Desejos, dúvidas, medos…

por Mariana Tezini

Desejo impossível

“Como lidar com o fato de querer ter mais um filho e isso não ser possível?” (Carolina)

Carol, você diz que não é possível, então você quer saber como lidar com a aceitação desse fato, é isso? Vamos lá, não sei se é o caso de você querer mais um filho e seu marido não ou se você está solteira e quer mais um filho ou se você acha que não pode engravidar (idade, problemas de fertilidade) ou se é um problema da sua vida profissional. O que te impede de realizar esse desejo nesse momento? Ele depende de outra pessoa para ser realizado? Se você é casada, acredita que essa seja uma decisão do casal? O que você aceita abrir mão agora por mais um filho? Porque você quer mais um filho agora? Hoje em dia qualquer arranjo é possível: adoção, produção independente e muitas outras, a questão é bancar as conseqüências da sua escolha, inclusive de não ter mais um filho mesmo querendo que isso aconteça. Como você pesa essa decisão daqui a muitos anos? Carol, pensar num filho e tomar a decisão de ter ou não envolve responsabilidade. Se depois de refletir você achar que isso será uma frustração muito grande e que não quer sacrificar a vontade de ter mais um filho, vá atrás do seu desejo. São reflexões que só você poderá fazer para achar suas respostas.

Convivendo com outras crianças

convivência entre as crianças: estimular ou deixar acontecer? (foto: Kalu Brum)

“Temos uma menininha de 3 anos, a Letícia. Ela ainda não vai à escola, mas estamos tentando fazer com que ela acostume com o convívio com outras crianças, levando-a em lugares como parquinhos, casas de amigos e, agora, na evangelização infantil. Com poucas crianças ela fica bem; quando são muitas, ela fica assustada. Sempre me mostro presente, incentivo ela a ficar com crianças que tenham a personalidade dela (calma, que goste de brincar de bloquinhos, desenhar etc), aí ela se acalma, mas se assusta com brincadeiras e crianças mais bruscas. Não tem nenhuma criança de convívio próximo a ela, já que os primos moram todos longe. Vejo que ela tem uma certa dificuldade de se enturmar com crianças, com adultos não tem problema nenhum. Me lembra muito eu quando era pequena. Gostaria que vocês me dessem dicas sobre como lidar com essa situação.” (Fúlvia)

Fúlvia, acredito que não exista motivo para você se preocupar com a Letícia. O convívio com outras crianças deve ser algo natural, num parque, por exemplo, como você já está fazendo, o ideal é deixá-la escolher como e com quem brincar, e apenas se ela chamar por você é que você deverá intervir. Aos poucos ela vai escolhendo com quem gosta de brincar sem que seja forçada a nada, mesmo que você sinta que é correto uni-la a crianças parecidas com ela, ela vai te dar dicas das suas preferências. Ela vai aprender a lidar com a diversidade e mais do que isso, respeitar o espaço de cada um, seja da criança mais tímida ou daquela mais expansiva conforme as situações forem aparecendo e com certeza vai encontrar suas próprias saídas. Assim vocês vão aprendendo a lidar com o jeitinho dela, sem tentar encaixa-las num padrão correto, até mesmo porque isso não existe, o que existe é a individualidade de cada e o tempo de cada criança. Eles experimentam muito nessa fase, inclusive brincadeiras bruscas e alguns tapas, morder e bater, e é a nossa responsabilidade mostrar o que pode e não pode ser feito, e transmitir seus valores. A gente só aprende a lidar com isso na prática né? E é vivenciando isso tudo naturalmente que eles entenderão as regras da vida em sociedade. E existe essa fase de bater e apanhar, aonde a criança aprende a lidar com os limites e respeitar o outro. Percebe também que a frustração faz parte da vida. Quando ela se assustar com alguma atitude de outra criança, você pode explicar pra ela, por exemplo, que a menina está com ciúme do brinquedo e por isso não quer emprestar, aos poucos ela vai começando a entender os sentimentos dela e dos outros. E o mais importante é que não existe nenhum problema da Letícia se enturmar melhor com adultos do que com outras crianças, certo?

Lidando com os Medos

“Meu nome é Luciana, tenho 33 anos, sou engenheira florestal atuante e apaixonada pelo que faço! Minha trajetória de vida me fez deixar de lado por um bom tempo esse desejo nato das mulheres de ser mãe, o que resgatei há uns três anos atrás junto com meu companheiro Rafael. Estamos grávidos, nos apaixonando aos poucos por essa criaturazinha que está em meu ventre e que começa a dar sinais de comunicação conosco. Tudo está uma delícia e temos certeza do que queremos: um parto natural, com o mínimo de intervenções possíveis e uma chegada tranquila para o nosso(a) filhote! Mas as dúvidas são eternas e cada hora surgem mais e mais. Atualmente é o medo de não encontrar um profissional que nos acompanhe respeitando nossas vontades. E medo principalmente da epsiotomia, que não quero de jeito nenhum e medo do que isso pode acarretar (lacerações, perda de sensibilidade, etc). Essa dúvida me persegue e por mais que esteja praticando yoga e hidroginástica, quando penso nessa região tão importante para nós mulheres fico meio ansiosa e sem saber como trabalhar isso dentro de mim. Enfim, meio pergunta, meio desabafo. O que posso fazer para lidar com essas questões?” (Luciana)

gravidez é também momento de encarar os medos (foto: Kalu Brum)

