Grávida… e Agora???

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a gravidez: às vezes, um susto (foto: Cacau Ferrreira)

Uma gravidez, nova vida que surge, é sempre um momento cercado de beleza, e um bocado de magia. Mas descobrir-se grávida sem ter planejado ou sequer desejado uma gestação pode gerar inúmeros sentimentos em uma mulher, que vão da felicidade imediata ao medo inevitável; da preocupação com o futuro do relacionamento afetivo ao receio de não ter condições financeiras, ou mesmo psicológicas, para oferecer ao bebê tudo de que ele precisa. As sensações diante de uma gravidez inesperada se assemelham a uma montanha russa, repleta de emoções das mais variadas, boas e ruins.

Nas propagandas, nos filmes, nas novelas, acontece quase sempre do mesmo jeito: o resultado ‘positivo’ no exame de gravidez é sempre seguido de muita alegria, sorrisos, comemorações mil. Mas na vida real… e quando não é assim que acontece?

Para a psicóloga e educadora perinatal Maria Angelina Pita, é natural não se sentir imediatamente feliz, plena e completa ao descobrir a gravidez: “As expectativas sugeridas pela mídia mostram-se irreais. A gravidez é um momento de grande turbulência emocional, quando a mulher revive situações infantis muitas vezes traumatizantes. Por outro lado, é também uma ótima oportunidade de remexer em temas guardados e se reestruturar psicologicamente”, explica.

“Foi um choque”

Turbulência seria a palavra chave para definir a descoberta da gravidez pela esteticista Tatiane Sattin, 24 anos. Tatiana sempre havia desejado ter filhos, mas via a gravidez como um plano distante: “Eu estava me preparando para cursar a faculdade, tinha acabado de sair de um relacionamento e ainda estava conhecendo melhor o pai da minha filha quando engravidei. Foi um choque descobrir que estava grávida, me perguntei como seria a minha vida dali em diante”, conta.

A esteticista se lembra do exato momento em que passou a se sentir realmente feliz com a gravidez: “Quando fui fazer a primeira ultrassonografia e vi aquele grãozinho de pessoa dentro de mim, com um coraçãozinho batendo, eu tive certeza que aquela seria a minha razão de viver dali em diante”, conta ela, que hoje é mãe de Beatriz, de 2 anos.

“Não flutuava em nuvenzinhas”

Para a vendedora Luiza*, hoje mãe de um menino de 4 anos, o mal estar relacionado à gravidez não planejada não se dissipou tão rapidamente: “Engravidei sem planejar, mesmo tomando pílula anticoncepcional. Me lembro claramente de não sentir nada ao olhar para a minha barriga, e me perguntar se eu estava sendo fria demais, ou o que afinal poderia estar acontecendo comigo”, rememora. Ela conta que se sentia estranha e deslocada: “Olhava ao meu redor e via mulheres da minha família e de meu convívio passando por gestações de conto de fadas, enquanto comigo, era simplesmente isso: nada. Não estava triste, deprimida, nem desejava mal algum ao meu filho, mas também não caminhava por aí flutuando em nuvenzinhas, e me culpava demais por isso. Me preocupava com coisas práticas como mudanças no meu casamento ou medo de ficar desempregada, por exemplo”.

às vezes, o sentimento de amor intenso só vem quando o bebê nasce (foto: Renata Penna)

Com o passar do tempo, o sentimento de Luciana foi mudando: “Quando meu filho nasceu, finalmente me senti envolvida por aquele amor que tanto falavam. Acho que precisei olhar nos olhos dele para finalmente vivenciar o sentimento”.

“È preciso não ter medo de sentir”

Assim como aconteceu com Tatiane e Luiza, os sentimentos negativos e de medo relacionados à gravidez tendem a diminuir, ou mesmo desaparecer com o passar do tempo. “Na maioria dos casos, eles melhoram no terceiro trimestre de gestação. É preciso não ter medo de sentir o que se sente, aceitar que é uma fase e que faz parte do processo de gravidez. Muitas mulheres tiram um peso enorme da consciência simplesmente ao saber que outras mães também se sentem assim”, conta Angelina.

Um medo comum e que muitas grávidas manifestam é o de que uma “rejeição” inicial à gestação possa afetar de alguma forma a criança. Porém, esse temor não se justifica. A psicóloga explica que não há evidências de que raiva ou ressentimentos temporários possam afetar o bebê: “As mães têm muito medo disso. O que acontece frequentemente é que o sentimento de culpa por ter tido esses pensamentos e sentimentos atormenta as mães por bastante tempo, e ficar presa nesse estado emocional não faz bem nem para ela nem para o bebê”, esclarece.

“Ideais de vida em confronto”

família: o apoio do companheiro e de todos ao redor é importante na gravidez (foto: Cacau Ferreira)

Outro medo recorrente é o do impacto da gravidez no relacionamento. O apoio do companheiro ou do pai da criança é muito importante para lidar com as mudanças que a nova gravidez traz. “Quando existe o apoio do pai certamente é muito mais fácil, mas a aceitação pode ser difícil, mesmo em casais casados. Alguns relacionamentos ficam estremecidos por anos e outros se desgastam definitivamente. Nesse momento, os ideais de vida de cada um podem entrar em confronto, e surgem acusações mútuas”, explica Angelina.

