De Mãe em Mãe

por Renata Penna

Fabíola Cassab, Analy Uriarte e Ana Basagila com seus filhotes: o nascimento da Matrice (foto: arquivo pessoal)

Uma advogada, uma arquiteta e uma design gráfica – três mães que acreditaram na máxima ‘sonho que se sonha junto é realidade’. Hoje, quatro anos depois, elas já ajudaram cerca de 2 mil mães a amamentar seus filhos. Isso, sem falar nas incontáveis mensagens de apoio, orientação e reflexão trocadas na lista de discussão virtual que mantêm, para ajudar outras mães a amamentar e informar sobre aleitamento materno.

Fabíola Cassab, advogada, 35 anos. Analy Uriarte, arquiteta, 44. Ana Basaglia, designer gráfica, 44. Mães de Paola, de Théo, Bruna e Fred, e de Roberto, Beatrice e Gabriela, respectivamente. Elas são as fundadoras da Matrice – Ação de Apoio à Amamentação.

O ano era 2007. Fabíola começou a se envolver com o tema amamentação. Desejava ajudar outras mães, compartilhar experiências. Procurou orientação no grupo Amigas do Peito, e conseguiu o apoio logístico do Gama – Grupo de Apoio à Maternidade Ativa, em São Paulo, que lhe cedeu uma sala para futuros encontros.

Passaram-se alguns meses, entre discussões e planejamento,  e em agosto deste ano acontecia a primeira reunião da Matrice. Logo no primeiro encontro, as voluntárias viram-se com uma situação difícil nas mãos: duas mães que haviam feito mamoplastia, cirurgia que pode ocasionar dificuldades com o aleitamento.

A partir daí, semana após semana, Fabíola, Analy e Ana dedicavam seu tempo à orientação e ao acolhimento de mães que desejavam amamentar seus bebês. Logo nos primeiros encontros tiveram muitas participações, mas algumas semanas depois, o grupo começou a esvaziar. “Tivemos várias reuniões em que esperávamos  e não vinha ninguém. Mas não desanimamos”, conta Fabíola.

a primeira roda da Matrice, 4 anos atrás (imagem: arquivo pessoal)

A decisão de ajudar outras mães a amamentar não foi fácil. Além das dificuldades logísticas e de tempo, havia o receio de atrapalhar as lactantes, ao invés de ajudá-las. “Tínhamos medo de acabar passando informações erradas, que acabassem comprometendo o aleitamento”, contam. Pensando nisso, Fabíola fez seu primeiro curso de Consultoria em Aleitamento Materno. A base teórica deu ao grupo maior segurança para seguir compartilhando experiências e apoiando mães.

Manter as reuniões semanais e firmar o grupo de apoio envolveu esforço e muita vontade de fazer acontecer. As voluntárias acreditam que o tema amamentação é delicado, pois envolve conceitos culturais arraigados, vivências pessoais profundas. “Muita gente acha que não precisa vir às reuniões porque não tem problemas com o aleitamento. Mas a reunião não é só para resolver problemas. É para trocar experiências”, explica Fabíola. Por isso, na Matrice, o mais importante sempre foi o apoio e a discussão das vivências, antes da técnica. “A idéia não é ensinar ninguém a amamentar. O grupo existe para funcionar como uma troca de experiências. A partir da experiência de outras mães, cada uma constrói a sua, que acaba sendo uma somatória de todas as outras. Por isso é tão rico”, contam, animadas. As reuniões do grupo acontecem como uma grande roda de conversa e acolhimento, onde não há certo ou errado, apenas visões pessoais, experiências e apoio mútuo.

