Qual a Medida?
por Pérola Boudakian
Será que existe uma medida correta e exata para alimentação das crianças?
Eu já estive dos dois lados dessa história. Já fui uma mãe super perdida, com pouca informação e que acreditava que não fritar os alimentos já era um sinal de saúde. Eu vivia dizendo que não tinha tempo, que trabalhava demais e que era mais fácil ter opções mais “práticas” em casa. Depois comecei a ler tudo sobre alimentação saudável, natural, livre de industrializados, de corantes e fui para o outro extremo: querer o naturalismo puro. Muito difícil também.
Hoje, me pego pensando nesse caminho do equilíbrio. Como é? Qual a medida? Há uma fórmula universal? Francamente falando: não acredito em fórmulas. A alimentação de cada pessoa é resultado da construção de sua identidade, faz parte da forma como percebemos o mundo, de como nos comportamos e do que desejamos ou não absorver.
Fato é que atualmente temos uma gama enorme de produtos. Veja bem: produtos alimentícios e não alimentos, disponíveis nos mercados. Muita coisa industrializada, cheias de conservantes, de flavorizantes, de glutamato monossódico, de açúcares, e o que mais se pode imaginar. E isso, de fato, não é saudável, não faz bem para o corpo, descontrói as possibilidades de conhecer novos sabores e de saber apreciar os sabores reais: o sabor do morango, da uva, do brócolis, a doçura da cenoura, e não o alimento com essência de morango, com “sabor idêntico ao de morango”. Existe um salto enorme entre o alimento real e os produtos feitos a partir do alimento, que contêm muita química e pouca propriedade nutritiva.
E se eu negar sanduíches de fast-food para meus filhos, eu os estarei criando numa espécie de bolha? E se eu oferecer só uma vez ao mês, estarei sendo mais equilibrada? Saúde é nunca ter tomado danoninho? Ou devorar todos os legumes?
Não sei se há uma resposta exata para isso, pois cada família é em si um universo particular, com suas referências próprias para alimentação. Mas há de haver bom senso entre o que é prejudicial e o que é bom para uma criança.
Eu diria que danones com sabores artificiais todos os dias não é uma boa, tampouco refrigerantes, chocolates e doces açucarados, ou salgadinhos cheios de sódio e gorduras trans. Eu apostaria numa alimentação natural, próxima daquilo que obtemos naturalmente da terra: legumes, frutas, hortaliças, alimentos integrais, sucos naturais, doces naturais. Ocasionalmente, incluir na dieta algum alimento industrializado não é o fim do mundo, mas é algo que não pode ser entendido como naturalizado e cotidiano. Eu, particularmente, não acredito que para incluir socialmente uma criança, eu tenha que levá-la a restaurantes fast-food e deixá-la comer de tudo.
A alimentação deve ser algo natural, simples, coerente com a forma como a família encara a vida. Sem neuras. Se não há “demonização” de fast-food, a criança provavelmente nem tomará conhecimento de sua existência. Há de se ter leveza e naturalidade, mas não imprudência. E imprudência é entendida aqui como permitir o acesso das crianças ao que não faz bem, ao que prejudica e não promove saúde.
Penso que o mais prudente é que cada família reveja sua alimentação, a forma como se relaciona com o alimento, como encara todas essas informações, para a partir daí chegar a um lugar confortável. Confortável, não cômodo. Comodismo estagna e paralisa. Movimento, conhecimento e informação sempre e muito jogo de cintura para driblar o apelo consumista da alimentação. E, claro, braço forte para nadar contra a corrente!
Pérola Boudakian
mãe do Felipe e da Beatriz, mamífera, psicóloga clínica por encontro e cozinheira por paixão. Juntou as panelas com as vivências terapêuticas, e saboreia a vida com intensidade. Escreve no Com a Pé na Cozinha, e papeia em 140 caracteres por aí, no @penacozinha.










É, Pérola! Aqui também já passei pelos dois extremos. Benjamin ficou em uma bolha até os 2 anos, depois afrouxei as amarras. Não adianta restringir demais e muito menos liberar demais. Apresentar os alimentos às crianças e deixar que elas escolham, essa é a saída.
E que mal faz o brócolis dividir o prato com a batata frita?