Se o pai do bebê não oferece esse suporte tão fundamental, é importante que a mulher procure apoio na família, nos amigos e em outras pessoas que estejam passando pela mesma situação. “Acima de tudo, o mais importante é buscar sua própria força interior”, completa a psicóloga.

Aprendendo a lidar com o imprevisível

Como em todas as experiências da vida, eventos não planejados podem nos trazer uma grande oportunidade de aprendizado e crescimento. Uma gravidez inesperada desperta a consciência de que não é possível controlar tudo, é uma chance de aprender a lidar com cada momento da forma como ele acontece, sem exagerar nas expectativas e projeções.

A forma como cada mulher encara as experiências, em todas as esferas de sua vida, também se refletirá na reação a uma gravidez não planejada. Uma personalidade mais controladora pode ter mais dificuldade para se adaptar, enquanto outra mais flexível, que lida bem com mudanças, o fará com mais tranquilidade. “Se o planejamento do engravidar não foi possível, planejar as outras coisas é. Ou seja, dedicar-se à escolha de tudo que é importante nesse período, em relação às opções de acompanhamento médico, compras, decisões para o pós-parto, etc”, esclarece Angelina.

Entender que certos acontecimentos fogem do nosso controle pode também ser uma bela forma de começar a aprender sobre a imprevisibilidade, que permeia a própria relação entre mãe e filho. “Certamente é uma grande oportunidade de aprender a lidar melhor com o imprevisível, porque afinal, toda a vivência da maternidade é imprevisível. É importante pensar que um planejamento total da gravidez, que tem grandes vantagens também, não evita muitos problemas que podem acontecer, e por ser mais minuciosa traz consigo uma maior probabilidade de frustrações”, explica a psicóloga.

“Tudo mudou para melhor”

a esteticista Tatiane Sattin, com a filha Beatriz: mudanças para melhor (imagem: arquivo pessoal)

Se é verdade que as mudanças são inevitáveis, vale lembrar que, dependendo de como se lida com elas, podem ser para melhor. Na vida de Tatiane, as transformações não foram poucas: ela teve que mudar de cidade – já que ela e o namorado resolveram se casar – adiar os estudos, ficar sem trabalhar durante algum tempo por conta da gravidez, e depois para conseguir ser uma mãe presente, mas ela avalia que foram mudanças positivas: “Minha vida mudou para melhor. Deixei de ser menina. E quando a Bia nasceu, aquele momento foi o mais feliz da minha vida. Ela estava ali nos meus braços e o amor que sentia por ela me fez superar tudo. Hoje percebo que consigo enfrentar as situações com naturalidade, e acredito que minha filha me trouxe essa força”, conclui Tatiane, com um sorriso doce e suave. Sorriso que conhecemos tão bem – sorriso de mãe.

 

* nome fictício

Publicado em 09.jul.11

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6 comentários na matéria “Grávida… e Agora???”

  1. Tati Sattin disse:

    Obrigada, meninas… Ficou maravilhosa a matéria!!!

    Bjinhos

    1. obrigada a você pela participação!!

  2. Rô! disse:

    “Se o planejamento do engravidar não foi possível, planejar as outras coisas é.” Costumo dizer muito isso ultimamente, sempre tive mania de planejar tudo e já tinha tomado decisões para 2011, quando descobri que estava grávida foi um susto, tudo teve que ser revisto e está sendo ainda. Uma das soluções foi planejar o resto, e principalmente, tentar aprender que não dá para controlar tudo.
    Acho que se a gravidez tivesse sido planejada todos os medos e encanamentos dos primeiros meses teriam sido encarados no processo de planejamento. O que é um pouco menos difícil já que não tem um montanha russa de hormônio no corpo rsrs…

    1. Luana Vieira disse:

      É sempre uma troca positiva quando leio os textos das mamiferas ..Gosto muito !
      Minha gravidez também não planejada ,mesmo com um namoro de 05 anos.
      E agora vejo o meu relacionamento completamente desgastado. Mas como tudo que acompanha a maternidade tem um lado positivo , foi ela que nos permitiu ter coragem de assumir que a relação acabou e que precisamos nos respeitar e aceitar enquanto pai e mãe e ex-namorados. Tarefa muito complicada , mas que estamos nos adaptando para não afetar o nosso filho.

      Forte abraço
      Renata e Kalu , adoro as suas mensagens , sou fã assumida rsrsrs

      Luana

    2. Luana, as transições são sempre difíceis, né? Porque são momentos de intenso crescimento, e crescer é isso, dói. Mas também traz coisas boas, faz a gente caminhar adiante. Toda sorte do mundo para vocês nesse novo momento!
      abração

    3. verdade, a imprevisibilidade faz parte da vida e dá até um gostinho bom, não é mesmo?
      o importante é a gente aprender a encontrar nossos camiinhos a cada passo, sempre buscando a alegria!


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