Para as voluntárias, a grande dificuldade de trabalhar com apoio à amamentação é o fato de que o aleitamento não é apenas ‘operacional’, é um ato emocional, que envolve a história de cada mãe, não apenas a que vai buscar ajuda, mas também aquela que oferece apoio. “Faz parte do trabalho lidar com nossas próprias questões relacionadas à maternidade. Sem isso não saberíamos ouvir as outras mães, acolhê-las. Temos que estar o tempo todo trabalhando nossas próprias questões, lidando com nossos próprios fantasmas, para ajudar outras mães com suas dificuldades pessoais”, explicam. As três sempre viram o trabalho na organização como uma troca, já que dão muito de si e se expõem bastante para poder ajudar.

Outra base do trabalho da Matrice é apoiar de forma não intervencionista, sempre. A idéia é que o protagonismo no aleitamento deve ser da mulher. Ela é quem deve construir sua história de amamentação. Qualquer mudança, superação ou transformação deve partir dela.

Hoje, além das reuniões presenciais, a Matrice mantém uma lista de discussão na internet, com proposta semelhante à dos encontros: discutir o aleitamento, ouvir, apoiar e ajudar mães a amamentar.

a coach Anna, amamentando Mattias: rede de apoio que transforma histórias (foto: Carla Raiter Paes)

Ao longo dos 4 anos de trabalho, Fabíola, Ana e Analy, que hoje afastou-se da organização e mora fora do Brasil, foram colecionando lindas memórias e histórias de sucesso. É o caso da coach e educadora perinatal Anna Marcia Gallafrio, 30 anos. Quando o filho Mattias nasceu, Anna, que havia sofrido uma mamoplastia em 2001, teve dificuldades com o aleitamento, e chegou a receber da pediatra uma indicação de complemento. Inconformada, sentindo-se culpada por haver feito a cirurgia tantos anos antes, Anna procurou apoio na lista de discussão e nas reuniões presenciais. Encontrou uma poderosa rede de apoio e informação, que a ajudou a ganhar confiança e a encontrar a força que precisava para insistir na amamentação exclusiva. “Cheguei a levar meu marido em uma reunião, e fizemos um trato: sempre que eu ficava angustiada, ele olhava para mim e dizia: ‘Relaxa, você tem leite!’. Essa tranquilidade e essa confiança foram importantíssimas para que eu não desistisse. Era muito bom sentir o apoio das outras mulheres, na lista e nas reuniões, conversar com gente que acreditava na amamentação, gente que havia passado por dificuldades também, e superado”, relembra. Além da confiança e do empoderamento pessoal, Anna acredita que uma grande contribuição da Matrice veio das orientações técnicas e teóricas sobre aleitamento, que a ajudaram a encontrar o caminho para superar os obstáculos: “Quando o Mattias estava com cinco dias de vida, a Fabíola veio aqui em casa para me ajudar, porque eu sentia muita dor, e amamentar estava sendo sofrido. Ouvi-la contar das suas próprias dificuldades, escutar a experiência de alguém que havia amamentado por cinco anos, e que sabia tanto sobre aleitamento e tinha tantas dicas para facilitar o processo, fez toda a diferença”, conta. Hoje, Mattias tem treze meses e ainda mama, e Anna gosta de ir às reuniões quando pode e segue participando intensamente da lista de discussão, como forma de dar continuidade ao ciclo de apoio e troca que é a cara da Matrice: “É muito gostoso continuar dividindo, ouvindo as histórias, e de repente poder ajudar. Quando aparece uma mãe com problemas para amamentar, não consigo ficar calada: tenho que contar sobre o que vivi, dizer que é possível superar as dificuldades. É legal que aconteça assim: eu comecei sendo apoiada, hoje faço esse papel de apoio também”, explica.

Anna está longe de ser a única. São muitas as lembranças de mulheres que, ao longo dos anos, contribuíram com suas próprias histórias de amamentação, superação e conquista. Fabíola relembra uma delas, que morava longe dos encontros, vinha de ônibus, ainda grávida: “Ela caminhava para uma cesárea e não queria falar sobre o assunto, mas foi bacana respeitar essa escolha e tentar trabalhar aquilo que ainda poderia ser mudado. Explicamos a ela sobre a importância da amamentação na primeira hora, por exemplo. A neném nasceu de cesárea, mas mamou ao nascer e algum tempo depois, a mãe voltou às reuniões, super agradecida”.

