cristina seguiu este caminho: “Tentei compensar minha filha pela maneira que ela veio ao mundo através da amamentação. A Luiza mamou em livre demanda até mais de um ano de idade, apesar de eu trabalhar e ela ter ido para o berçário com apenas três meses de idade. Foi como consegui mantê-la mais junto de mim. Mas ainda hoje tenho dificuldade para falar deste parto, e aceitar as decisões que eu tomei”, diz, comovida.
Já para Ingrid, a dor do parto não vivido virou sinônimo de transformação. Dela, surgiu uma nova experiência: “Aos poucos, lendo os relatos e conversando virtualmente com algumas mulheres, tive idéia do meu equívoco. Sofri bastante depois por ter desperdiçado essa experiência. Tive raiva do médico e senti culpa por não ter procurado outra equipe no final da gravidez, uma equipe que não nos submetesse a um procedimento tão mais arriscado sem nenhuma necessidade. Com o tempo, também fui percebendo o quanto minha abstenção e passividade também contribuiram com esse desfecho”.

Ingrid e sua pequena Serena, nascida naturalmente em casa: depois da dor, a transformação (foto: arquivo pessoal)
A busca por compreender os caminhos que a levaram a vivenciar o parto de seu primeiro filho como foi fez Ingrid tornar-se doula – alguém que ajuda outras mulheres a parir. Oito anos mais tarde, grávida de sua segunda filha, ela pode fazer escolhas diferentes: “Já tinha acompanhado muitas mulheres em suas gestações e partos. Estava decidida a fazer as coisas do meu jeito, na minha casa. Não me preparei exatamente para o meu parto, pois essa busca me preparou para a vida. Percebi que o que me faltava era plena confiança no meu corpo, além de um entendimento mais amplo da cultura médica, da sua formação, da realidade dos planos de saúde e do medo enraizado presente em toda a sociedade quanto o assunto é deixar a natureza agir. Investi bastante no vínculo com a minha equipe e fui participante e ativa durante todas as decisões. Isso fez toda a diferença.” Para Ingrid, vivenciar um parto diferente no nascimento da pequena Serena foi a concretização de um sonho: “Com o João, eu não ousei ir onde eu não dominava e acabei delegando muito daquilo que era meu de direito. Com a Serena, eu simplesmente fui eu mesma, sabia o que queria e isso facilitou muito o processo. Eu estive presente o tempo todo e durante a gravidez, parto, e continuo totalmente presente, no comando, agora, exercendo a maternidade. Desta vez, eu assumi o meu papel. Na primeira vez, não”, finaliza, segurando nos braços a pequena Serena, nascida naturalmente, em casa.
Aceitando ou transformando, o importante é não negar a frustração, aceitar a dor e não se deixar abater, além de ter coragem para compreender os caminhos que levaram um parto a acontecer como aconteceu. Nem sempre as coisas saem como planejamos, ou como desejaríamos que acontecessem. Mas o que faz a diferença é como lidamos com a situação, e o que nos permitimos aprender com ela.
A terapeuta e escritora argentina Laura Gutman diz que a maternidade é um encontro com a própria sombra. Se assim é, deste encontro com o obscuro podemos ver a luz surgir, e iluminar todos os aspectos de nossa vida.
Publicado em 09.jul.11
Tags: cesárea, dores, frustração, parto, parto domiciliar, parto normal, transformação, tristeza
Edição: Renata Penna
Kalu Brum
Eu era jornalista. Virei mãe do Miguel, nascido em um parto domiciliar a jato e me apaixonei pela profundidade deste mundo mamífero. Minha alma encontrou seu destino. Decidi: quero esta ocitocina para sempre. Virei fotógrafa de gestantes e doula. Ativista, praticante de Yoga, Reiki e Meditação. As vezes doce e pacífica, na maioria intensa e radical. E assim vou me encontrando e tropeçando pela luta pelos direitos da Mãe.








Lindo, lindo, lindo. Com lágrimas nos olhos.
obrigada!
A falta de informação e nossa insegurança em relação ao que de fato podemos traz mesmo essas frustrações. Eu tive coragem de mudar minha médica de dez anos por ter dúvidas se ela não me induziria a uma cesárea sem necessidade. Tive um parto normal hospitalar sem anestesia, com uma médica em que confiava muito e acompanhamento de doula. Porém ainda não sei se a episiotomia feita após poucos minutos em que minha filha havia coroado e eu não conseguia fazê-la sair era mesmo necessária e durante um tempo achei que a culpa era minha por não ter praticado os exercícios de expulsão ensinados pela doula e não aguentar fazer força por muito tempo sem respirar, quem me dirá afinal?
Ju Ribeiro, minha história foi parecida com a sua, hoje tenho certeza que o principal motivo de eu ter sofrido uma episio (e outras intervenções) foi o fato de eu estar deitada no período expulsivo. Primeiro, porque a posição não facilita para nós e, segundo, porque fica mais fácil para o profissional intervir! Talvez eu tivesse uma laceração imensa, para todos os lados, como o médico depois disse que era o medo dele, mas nunca vamos saber não é?
Beijos.
A gente fica indefesa diante da palavra de um medico! No momento que me disseram que deveria ser uma cesarea, pensei que a vida do meu filho poderia estar em risco! Estou compensando na amamentaçao, mas espero que na proxima consiga um parto natural!
Adorei o site! Parabens!
Lamento muito (ainda) não ter tido força de ir contra o que eu sabia que estava errado. Além da informação é muito difícil para a mulher (e admiro muito as que conseguiram) assumir a responsabilidade e ir contra todo o sistema. Eu falhei… 2 vezes. Fico muito feliz quando leio relato de pessoas que conseguiram mudar a história!
Adorei o texto!
Beijos
Blog incrivel. Parabens. Uma coisa importante que eu acho é que devemos parar de tratar os medicos como donos da certeza absoluta. São pessoas normais, bons e maus profissionais como em qualquer atividade. Como qualquer outra pessoa nós mulheres-mãe temos condiçoes de entender e assim decidir o que é melhor para nós. Abraço forte
Sempre desconfio de “verdades absolutas”… Tenho um pé atras com a medicina tradicional, pois ela costuma abrir mão de conhecimentos seculares (a medicina chinesa por exemplo). A lógica me fez procurar assistencia para um parto domiciliar na minha primeira gestação a 14 anos, e recentemente tive minha segunda filha, também em casa, apesar de já ter passado dos 40 anos. Buscando com cuidado acredito que se possa encontrar profissionais de saúde, parteiras ou até mesmo médicos, que estejam dispostos a buscar um parto natural, sem intervenções quimicas, e sem medos… Mas é responsabilidade de cada gestante saber como são os procedimentos habituais, convencionais, e os naturais de um parto e realmente assumir a responsabilidade de sua escolha, “montando sua equipe” e tomando frente ao trabalho de parto. Quem faz um parto é a mãe e o filho que vai nascer!