Filhotes   

Estradas da Educação

por Kalu Brum

Edição: Renata Penna

a escolha da escola: uma construção delicada (foto: Kalu Brum)

Lembro-me até hoje da primeira vez que entrei em uma escola: um espaço enorme, infinitos alunos uniformizados, fazendo fila. Eu tinha seis anos, começava a primeira série e não havia sido alfabetizada – tive que fazer reforço para acompanhar a turma. Estudei em um colégio católico, rígido, apesar de minha família não seguir a mesma filosofia, o que gerava um intenso contraste entre os conceitos que recebia dentro de casa e na escola. Para a escolha da escola, minha mãe havia se guiado por um único critério: optou pelo estabelecimento mais próximo de nossa casa.

Afinal, quais deveriam ser as prioridades e o que se deve levar em conta nesse momento tão delicado: a escolha da escola de nossos filhos?

a pequena Ana, filha da assessora de imprensa Heloísa, preparada para ir à escola: escolha racional e instintiva (foto: arquivo pessoal)

Sandra Barbosa, pedagoga da escola Waldorf Pólen, em Belo Horizonte, acredita que como pais, e portanto educadores, é importante escolher a escola buscando unidade entre a filosofia do estabelecimento e o  que acreditamos ser verdadeiro e o melhor para nossos filhos: “É importante conhecer os próprios valores e ideais, para que haja coerência e parceria com a instituição escolhida”.

A editora de conteúdo e assessora de imprensa da Cia das Mães, Heloisa Vianna, mãe de Ana, 5 anos, que freqüenta a escola desde os 2, explica que escolheu a Teia Multicultural, localizada no bairro de Perdizes, em São Paulo, baseada em critérios que considerava fundamentais, mas não muito objetivos: “Eu penso assim: dá para considerar a es

cola como um prolongamento da sua casa? o espaço, o estilo, o jeito de ser das pessoas é semelhante ao seu? a educação praticada ali se aproxima bastante do seu modo de educar seu filho? você deixaria seu filho ali e sairia tranquila, sem se preocupar? Se ficar em dúvida em

relação a alguma dessas questões, é bom repensar a escolha”, afirma.

A escola escolhida por Heloisa tem uma proposta socioconstrutivista aliada à filosofia da escola democrática (inspirada na Escola da Ponte, em Portugal), uma mistura que veio de encontro a seus anseios para a educação da pequena Ana: “A Teia se afina com os ideais da minha família, na medida em que acreditamos na formação humanista, em criar indivíduos preparados para a vida, que possam construir uma sociedade mais justa, um mundo mais sustentável.

Acreditamos menos nas leis do mercado e mais na felicidade de cada um, da maneira que quiser, no caminho que escolher trilhar”.

Opinião compartilhada pela pedagoga, que vê como fundamental essa afinidade entre as bases da família e da escola. Para ela, escolher uma escola simplesmente por ser mais próxima de casa não é um bom caminho: “A proximidade de casa é simplesmente um detalhe para reforçar nossa preguiça e nosso comodismo. Não adianta ter uma escola do lado de sua casa, mas com uma linha pedagógica que não se afine com o que você considera importante. Temos que saber separar o essencial do supérfluo”.

Na opinião de Sandra, uma educação integral, verdadeira e equilibrada só acontecerá quando a linha pedagógica da escola estiver harmonizada com os valores e ideais das famílias, o que gera sintonia e parceria entre família e escola. “Quando a família tem ideais muito diferentes dos da escola, essa contradição gera conflito e insegurança na criança, pois ela fica sem saber em quem acreditar. A linguagem deve ser a mesma na forma de pensar, de sentir e de agir; a consequência dessa harmonia, para a criança, é a confiança”, explica.

[/caption]Heloísa, mãe de Ana, defende ainda a ideia de que não existe a ‘escola ideal’: “A escolha tem que ser racional e instintiva, ao mesmo tempo. É um voto de confiança, que pode e deve ser sempre revisto, renovado e até revogado, se houver necessidade”. O que será importante e desejável para uma família pode não ser para outra, por isso a necessidade de buscar uma escola que satisfaça suas necessidades e anseios, ao invés de supervalorizar a tradição ou a boa fama de uma instituição.

Baseando-se nesse raciocínio, a chef de cozinha e empresária Denise Haendchen, 32 anos, mãe  de Julia (6) e Alice (3), conta que procurou por uma  escola que tivesse um perfil diferente da maioria, e que oferecesse o que ela considerava importante: “Queria uma escola que não fosse ‘conteudista’ mas tivesse conteúdo, com um olhar apurado sobre cada criança, suas dificuldades e aptidões. Comecei procurando no bairro e nos arredores, e soube que o colégio Equipe mudaria para o meu bairro. Foi o arranjo perfeito, porque a escola agora fica a cinco quadras da minha casa, e vamos caminhando todos os dias”, relata.