Essa é uma postura fundamental para as ativistas: respeitar a caminhada e as escolhas de cada mulher, e trabalhar a partir disso. Com a experiência das conquistas e decepções que toda história de ativismo tem, compreenderam também que nem sempre é possível transformar as histórias pessoais. “Uma vez, uma vizinha minha com um bebê de um mês teve problemas na amamentação. Levei DVDs, livros, conversei muito, mas a bebê logo desmamou. Em casos assim, a gente sempre acaba se questionando se poderia ter feito algo mais, mas aprende também a encarar a responsabilidade pessoal: não somos mágicas, não somos onipotentes, não vamos mudar tudo”, relembra Fabiola. A advogada ressalta ainda a importância de comemorar os pequenos passos, muito valiosos:  “Com o tempo, você entende que não é só o 100% que vale. Cada pequena conquista é uma vitória”.

reunião da matrice, em julho de 2011: apoio e troca (foto: arquivo pessoal)

Foi aliás desta idéia que nasceu aquele que é praticamente o ‘lema’ da Matrice, um desejo das ativistas e a proposta do grupo: conseguir que o bebê mame “mais um dia”. “Aos poucos, um passo depois do outro, a gente consegue operar grandes transformações. E o leite materno é tão precioso, cada gotinha tem tanto valor para o bebê, para a sua saúde e imunidade, que um dia a mais de peito é realmente algo a se comemorar!”, comenta Fabiola, empolgada.

4 anos depois do início das atividades, as ativistas da Matrice – que hoje contam com o apoio de outras 8 mães, conduzindo reuniões e oferecendo suporte às lactantes -  têm o olhar voltado para o futuro, mas não alimentam ambições exageradas. Para elas, a Matrice é uma história familiar, um apoio caseiro, e é assim que deve continuar:  “Não temos a intenção de montar um negócio, de fazer ‘franquias’ da Matrice, esse não é o nosso caminho, nunca foi. A gente quer é manter o contato, o vínculo. Esse entra e sai das reuniões, as pessoas vão, voltam, compartilham, a gente chora, ri. Assim é a Matrice, como a vida: está sempre em movimento”, finalizam. Movimento de doçura e acolhimento, que transforma histórias aos poucos, de mãe em mãe.

Gostou? Quer conhecer um pouco mais do trabalho da Matrice? É só entrar em contato pelo telefone 96223737, pelo email grupomatrice@gmail.com, acessar o blog HTTP://matrice.wordpress.com, ou ir às reuniões presenciais, que acontecem todas as sextas-feiras, na Casa Materna (Rua Natingui, 380, próximo ao metrô Vila Madalena, em São Paulo – tel. 25067090), das 13h30 às 15h30.

Renata Penna

Renata Penna

Mamífera, mãe das três pimentinhas Ana Luz, Estrela e Chiara, ‘casadamigada’, filha de dois, irmã de um e amiga de uns tantos escolhidos a dedo, escritora, redatora e atriz. Sou bicho da arte, só sei viver criando. Apaixonada por cinema, literatura e fotografia, adepta-praticante das intensidades da vida. Ser mãe me deixou de cabeça para baixo - e eu achei o maior barato.

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3 comentários na matéria “De Mãe em Mãe”

  1. [...] Nós da Matrice sentimos muito orgulho de participar do projeto. Leia a matéria completa clicando aqui [...]

  2. Que trabalho mais lindo! Meu apoio total! recebam meus calorosos abraços e um pouco da minha contribuição nos posts do meu blog com o titulo:
    AMARmentar.
    bjao imenso a minhas amigas do peito!
    Biba Arruda Marques

    1. a Matrice tem mesmo uma linda história, que adoramos contar!
      beijos


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