Luciana, parabéns pela gravidez! Na busca por um parto natural a melhor coisa a se fazer é ir atrás de informação e nesse caminho é muito bom que você possa contar com seu marido. Comece sabendo que o nosso corpo, o períneo inclusive, tem toda a capacidade para passar pelo parto sem episiotomia, fomos feitas para dar a luz naturalmente. Busque informações sobre a episiotomia, busque profissionais que te ensinem a fazer a massagem perineal e lembre-se que se a mulher tem liberdade para escolher a melhor posição para parir, isso evita o risco de lacerações. Muitas das rotinas hospitalares só podem ser evitadas se você estiver com uma equipe de confiança e munida de muita informação, caso contrário as intervenções serão inevitáveis e ocorrerão em cascata: uma internação precoce leva a uma indução, que leva a anestesia, aonde você fica com a mobilidade reduzida, que pode levar a uma episiotomia ou a uma cesárea, isso pra falar por cima. Geralmente tudo isso é feito sem seu consentimento ou sem informar a você. A laceração natural é bem mais superficial e sua cicatrização é mais rápida e fácil. Inicialmente essa incisão (episiotomia) era para aumentar o canal de parto em casos emergenciais, porém hoje é pratica comum, popular e pouco eficaz na maioria dos casos. No entanto o respeito ao parto não leva em consideração somente a episiotomia, mas tudo o que envolve a gravidez, parto e pós parto. Você já iniciou o caminho de busca por um parto digno. O difícil não é encontrar um médico ou uma parteira que respeite suas vontades, isso você não precisa temer, a questão é querer de verdade e aceitar que são poucos os profissionais que atendem de forma humanizada. Onde você mora? Use seu medo a seu favor, encontre grupos de gestantes que tenha afinidades com a sua escolha e busque o melhor atendimento para seu parto.

Desmame, sim ou não?

“Estou num momento difícil nessa fase do meu bebê. Ele tem 2 anos e 2 meses e ainda mama em mim. Mas já fazem alguns meses que ele não ganha peso. O médico disse para tirar do peito porque ele mama antes de comer e acaba perdendo o apetite.  Não sei como fazer, não sei se sou forte o suficiente pra negar pra ele o peito. Ele pede com uma carinha maravilhosa, e é um momento tão gostoso que a gente fica junto. Ele já vai pra creche e passa lá o dia todo, talvez por isso seja mais difícil, porque a gente não fica muito tempo junto. Preciso de ajuda pra passar esse momento.” (Nathassia)

amamentação prolongada e desmame: escolhas pessoais (foto: Kalu Brum)

Nathassia, em primeiro lugar que bacana a sua amamentação prolongada. Logo que li a sua mensagem pensei que se é bom para vocês dois a amamentação assim, então será mesmo a hora de desmamar? Nessa idade o bebê não ganha peso tão depressa quanto no primeiro ano de vida, o ritmo é outro e você precisa confiar no seu médico para juntos decidirem se esse “não ganha peso” é significativo. Você pode explicar para o pediatra que tomou a decisão de não desmamar no momento, e se ele pode te auxiliar dessa forma a ter outras idéias e alternativas para fazer seu filho comer melhor e aumentar o peso. A refeição deve ser um momento prazeroso e a apresentação da comida interessante e variada para a criança. Não é sempre que as mamadas tem a ver com o pouco apetite. Desde que seu filho começou a comer, como é o padrão de alimentação dele? Ele come bem na creche? A curva de crescimento dele caiu? Existem crianças que passam a mamar menos PORQUE passam a comer mais, nem toda criança que tem as mamadas limitadas passam a comer mais. O que você pode tentar é tentar evitar dar o peito uma hora antes da refeição, são tentativas e não uma fórmula pronta, o que funciona pra um bebê pode não funcionar para outro. O que você realmente quer? O que você acha que vai mudar se tirar o peito? Cada dupla mãe e bebê deve sentir a hora de fazer isso sem que ninguém sofra ou fique triste como você diz. Você diz que trabalha o dia todo e esse é o momento de vocês, então faça esse questionamento com sinceridade e amor, sem dar ouvidos para sugestões genéricas e se para você continuar vale a pena continue, que quando chegar o momento o desmame vai acontecer naturalmente, sem tristezas.

Tem alguma dúvida, angústia, idéia? Quer bater com a gente um papo mamífero? Mande sua questão para contato@mamiferas.com, que a psicóloga Mariana Tezini vai te abrir os braços por aqui!

Publicado em 08.jul.11

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Mariana Tezini

Mariana Tezini

Mariana Tezini, mamífera mãe do Caetano e da sementinha na barriga, e psicóloga. Uni a maravilhosa experiência da maternidade ao meu trabalho, sou especialista em terapia de família e casal e também grávidas e casais grávidos. A vida depois dos filhos ficou mais gostosa do que já era. Estarei aqui para trocar idéias sobre temas interessantes, refletir e compartilhar novas perspectivas sobre qualquer dúvida ou assunto.

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