Outro critério importante que Denise conta ter feito a diferença na hora de escolher uma escola foi a formação e interesse dos profissionais: “Para mim, a escola precisa ter professores, diretores e funcionários que tenham interesse em educar. A escola é um local propício para o aprendizado, e ele acontece o tempo todo, em sala de aula, no parque, na educação física”, reflete.

O espaço também é uma característica importante, que deve pesar na escolha, especialmente quando as crianças ainda são pequenas. A pedagoga Sandra acredita que um espaço em que haja contato com a natureza seria o ideal, mas caso não seja possível, vale privilegiar escolas em que os alunos tenham espaço para brincar com liberdade, em tanques de areia, parquinhos, em que se perceba uma preferência por brinquedos que estimulem a criatividade e a fantasia dos pequenos.

a chef de cozinha Denise Haendchen com as filhas, Alice e Julia: escola perto de casa, mas com valores afins (foto: Madalena Leles)

Conversar com outras famílias que têm filhos na escola, conhecer seus perfis e saber se o estilo de vida têm a ver com aquilo que se acredita também contribui bastante para a escolha. Denise conta que esse foi um fator que a ajudou  a escolher. Para conhecer melhor o estilo dos pais, ela explica que conversou com alguns alunos: “Queria entender um pouco de seus pensamentos e interesses. Vi ali crianças inteligentes e questionadoras, que gostam de leitura e são muito ligadas às artes  em geral. Era exatamente o que eu queria para minhas filhas”, conclui.

Para a pedagoga Sandra, “é nossa responsabilidade propiciar um espaço harmonioso, tranquilo e seguro para as crianças, e não só o ambiente físico, mas também emocional, porque as crianças absorvem tudo o que está a seu redor, o clima emotivo que as circunda, o caráter e os sentimentos das pessoas que as rodeiam”.  Ela ressalta ainda que cuidar do ambiente escolar passa pela atitude coletiva, e requer a autoeducação, que nos obriga a repensar nossos atos, gestos e valores.

Escolher a escola dos nossos filhos é uma tarefa difícil, que vai colocar em cheque nossas prioridades. Mas vale lembrar que é preciso tranquilidade na escolha e que, como em tudo mais que faz parte da maternidade, não existem caminhos certos ou errados, apenas estradas.

Nas próximas edições, vamos abordar as linhas pedagógicas existentes de forma detalhada, para que você descubra qual combina com você e sua família.

 

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Publicado em 08.jul.11

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Edição: Renata Penna

Kalu Brum

Kalu Brum

Eu era jornalista. Virei mãe do Miguel, nascido em um parto domiciliar a jato e me apaixonei pela profundidade deste mundo mamífero. Decidi: quero esta ocitocina para sempre. Virei fotógrafa de gestantes e doula. Ativista, praticante de Yoga, Reiki e Meditação. Às vezes doce e pacífica, na maioria intensa e radical. E assim vou me encontrando e tropeçando pela luta pelos direitos da Mãe.

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2 comentários na matéria “Estradas da Educação”

  1. Arthur tem três anos e vai a escolinha desde 1 ano e 8 meses. A escolha da escola nem foi difícil, se encaixava muito bem no estilo da família, muitos pais conhecidos e com os quais compartilho boa parte do modo de viver.
    Felizmente com o tempo tenho descoberto que o interesse econômico em alguns momentos tem calado o interesse das crianças. Sinto falta também de maior participação dos pais. Tal situação – ainda – não me fez achar que era hora de mudar de escola, até por dificuldade de achar outra em que o mesmo não aconteça.
    Fica então a sugestão de falar sobre as dificuldades encontradas, afinal, não existe a escola perfeita, existe?
    Ah! Me interessei demais pela abordagem das linhas pedagógicas. Vou esperar ansiosa!
    Parabéns Kalu e Renata, estou adorando o conteúdo do site!

    1. Com certeza não existe. Existem caminhos, possibilidades e aquilo que se encaixa melhor nas nossas prioridades e desejos para a educação de nossos filhos. E acima de tudo, é importante lembrar que, como disse a Heloísa, mãe da Ana, em seu depoimento, não é uma escolha irrevogável: pode e deve ser reavaliada sempre que essa necessidade ou esse interesse se apresentar!


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